domingo, 2 de outubro de 2016

.pássaro de papel, 2016

vi teus olhos girarem feito montanha russa
achei nisto um motivo muito muito especial para sorrir
desde então percebi que as rodas giravam
dos carros das bicicletas das motocicletas
até mesmo quando o carrinho de pipoca chega eu começo a gargalhar

quando lembro de ti me abraço de uma forma muito íntima
como se eu dançasse ballet clássico no meio da avenida 13 de maio às 5:30 da manhã nascendo junta ao sol
meu sorriso nasce meu sentido nasce nós nascemos e nós bailamos juntas da tua forma sempre muito muito peculiar de lidar com os atrasos

chegaste tardiamente hoje
tiveste todo o tempo do mundo
tiveste todo o mundo e todo o tempo
e chegaste quando já não havia mais sol já não havia mais riso já não haviam mais braços para ti contemplar

faço-te um convite quase como um apelo
grito teu nome previamente
deixe-me certificar que os teus pés ainda estão de ponta
chegue desta vez às 4:59 em ponto que é para dar tempo de assistir os meus olhos nascerem
esteja aqui às 17:59 para assistir os meus olhos morrerem os meus olhos chorarem os meus olhos

esteja aqui e assista os meus olhos girarem

esteja aqui quando a primeira laranjeira vier a brotar

assistimos pássaros de papel e todos os origamis que os meninos do instituto fazem
veja estes aviões voando se estripando no ventilador fugindo de dentro da sala atropelados pelo primeiro automóvel

achamos absurdos dobrando as esquinas porque nada consegue ser tão absurdo quanto nossos lábios juntos nossos olhos juntos nossas almas juntas

nada é tão mais absurdo que nós nos equilibrando numa só bicicleta de uma vez só numa velocidade tão estupenda que ultrapassamos até mesmo a vida

e o nosso amor
tão bonito
coitado
perdeu-se na calçada antes mesmo da primeira curva

rimos muito

Daniele Wega

Fotografia: Lorena Lima

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