quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

.ruínas.


"Vórtice, voragem, vertigem: qualquer abismo nas estrelas de papel brilhante no teto."

As ruínas vêm contar a minha história. Há aqueles que nascem à primeira luz. O meu nascimento foi à primeira escuridão. O luminoso me foi roubado, o sombrio então me acolhe. Viver no corpo é doloroso demais. Abismo se torna abrigo e Hades se torna lar.

No mundo terreno que fui, morreu Alegria. Ressurjo em outros mundos. Do brilho que um dia me foi roubado dos olhos me torno mulher, da minha sombra que aqui conheci me torno Deusa.

Caminho entre as ruínas, abrigo o abandono. Minha cama é feita de cacos, assim como o meu coração. Meu abrigo é a destruição. Construo no que foi destruído.

Mas no meio da minha perdição, a obscenidade do teu olhar em mim, me puxa do meu abismo. As lágrimas regam. E trago comigo a primavera - aquela que não está no calendário, nem possui jardim.

Me torno aquela que caminha entre as montanhas e os abismos. A que conheceu as duas jornadas e encontrou um terceiro caminho. A que habita o centro do furacão. Aquela que caminha entre luz e sombra na busca do equilíbrio e as vezes o perde. A que desbravou a jornada para guiar a menina que atravessa o labirinto e nem sempre é pela procura da saída.


Minhas ruínas mostram as minhas cicatrizes, mas mostram a minha solidez. Sou voragem na vertigem do furacão. Abrigo o abandono e me encho de criação. Me diz, a tua obscenidade conseguiria voar no abismo que sou? A minha fluidez é a liberdade de saber que a cada lua e a cada sol, meu abismo tem estrelas.



.letícia lima.


fotografia: victor cavalcante

sábado, 24 de março de 2018

II. sobre o vulcão.


no se puder vivir sin amor (Malcoim Lowry, 1985)

Naquele tempo, minha única ocupação diária era tentar não morrer. Talvez pareça excessivamente dramático dito assim, mas assim era. Nem sinistra ou espantosa, apenas cotidiana feito xícara de café, janela aberta ou fechada sobre esse espaço vago que chamam de o depois, dentro e fora de mim, a morte estava sempre presente.
Naqueles dias uterinos, gordurosos, naqueles dias amnióticos quando eu não conseguia sequer sair da cama, trinta horas em posição fetal sem dormir nem viver, numa espécie de ensaio geral da treva definitiva deflagrada pela hospitalização de Daniel, pouco mais de quarenta quilos e nódulos púrpuras espalhados pelo corpo quase de criança onde, do antigo, restaram apenas os enormes olhos verdes, e também pelo suicídio de Julia, pulsos cortados e a cabeça enfiada no forno do fogão a gás, vestida de bailarina com tutu
de gaze azul e sapatilhas, depois de ter grafitado em spray rosa-choque no lado de fora da porta da cozinha alguma coisa em espanhol, alguma coisa amarga, alguma coisa assim: no se puede vivir sin amor. Daquele tempo nem tão distante, daqueles dias que até hoje duram às vezes duas, às vezes duzentas horas, restou esta sensação de que, como eles, também me vou tombando rápido dentro da boca de um vulcão aberto sem fôlego nem tempo para repetir como numa justificativa, ou oração, ou mantra, enquanto caio sem salvação no fogo que é verdade, que si, que no, que nadie puede mismo vivir sin amor.

 (Caio Fernando)

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...