segunda-feira, 1 de maio de 2023

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta.

escrevi um tempo atrás um poema sobre o meu nome
acho que faz parte do processo.
falei sobre o meu pai
falei sobre alegria
e prisão
falei de gostar da atriz
e de não gostar do meu nome.

morri algumas vezes na minha vida.
a maioria de nós passa por isso,
mas eu realmente acreditei. 
e eu não fazia ideia
do porquê de ainda estar aqui. 

foi o tempo em que lembrei daquela história antiga
da deusa que foi levada ao inferno pelo homem que a desejava
e do inferno, ela se tornou rainha
a única
que poderia andar entre os vivos e entre os mortos

a mulher diabo

não apenas
a mulher do diabo

me fez acreditar que,
apesar da morte,
eu era forte
deusa 
viva

eu,
que estava morta,
também poderia estar viva. 

no meu caminho, escolhi me vestir de branco.
inicialmente, não entendi o porquê.
mas acreditei nos meus sonhos.
(eles eram a única coisa em que eu podia confiar,
já que a memória me pregou tantas peças)

esse outro pai, bàbá,
me falou que minha cabeça
era daquela conhecida
pelo outro, o espelho, o amor

eu não entendi.

eu nunca fui graciosa.
um dos homens violentos uma vez me disse quando criança que eu tinha
"a delicadeza de um elefante".
eu acreditei.

um dia,
minha irmã me presenteou com um batom vermelho.
ela nunca me abandonou
ela não desistiu de mim
quando eu desisti.

me vi no espelho. 

Frida tinha um espelho na sua cama.
foi ela quem me ensinou que eu podia ser uma mulher
sem ser o que era esperado.

esse pai me contou o segredo
que era no espelho que havia a passagem
entre o mundo dos vivos
e o mundo dos mortos.
(mas ela não deixa eles saberem eles não merecem saber eu devia ter percebido isso antes.
mas precisei aprender.)

aprendi nesses tempos
ouvindo, vendo, sobre a quaternidade
um amigo um mestre
falou do que é virgindade
(é importante não negar o masculino)

já sofri muito com as definições cristãs.
como as beguinas
Jung ensinou que virgem
virgem é aquela que escolhe ser livre
(não é sobre buracos)

para tentar encontrar o meu corpo
perdido no inferno
me conectei com a terra
viva
com as estações do ipê amarelo.

a natureza me ensinou
vida-morte-vida
com a morte, vem a vida

om mani padme hum

essa semana a psiquiatra me perguntou porquê não tento me afastar de vez da depressão
ela está sempre ali
juntei os argumentos de sempre
olhar a sombra me manteve viva
habitar a ruína me permitiu estar viva

minha terapeuta me questiona sempre sobre sustentar o bom
mas santo de casa não faz milagre

você não precisa mais
aceitar restos
reivindique o que é seu.

aquela deusa negra
me libertou
ou
me fez
permitir libertar

se já posso
não me reconhecer apenas como diaba
se já posso
não me nomear louca para aqueles que não tem olhos pra ver
a vida
a resistência
a criatividade
da loucura
(mas não entre nesse mar)

quem sou?

le.tí.ci:a.

palavra que não existe em inglês
alegria é da língua daqui mesmo, da raiz
fecundidade da terra
a que escolhe ser livre

tem aquela santa letícia
no meu equilíbrio
a diaba me liberta
de ser mártir
a santa me ensinou
a lutar e ser livre

agradeço aquele que me fez perceber a beleza da sonoridade do meu nome.
agradeço aos que não desistiram da alegria;

prazer,
me chamo
le.tí.ci:a.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

. ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Vinícius de Moraes

pintura transada


se você quer tocar em mim
você tem que pedir ao meu corpo
você tem que conquistar a confiança do meu corpo
comece com respeito
toques suaves, talvez desajustados talvez disfarçados,
comece devagar
conquiste com segurança
que o meu corpo saiba que o seu corpo não quer me machucar
se aproxime, então
delicadamente, deixe a delicadeza de lado
conquiste o meu corpo com intensidade
de um corpo que sabe o que deseja
quer os movimentos sejam rápidos ou lentos que sejam intensos
conquiste o meu corpo com um jogo
o jogo em que nós dois ganhamos
o jogo em que dar prazer tem tanto valor quanto ganhar 
enxergue o meu corpo real como ele é
conquiste o meu corpo com o encontro
esse encontro indescrito ou indiscreto 
é o momento em que o teu corpo conquista o meu corpo
e nesse momento 
há uma explosão.
o meu gemido no teu ouvido.
o teu sorriso de prazer.
e. nada. mais. 

cicatrizes


esses cacos de vidro espalhados pela casa
são tantos certamente não podem ser
de um copo de vidro ou um prato de vidro
ou de um vaso de vidro são tantos
teriam que ser de todas as coisas de vidro
que podem existir em uma casa
não  penso depois
teriam que ser de todas as coisas
que ao longo de uma vida
se quebram por dentro

Lilian Sais

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

15.

aprendi
fazem uns anos
que o meu grande abusador sou eu.
que me martirizar não adianta.
não sei o que aprendi depois disso.

talvez eu esteja procurando
em meus caminhos

na parede tinha o rascunho da árvore que dizia que nem todos os que vagam estão perdidos

14.

preciso parar de escrever a minha mão dói preciso fazer xixi mas parece que não posso parar até me redimir do que só foi chamado de crime por mim:
que pena que pena 
amanhã é sábado

13.

gostaria de conseguir resolver.

gostaria de conseguir melhorar.

e não ferir.

passou-se o tempo em que ferir por ter sido ferida
era uma explicação razoável

talvez seja mais honesto dizer

eu não sei amar quem me ama.

12.

ontem
na propaganda do jornal
a repórter fez o convite:
vamos meditar?

minha mãe repetiu a frase
fazendo ironia, 
piada leve
boca-pra-fora

meditação não me liberta
me paralisa

a linha 
entre o remédio
e o veneno
muitas vezes
vai depender 
do seu organismo

11.

 aterrar ou sobre ser raíz

1. gostaria de aprender a me fazer/sentir presente

10.

é,
de fato
assustador
perceber

que a realidade é que quando eu não me valido
eu te invalido também

9.

meu nome veio a mim
por causa daquela atriz bem bonita
que estava na novela
o teu também?

adoro a voz da atriz
mas nunca tinha gostado
do nome.

meu nome parecia uma prisão.

veja bem: 
quando criança, ao perguntarem o significado do meu nome 
eu dizia: alegria.

meu pai repetia isso 
quase como em oração

é de fato uma pena
que eu tenha entendido 
que eu era isso
mas 
que eu só podia
ser isso

em mim, 
ser alegria tornou-se uma prisão.

ano passado eu fui muito livre.

menos do que hoje desejo ser.
mais do que jamais imaginei ser possível.

na tua voz aprendi a perceber a beleza da sonoridade do meu nome.
depois de mais de década
ano passado 
senti
quebrei minha jaula
imaginária também

hoje sou sim, alegria.
me faço livre.

8.

me pego em muitos dias
extremamente cansada
dos meus próprios dramas pessoais

tenho tanto medo
que vocês também.

acredito que a autorresponsabilidade
me emancipa 
me permite
transformação

mas parece
que na encruzilhada
entre honrar o que eu realmente sou
ou
tentar não desagradar 
repito o mesmo erro
de não escutar o conselho
de meu amigo:

quando não resta mais nada a ser feito,
o que podemos fazer é ser honestos.

7.

passei a semana 
recomendando à pacientes 
que colocassem as suas angústias no papel

hipócrita

encarei o papel em branco por meses.

fazem uns anos que me sinto assim:
meio esvaziada de palavras.

ainda não aprendi a nomear aquilo que sinto 
tão intensamente

as vezes me perguntam
"o que é a dissociação?"

dissociação é:
1. não ter memórias genuínas da maior parte da minha jornada até aqui;
2. não notar que me queimei na panela quente;
3. não conseguir identificar o que sinto;
4. não controlar movimentos corporais em momentos de crise;
5. perder o controle;
6. não me identificar ao me olhar no espelho;
7. ter uma péssima noção espacial;
8. (...)

como me disse um mestre,
a dissociação
é quando um bruxo rouba a sua alma
e a leva para o mundo dos mortos

é habitar a vida, 
mas não viver a minha vida.

me pergunto:
o quanto de mim é patologia
e o quanto é covardia
?

pelo menos
a covardia 
me dá autonomia de ação
ou reação

me apavora a paralisia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

6.

consigo encher o coração
de amor
pelas imperfeições.

pelas imperfeições que 
habitam fora de mim.

hoje voltando do trabalho eu vi uma ruína.

bate o ímpeto 
de pular do ônibus
e adentrar
em um espaço em que me sinto acolhida.

embora eu saiba que a ruina é uma desconstrução

mas me torno
tão violenta
no momento em que 
inverto
e vejo a ruína que habita em mim.

5.

gosto de acreditar que sou honesta.
admito algumas falhas
fiz o loàs à imperfeição
há um tempo atrás

mas escuto perguntas em que vejo que minto
em suas respostas
talvez pelo puro orgulho
de não revelar
que eu talvez não saiba ainda quem é que eu sou

eu, que nunca
nunca me percebi orgulhosa,
sou.

4.

me perco entre os opostos
entre ser submissa
ou ser opressora

ninguém me avisou
que ao tentar descobrir
como existir sem ser ferida
eu iria ferir

3.




O que fazer, então
se não aprendi a ser amada
se pareço bicho ferido
avançando nas mãos daqueles que só desejam fazer carinho
?

2.




passei um tempo habitando o inferno
mesmo
quando a porta que levava até o mar
já estava aberta.
parece que passei tanto tempo
acostumada com as correntes
que não percebi que elas
já não estavam mais em mim


1.


costumo sonhar com caminhos,
como aquela poeta
parecem mais labirintos
na verdade
são túneis

cavernas.

onde meu corpo
fica parte coberto com água

e eu caminho.

confesso que caminho 
mas nem sempre
com a intenção de chegar

raramente os meus túneis me causam medo.
e meus sonhos
costumam ser encharcados de medo,
não é tão distante do que eu achava que era ao estar acordada.

caminhar nem sempre a procura da saída
já me fez encontrar muita gente boa.
a calma permite o meu encantamento,
como tenho aprendido.

há uns dias sonhei com um caminho.

um caminho
mas não tão óbvio quanto o túnel

era uma montanha na praia. 
havia grama verde até a beira do mar
falésia abaixo
eu estava em perigo, 
novamente 

era noite.
haviam tambores gigantes alfaias do tamanho de prédios
por todo o mar.
você estava ao meu lado.
era noite e tinha a luz da lua

eu não sentia medo

.

- infelizmente não recordo o nome da artista que produziu a imagem.

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...