quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

. ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Vinícius de Moraes

pintura transada


se você quer tocar em mim
você tem que pedir ao meu corpo
você tem que conquistar a confiança do meu corpo
comece com respeito
toques suaves, talvez desajustados talvez disfarçados,
comece devagar
conquiste com segurança
que o meu corpo saiba que o seu corpo não quer me machucar
se aproxime, então
delicadamente, deixe a delicadeza de lado
conquiste o meu corpo com intensidade
de um corpo que sabe o que deseja
quer os movimentos sejam rápidos ou lentos que sejam intensos
conquiste o meu corpo com um jogo
o jogo em que nós dois ganhamos
o jogo em que dar prazer tem tanto valor quanto ganhar 
enxergue o meu corpo real como ele é
conquiste o meu corpo com o encontro
esse encontro indescrito ou indiscreto 
é o momento em que o teu corpo conquista o meu corpo
e nesse momento 
há uma explosão.
o meu gemido no teu ouvido.
o teu sorriso de prazer.
e. nada. mais. 

cicatrizes


esses cacos de vidro espalhados pela casa
são tantos certamente não podem ser
de um copo de vidro ou um prato de vidro
ou de um vaso de vidro são tantos
teriam que ser de todas as coisas de vidro
que podem existir em uma casa
não  penso depois
teriam que ser de todas as coisas
que ao longo de uma vida
se quebram por dentro

Lilian Sais

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...