segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Pra machucar os corações.



Para quem tem mais de 30, 35 anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não é que seja um mau disco. Eu explico. Ou tento. É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela memoria e refletido no tempo presente – agora -, parece sempre melhor. E terá mesmo sido?

Apenas, quem sabe, porque não havia fadiga lá. Aquela fadiga que se insinua, persistente, entre o ruído das buzinas e das descargas abertas nos engarrafamentos de trânsito, todo dia. Ou essa, de atravessar mais uma vez qualquer avenida às seis da tarde para, de repente, olhar a multidão também fatigada e preguntar: mas que cidade, afinal, é esta. E que vida? A quase amável, paciente fadiga de contemplar o grande relógio das repartições e escritórios  quase imóvel na sua lentidão, a partir das cinco e a caminho das seis da tarde. Para nos despejar, novamente, nas ruas entupidas de fumaça e desejos bandidos nas esquinas, dentro de carros apertados entre outros carros ou de ônibus apinhados – até o interior dos apartamentos, com seus fantasmas emboscados, uns mortos, outros vivos. E então o acúmulo de contas atrasadas, telefonemas ansiosos, telenovelas chatas, quem sabe algum plano, certas fantasias. Outra cidade, outro país, outro planeta, outra vida que não esta – uma memória de flores no cabelo e pés descalços, pouco antes do ruído do despertador e o do meu/teu/dele/nosso coração serem os únicos audíveis dentro da escuridão onde afundamos na lama de nossos sonhos mortos.

Mas eu falava – tentava – de um disco. De John Lennon.

Ele foi gravado ao vivo, no Madison Square Garden, a 30 de agosto de 1972. Há quase, portanto, 14 anos. Você tinha quantos – 15, 20, 25? E provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras, nem países, nem ódio entre as pessoas. Um mundo novo, não é isso? Depois houve cinco tiros nas costas, e pouco antes, durante o depois, os muros das cidades pixados com frases como “flower-power is dead”. E então uma invasão de cabelos muito curtos, quase raspados, roupas negras, couro justo: a ridicularização de tudo em que você acreditou durante tanto tempo – e largou faculdade, largou família, caiu em bandos pelas estradas para sonhar com essa coisa que não aconteceu: um mundo novo. O deboche das suas antigas – e perdidas – ilusões. Patrício Bisso só sobe no palco para cantar qualquer coisa como “bolsa peruana? Sandália indiana? Hippie! Mata”. Eu rio, você ri, ele ri – nós rimos todos juntos. E temos um sutil cuidado em evitar, no vocabulário, no vestuário, qualquer detalhe capaz de nos identificar como sobreviventes daquele tempo. Agora somos mais do que modernos: demi-darks. Não temos fé, nem esperança, nem caridade. Bebemos vodca pura, cheiramos umas. Nunca mais compramos uma caixinha de incenso. E a bad-trip pinta sem química.

Tudo isso dói tanto. Eu nunca mais tinha ouvido John Lennon. O tempo corre, a gente vai descobrindo jeitos de se proteger. Elis? Nem pensar: põe aí a Paula Toller. Marc (quem lembra?) Bolan? De jeito nenhum, melhor um Boy George, cara. Let´s Roller. It´s only rock and roll. Só que eu nem sempre sei se gosto. Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco-negro do futuro.

Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:

- Mother!

Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?

(Publicado no Estadão, Caderno 2, Domingo, 6 de abril de 1986)




Texto de Explicações.
"Mas sei lá, não sei se toda essa coisa patética é mesmo necessária. Tô resolvendo umas coisas aqui viu, esses negócios de sentimentos demonstrados demais meio que estraga. Tô aqui aprendendo que nem todos dão valor ao que você pode oferecer, e acabar demonstrando afeto demais começa a encher o saco, e eu digo tudo isso da minha parte. Chega de ligações, preocupações, sentimentos demonstrados aos extremos. Vou ficar mais relax mesmo, não quer me ligar, não liga, mas também não ligarei. Não quer me ver, não me veja, mas também não sairei que nem doida atrás de você pra saber se a gente vai se ver, que horas é o nosso encontro, não mais. É apenas um aviso que eu deixo bem simples: se quiser, me procura você. E outro aviso que eu deixo também: isso tudo é só conversa mesmo, teoricamente falando, tá tudo certo. É quando chega na hora da prática que ferra com tudo..." 

Caio Fernando





Afinal.



domingo, 16 de dezembro de 2012

Meu novo Et de Perpétuer

O Perpétuer foi criado em março de 2010 e dez por uma quase criança - eu -, e a sua amiguinha. O nome vem de perpetuar, de eternizar. Veio de quando uma linda professorinha minha falou da importância de se eternizar contos, ensinamentos e histórias. Falando que se as histórias infantis não fossem passadas de pai pra filho desde o princípio, não chegariam até hoje. E eu senti uma grande necessidade de eternizar os meus textos, os meus pensamentos, os meus aprendizados e as minhas histórias. Não existem aqui só textos meus ou dela, mas também textos e músicas que expressam o que queríamos expressar. Começam com textos infantis, amadores e toscos, e conseguem ir até bons textos. Não nos julguem pela pouca idade ou uma visão errada, queremos apenas nos eternizar. Nunca fizemos blog para ser famoso ou conhecido, nunca caçamos seguidores, e por muitas vezes, fizemos questão de não divulgar. Pode ser que 3 pessoas leiam isso, ou 30, ou até mesmo, nenhuma. Mas quero me explicar. Nunca postei constantemente, não é sempre que posso, nem sempre que consigo, mas todo dia, todo dia mesmo eu entro no blog. E bom, recentemente aconteceu uma verdadeira catástrofe. Fui fazer um favor para o meu pai em seu celular com o meu email, e os álbuns do Picasa, o programa que grava as fotos do blog, foram apagados, e com isso, perdi todas as fotos das postagens, do plano de fundo, do perfil e da logo do blog sumiram. O blog ficou simplesmente acabado. Eu fiquei verdadeiramente muito triste e decidi abandonar de vez. Mas não deu, senti falta, pois cresci com o Perpétuer e cada postagem daqui me mostra uma fase da minha vida. Então, com muito esforço, recomecei. Sou uma nova pessoa, com novas histórias, novas experiências, novos pensamentos, novos aprendizados, e agora, com um novo blog. Que venha uma verdadeira nova (e boa) fase! 

 




terça-feira, 2 de outubro de 2012

amanhecer

vontade de viajar!../ sentindo a brisa do mar/ lavar a alma nas águas de Iemanjá/ ver a Lua cheia, de luz e encanto/ saudar o Sol quando tiver nascendo e deixar que ele entre com seus raios/ pra que fique dentro de mim uma fagulha da Luz/ e assim me renovar/ amanhecer (florescer)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O dia em que a Terra parou.

POSTAGEM ANTIGA DO DIA 11/09/2012


"Hoje eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou"
(Raul Seixas)

Cenas horríveis
Eu via tanta gente triste
Tantas sofrendo, com medo
No dia em que a Terra parou

Mas lá atrás
Da grande e bela ribanceira
Tanta terra limpa
Eu via tanta coisa bonita
No dia em que a Terra parou

Esqueci a minha dor
Não tinha mais aquele ardor
Me senti completamente livre
No dia em que a Terra parou

E se não voltar?
E se a Terra não rodar?
E nunca mais mudar
O dia em que a Terra parou?

Vamos sofrer?
Ou apenas parar de chover?
Com o dia em que a Terra parou?

E com a moça triste
O que há de acontecer?
Com o sofredor, com o bruxo e o trocador
O que há de acontecer 
No dia em que a Terra parou?

Se nada mais vai acontecer
Se não chorar, cair, ou sofrer
E se eles não vão mais me ver
Não quero nunca mais estar 
No dia em que a Terra há de voltar


ll
O engraçado, é que eu escrevi esse texto assim que acordei, de manhãzinha, e só depois fui descobrir que hoje é 11 de setembro.

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...