quinta-feira, 17 de março de 2016

.passagem da noite.

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Carlos Drummond de Andrade






quarta-feira, 16 de março de 2016

.pessoas como flores.


que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços, acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim
por tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
Charles Bukowski

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

7.

eu diria do amor que o amor é reto
que o asfalto do amor acaba
mas o amor continua
desbravando o mato

Martha Madeiros

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

.uma biografia anatômica ou a ferida que eu não posso pontuar.



Photography by Kyle Thompson
A anestesia está passando.
Continua embaçado,
Mas a névoa vai passar.
É absurdo ter que lembrar-te,
A ferida foi em mim.

Minha perna encontra a quina que rasga. Rasga.
Meu pulso encontra faca, tesoura, unha e desespero.
Minha caminhada é rasgada pela repetição.
Os calos sangram.
Invisível, minha cabeça é repetidamente almofada dos voos.
As lágrimas vermelhas caem.
De ignorar a ferida, surge o calcanhar nunca superado.
E de carregar, minhas costas nunca descansaram.
Eis que em mim, todas as feridas terminam abertas.

Todos os dias, é necessário sangrar mais para sangrar menos.
As mãos pesadas me rasgam e dizem curar.
Eu acredito. Iludidamente?
A ferida é mais profunda do que a casca aparenta.
E eu que pensei que em mim seria só um arranhão.
Iludida.
Iludida? Eu sabia?
Eu sabia.
A ilusão da cura é rasgada.

Pensei, como um afago, que ao menos na saída eu seria buraco de bala.

Parece que eu fui um arranhão.
Existente Rapidamente
Chata Inconveniente
Em mim, há a necessidade de pontos
(Que nunca são dados
Pontos são o superficial
Não é Real.
Oi, aure
Não podia só dessa vez
eu escolher the road already taken?
não.)
Eis outra ferida, que eu não posso pontuar.

Você me rasgou mais do que o cego bisturi.
Te chamaria de cirurgião que treme
Mas as feridas são compatíveis
A uma autopsia suja
A uma monitoria despreocupada
No cadáver esquecido
Tentava abrir mais feridas na esperança que a aquela parasse de doer.

Eis que já estou falando demais.

“Haverá uma boa cicatrização, só (que) hoje não”

A curetagem deixa a marca do grito (e o sangue seco).
A cabeça nega mas a pele não.
Só o vermelho é Real.
Orgulhosamente, nunca gostei do verde.

A voz amiga diz, she’s back.
I’m back.
Na maré de hoje,
Eu faço o meu próprio curativo, a minha própria curetagem.
Dessa vez, irei curar?
Irei curar.

Ainda existe a distensão.
Mas há muito tempo, a náusea já é familiar.
Eu não vomitarei por ti.

Eis que já estou falando demais.

Mas oceano não para,
E não irei silenciar.
A cura é de dentro pra fora.
E hoje eu grito,
Tirem de mim todo o branco. 


lê.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

07.02


É como se eu tivesse medo de viver a realidade.
Eu procuro estar anestesiada.
A menina que disse sentir o mundo.
Estou olhando para o mar, deitada em uma rede, ao lado das árvores, 
e eu ainda não consegui tirar os óculos escuros. 
O momento.
Nunca no momento.

Parece que tem um buraco vazio no meio dos meus peitos. 

Buraco negro, tudo e nada.
Eu percebo o início das sensações. 
O início da alegria, o início da dor. 
Eu sei que elas estão aqui, em algum lugar, mas elas nunca chegam.
Me preencho, então, de alimentos e momentos falsos.
Eu tão sensação, sendo enganada por essa criança que quer 
tapar o buraco negro com uma folha de papel, pensamento. 

Há muita dor.
Há muita dor.
Há muita dor.
Mas ela não chega.
Não há riso, não há vida, não há realidade.

Será que posso dizer que sinto algo? 

Vejo o mar, no meio do furacão. 
Só hoje, o furacão. 
Eu cheguei.
Enxergo, sei que sou eu, mas não consigo alcançá-lo.
Eis que ele me busca, um resgate. Tenta.
Não consigo encontrar.
Respiro mas não pareço respirar.
Mastigo mas nada tem gosto.
Leio a poesia.
Enxergo, seu que sou eu, mas não consigo a
alcança-la.
Me busca, poesia. Me encontra.
Eu tenho medo.
Eu tenho o vazio.
Eu não consigo respirar.

Letícia, Real Oceano. Eu não quero estar congelada.

.maré alta.



Antes de ser eu mesma
(ou isso que penso ser),
eu jogava esconde-esconde
com meus fantasmas
- os terríveis e os gentis.

Os dias me viravam do avesso
e desviravam,
as horas me traçavam
para me desarrumar.
Quanto mais me busquei
nos espelhos secretos,
mais me perdi de mim.

Quando chegou o tempo da verdade,
entendi que sou
- num fundo porão das horas -
reflexo de reflexo
de reflexo,
nada mais.
(E que deve ser assim.)


Lya Luft

O tempo é um rio que corre


.ah, um soneto...

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ...

Álvaro de Campos

.mas eu

Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

.3. cantiga de hoje à noite

Não. Não me peçam singelezas.
Se penso em flores, céu e campo,
o pensamento espalhado bucólico em recantos de infância,
se pesquiso espantos renascidos de ocultos vãos de memória,
a forma me sai fria, em gelo e sal.
Nos ásperos caminhos de meu tempo
já não encontro passos predestinados:
cirandas confusas em torno de ídolos de pedra, desesperados abraços, desvairados encontros
sem amanhã, sem depois.
Já não consigo amenidades no falar.
As estruturas criadas em cristal são apenas vidro,
vidro partido violentando veias onde nasce um sangue inerte.
Inútil sangue de meu tempo
percorrendo escuros caminhos de cansaço.

Por favor, não esperem doçuras do meu canto.
Não esperem doçuras de ninguém mais,
não esperem se quer o canto:
maldito aquele que quiser purezas.
E no entanto, houve um tempo em que eu cantava.
Nos teares antigos de meu peito
rocas de prata entreteciam esperas,
intermináveis rendas de alegria.
Geradas por raízes de terra
uma seiva lenta e calma envivecia os membros.
Ainda assim, o voo pesa.
O impossível voo em meu corpo sem asas.

Peçam-me apenas silêncios. E que no meu escuro claustro
encontre aqueles cantares, encontre a mão de um amigo.
Mas já não creio em canções e os amigos me traíram.
Em traições e guitarras, difícil achar a flor.

Caio Fernando Abreu 
13 de abril de 1969

terça-feira, 24 de novembro de 2015

um abraço para Manoel.

Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.

Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.

E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.

E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.



Mia Couto

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

já passou.

Nada
Não :
Foi só um desejo
De tomar cicuta
Que o andar
Pela rua
E o perfume
Da murta
Desfizeram

Zélia Guardiano

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...