segunda-feira, 4 de abril de 2016

.XIV


Como se desenhados
Tu
E o de dentro da casa.
Entro
Como se entrasse
No papel adentro

E sem ser vista
Rasgo
Alguns véus e fibras

Sem ser amada
Pertenço.

Que sobreviva
O fino traço de tua presença.
Aroma. Altura.
E lacerada eu mesma

Que jamais se perceba
Umas gotas de sangue na gravura.

Hilda Hilst
Cantares da Perda e da Predileção

quinta-feira, 31 de março de 2016

poema de sete faces.

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.



Carlos Drummond de Andrade

domingo, 27 de março de 2016

.porta-retrato.

Tinha secado: esse era talvez o ponto. Não a palavra exata, que já não tinha essas pretensões, mas a mais próxima. Sabia pouco a respeito de árvores, ou sabia de um jeito não-científico, desses de tocar, cheirar e ver, mas imaginava que o processo interno de ressecamento começasse bem antes da morte aparecer no verde brilhante das folhas, na polpa dos frutos ou na casca do tronco. Não era evidente nem externo ou explícito o que padecia. E padecia? perguntava-se detalhando os traços com as pontas dos dedos, nada que revelasse na umidade da boca ou num contorno de nariz — uma dor? Não era assim. Gostaria de voltar atrás, com sentimentos curtos e claros feito frases sem orações intercaladas, iluminar aos poucos, um mineiro, uma lanterna, o poço fundo, uma linguagem? A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-secom outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre. As luvas brancas, as longas pinças esterilizadas com que tocava sem tocar o todo, o tudo e o si. Um vício que lhe vinha quem sabe da mania de ouvir música erudita, mesmo enquanto apenas vivia, antes os fones nos ouvidos que os gritos na vizinhança. E por mais que afetasse um ar de quem lentamente cruza as pernas em público, puxando com cuidado as calças para que não amarrotassem, saberia sempre de sua própria farsa. Tão consciente- mente falsa que sua inverdade era o que de mais real havia, e isso nem sequer era apenas um jogo de palavras.

A grande mentira que ele era, era verdade. Ou: a mentira nele nunca fora fraude, mas essência. Seu segredo mais fundo e mais raso, daí quem sabe a surpresa branca de quando ouvira um quase-amigo dizer que não passava de uma personagem. Prometera-se sentimentos sem intercalados, mas sentia agora uma necessidade de explicar ao ninguém que superlotava sua constante platéia, com ele sempre fora assim: quase-amigos, nada de intimidades. Mas voltando atrás no ir adiante: uma surpresa quê. Não, não uma surpresa quê. Uma não-surpresa surpreendida, pois como e porque se fizera visível e dizível naquele momento o que nem sequer alguma vez escondera? Perdia-se, não eram teias. Nem labirintos. Fazia questão de esclarecer que sua maneira torcida não se tratava de estilo, mas uma profunda dificuldade de expressão. Por esse lado, quem sabe? As emoções e os pensamentos e as sensações e as memórias e tudo isso enfim que se contorce no mais de-dentro de uma pessoa — tinham ângulos? Havia lados mais como direi? Fragmentava-se: era os pedaços descosturados de uma colcha de retalhos. Pedia atenção aqui, por favor, mais por gestos, entonações ou simplesmente clima, e regirava: era os retalhos, um por um, não a colcha, ele. Desde o xadrez vermelho ao cetim roxo sem estampa, e assim por diante, todos. Quase parava de aborrecer-se então, como quem troca súbito uma peça para violino e cravo por um atabaque de candomblé. O leve tédio suspenso como poeira espanada logo voltava a desabar. O bocejo era a compreensão mais amarga que conseguia de si mesmo. E posto isso, cabia a seguir qualquer atitude desesperada como casar, tentar o suicídio, fazer psicoterapia ou um concurso para o Banco do Brasil.

Localizava-se, mais fácil assim, dando nome às coisas. Um entusiasmo tênue como o gosto de uma alface. Isso, estar, ser. Uma vontade de interromper- se aqui, paladar estragado pelo excesso de cigarros tentando inutilmente dar um nome ao gosto que fugia entre os dentes. Em algum quarto, há muito não sabia de línguas no seu corpo, ou tão sabidas tinham se tornado que. Vacilava entre a certeza quase absoluta de estar alcançando qualquer coisa próxima de uma sabedoria inabalável, alta como um minarete, gelada como um iceberg — melhor assim: uma montanha de compreensão sem dor de todas as coisas. Ou, talvez o ponto, nem icebergs, nem minaretes — mas árvore. Inventava com os olhos no ar vazio à sua frente um verde copado de sumarentos frutos, como se diria num outro tempo, se é que alguma vez se disse, dizia sim, dizia agora, desavergonhado e frio. Verde copado de sumarentos frutos. Folhagem de seda lustrosa. Tronco pétreo ancestral. O seco invisível como verme instalado no de-dentro. Impressentível, sob a casca, caminhando lento, questão de tempo, apenas, e semente contendo o galho crispado, mão de bruxa, roendo. Tinha dois olhos duros. Dois olhos grandes de quem vê muito, e não acha nada. Tinha secado, era certamente esse o ponto. Nunca a palavra exata, esclarecera de início. Já não tinha mais essas pretensões.


Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 17 de março de 2016

.passagem da noite.

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Carlos Drummond de Andrade






quarta-feira, 16 de março de 2016

.pessoas como flores.


que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços, acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim
por tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
Charles Bukowski

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

7.

eu diria do amor que o amor é reto
que o asfalto do amor acaba
mas o amor continua
desbravando o mato

Martha Madeiros

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

.uma biografia anatômica ou a ferida que eu não posso pontuar.



Photography by Kyle Thompson
A anestesia está passando.
Continua embaçado,
Mas a névoa vai passar.
É absurdo ter que lembrar-te,
A ferida foi em mim.

Minha perna encontra a quina que rasga. Rasga.
Meu pulso encontra faca, tesoura, unha e desespero.
Minha caminhada é rasgada pela repetição.
Os calos sangram.
Invisível, minha cabeça é repetidamente almofada dos voos.
As lágrimas vermelhas caem.
De ignorar a ferida, surge o calcanhar nunca superado.
E de carregar, minhas costas nunca descansaram.
Eis que em mim, todas as feridas terminam abertas.

Todos os dias, é necessário sangrar mais para sangrar menos.
As mãos pesadas me rasgam e dizem curar.
Eu acredito. Iludidamente?
A ferida é mais profunda do que a casca aparenta.
E eu que pensei que em mim seria só um arranhão.
Iludida.
Iludida? Eu sabia?
Eu sabia.
A ilusão da cura é rasgada.

Pensei, como um afago, que ao menos na saída eu seria buraco de bala.

Parece que eu fui um arranhão.
Existente Rapidamente
Chata Inconveniente
Em mim, há a necessidade de pontos
(Que nunca são dados
Pontos são o superficial
Não é Real.
Oi, aure
Não podia só dessa vez
eu escolher the road already taken?
não.)
Eis outra ferida, que eu não posso pontuar.

Você me rasgou mais do que o cego bisturi.
Te chamaria de cirurgião que treme
Mas as feridas são compatíveis
A uma autopsia suja
A uma monitoria despreocupada
No cadáver esquecido
Tentava abrir mais feridas na esperança que a aquela parasse de doer.

Eis que já estou falando demais.

“Haverá uma boa cicatrização, só (que) hoje não”

A curetagem deixa a marca do grito (e o sangue seco).
A cabeça nega mas a pele não.
Só o vermelho é Real.
Orgulhosamente, nunca gostei do verde.

A voz amiga diz, she’s back.
I’m back.
Na maré de hoje,
Eu faço o meu próprio curativo, a minha própria curetagem.
Dessa vez, irei curar?
Irei curar.

Ainda existe a distensão.
Mas há muito tempo, a náusea já é familiar.
Eu não vomitarei por ti.

Eis que já estou falando demais.

Mas oceano não para,
E não irei silenciar.
A cura é de dentro pra fora.
E hoje eu grito,
Tirem de mim todo o branco. 


lê.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

07.02


É como se eu tivesse medo de viver a realidade.
Eu procuro estar anestesiada.
A menina que disse sentir o mundo.
Estou olhando para o mar, deitada em uma rede, ao lado das árvores, 
e eu ainda não consegui tirar os óculos escuros. 
O momento.
Nunca no momento.

Parece que tem um buraco vazio no meio dos meus peitos. 

Buraco negro, tudo e nada.
Eu percebo o início das sensações. 
O início da alegria, o início da dor. 
Eu sei que elas estão aqui, em algum lugar, mas elas nunca chegam.
Me preencho, então, de alimentos e momentos falsos.
Eu tão sensação, sendo enganada por essa criança que quer 
tapar o buraco negro com uma folha de papel, pensamento. 

Há muita dor.
Há muita dor.
Há muita dor.
Mas ela não chega.
Não há riso, não há vida, não há realidade.

Será que posso dizer que sinto algo? 

Vejo o mar, no meio do furacão. 
Só hoje, o furacão. 
Eu cheguei.
Enxergo, sei que sou eu, mas não consigo alcançá-lo.
Eis que ele me busca, um resgate. Tenta.
Não consigo encontrar.
Respiro mas não pareço respirar.
Mastigo mas nada tem gosto.
Leio a poesia.
Enxergo, seu que sou eu, mas não consigo a
alcança-la.
Me busca, poesia. Me encontra.
Eu tenho medo.
Eu tenho o vazio.
Eu não consigo respirar.

Letícia, Real Oceano. Eu não quero estar congelada.

.maré alta.



Antes de ser eu mesma
(ou isso que penso ser),
eu jogava esconde-esconde
com meus fantasmas
- os terríveis e os gentis.

Os dias me viravam do avesso
e desviravam,
as horas me traçavam
para me desarrumar.
Quanto mais me busquei
nos espelhos secretos,
mais me perdi de mim.

Quando chegou o tempo da verdade,
entendi que sou
- num fundo porão das horas -
reflexo de reflexo
de reflexo,
nada mais.
(E que deve ser assim.)


Lya Luft

O tempo é um rio que corre


.ah, um soneto...

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ...

Álvaro de Campos

.mas eu

Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.


Fernando Pessoa

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...