segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

8.

me pego em muitos dias
extremamente cansada
dos meus próprios dramas pessoais

tenho tanto medo
que vocês também.

acredito que a autorresponsabilidade
me emancipa 
me permite
transformação

mas parece
que na encruzilhada
entre honrar o que eu realmente sou
ou
tentar não desagradar 
repito o mesmo erro
de não escutar o conselho
de meu amigo:

quando não resta mais nada a ser feito,
o que podemos fazer é ser honestos.

7.

passei a semana 
recomendando à pacientes 
que colocassem as suas angústias no papel

hipócrita

encarei o papel em branco por meses.

fazem uns anos que me sinto assim:
meio esvaziada de palavras.

ainda não aprendi a nomear aquilo que sinto 
tão intensamente

as vezes me perguntam
"o que é a dissociação?"

dissociação é:
1. não ter memórias genuínas da maior parte da minha jornada até aqui;
2. não notar que me queimei na panela quente;
3. não conseguir identificar o que sinto;
4. não controlar movimentos corporais em momentos de crise;
5. perder o controle;
6. não me identificar ao me olhar no espelho;
7. ter uma péssima noção espacial;
8. (...)

como me disse um mestre,
a dissociação
é quando um bruxo rouba a sua alma
e a leva para o mundo dos mortos

é habitar a vida, 
mas não viver a minha vida.

me pergunto:
o quanto de mim é patologia
e o quanto é covardia
?

pelo menos
a covardia 
me dá autonomia de ação
ou reação

me apavora a paralisia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

6.

consigo encher o coração
de amor
pelas imperfeições.

pelas imperfeições que 
habitam fora de mim.

hoje voltando do trabalho eu vi uma ruína.

bate o ímpeto 
de pular do ônibus
e adentrar
em um espaço em que me sinto acolhida.

embora eu saiba que a ruina é uma desconstrução

mas me torno
tão violenta
no momento em que 
inverto
e vejo a ruína que habita em mim.

5.

gosto de acreditar que sou honesta.
admito algumas falhas
fiz o loàs à imperfeição
há um tempo atrás

mas escuto perguntas em que vejo que minto
em suas respostas
talvez pelo puro orgulho
de não revelar
que eu talvez não saiba ainda quem é que eu sou

eu, que nunca
nunca me percebi orgulhosa,
sou.

4.

me perco entre os opostos
entre ser submissa
ou ser opressora

ninguém me avisou
que ao tentar descobrir
como existir sem ser ferida
eu iria ferir

3.




O que fazer, então
se não aprendi a ser amada
se pareço bicho ferido
avançando nas mãos daqueles que só desejam fazer carinho
?

2.




passei um tempo habitando o inferno
mesmo
quando a porta que levava até o mar
já estava aberta.
parece que passei tanto tempo
acostumada com as correntes
que não percebi que elas
já não estavam mais em mim


1.


costumo sonhar com caminhos,
como aquela poeta
parecem mais labirintos
na verdade
são túneis

cavernas.

onde meu corpo
fica parte coberto com água

e eu caminho.

confesso que caminho 
mas nem sempre
com a intenção de chegar

raramente os meus túneis me causam medo.
e meus sonhos
costumam ser encharcados de medo,
não é tão distante do que eu achava que era ao estar acordada.

caminhar nem sempre a procura da saída
já me fez encontrar muita gente boa.
a calma permite o meu encantamento,
como tenho aprendido.

há uns dias sonhei com um caminho.

um caminho
mas não tão óbvio quanto o túnel

era uma montanha na praia. 
havia grama verde até a beira do mar
falésia abaixo
eu estava em perigo, 
novamente 

era noite.
haviam tambores gigantes alfaias do tamanho de prédios
por todo o mar.
você estava ao meu lado.
era noite e tinha a luz da lua

eu não sentia medo

.

- infelizmente não recordo o nome da artista que produziu a imagem.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

.todos os dias







e todos os dias

trazer à tona meu melhor rosto
para que os outros não se assustem
para que os outros não se espantem
para que eu não me dane e sangre
e todos os dias 
depurar o melhor de mim
e não deixar nenhum espinho à tona
e não deixar nenhuma dor à mostra
e não deixar nenhuma cicatriz visível
combater a voz rouca com gargarejo de salmoura
esconder as olheiras com óculos escuros
e dizer coisas, mesmo sem sentido,
o tempo todo, dizer coisas e mais coisas e outras coisas
para que o silêncio não agrida nem pareça fundo
como um poço
para que o poço não assuste
e todos os dias
e todos os dias
e hoje como ontem


não deixar a sede vencer a garganta
e não deixar o gesto se estender do braço
e não gritar, não gritar nem chorar,
nem utilizar palavras ásperas
(dance, dance, dance
e não se esqueça de sorrir)
e todos os dias
controlar o ridículo
para não confessar amores inconfessáveis
delimitar o cansaço
mastigar a solidão
tomar um ônibus
e voltar sozinho para casa, em passo lento
ou então beber num bar qualquer
qualquer bebida, qualquer companhia,
beber, beber, beber, beber
e não esquecer nada.
todos os dias
um dia depois do outro
amanhã eu sei
amanhã também.

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

.ruínas.


"Vórtice, voragem, vertigem: qualquer abismo nas estrelas de papel brilhante no teto."

As ruínas vêm contar a minha história. Há aqueles que nascem à primeira luz. O meu nascimento foi à primeira escuridão. O luminoso me foi roubado, o sombrio então me acolhe. Viver no corpo é doloroso demais. Abismo se torna abrigo e Hades se torna lar.

No mundo terreno que fui, morreu Alegria. Ressurjo em outros mundos. Do brilho que um dia me foi roubado dos olhos me torno mulher, da minha sombra que aqui conheci me torno Deusa.

Caminho entre as ruínas, abrigo o abandono. Minha cama é feita de cacos, assim como o meu coração. Meu abrigo é a destruição. Construo no que foi destruído.

Mas no meio da minha perdição, a obscenidade do teu olhar em mim, me puxa do meu abismo. As lágrimas regam. E trago comigo a primavera - aquela que não está no calendário, nem possui jardim.

Me torno aquela que caminha entre as montanhas e os abismos. A que conheceu as duas jornadas e encontrou um terceiro caminho. A que habita o centro do furacão. Aquela que caminha entre luz e sombra na busca do equilíbrio e as vezes o perde. A que desbravou a jornada para guiar a menina que atravessa o labirinto e nem sempre é pela procura da saída.


Minhas ruínas mostram as minhas cicatrizes, mas mostram a minha solidez. Sou voragem na vertigem do furacão. Abrigo o abandono e me encho de criação. Me diz, a tua obscenidade conseguiria voar no abismo que sou? A minha fluidez é a liberdade de saber que a cada lua e a cada sol, meu abismo tem estrelas.



.letícia lima.


fotografia: victor cavalcante

sábado, 24 de março de 2018

II. sobre o vulcão.


no se puder vivir sin amor (Malcoim Lowry, 1985)

Naquele tempo, minha única ocupação diária era tentar não morrer. Talvez pareça excessivamente dramático dito assim, mas assim era. Nem sinistra ou espantosa, apenas cotidiana feito xícara de café, janela aberta ou fechada sobre esse espaço vago que chamam de o depois, dentro e fora de mim, a morte estava sempre presente.
Naqueles dias uterinos, gordurosos, naqueles dias amnióticos quando eu não conseguia sequer sair da cama, trinta horas em posição fetal sem dormir nem viver, numa espécie de ensaio geral da treva definitiva deflagrada pela hospitalização de Daniel, pouco mais de quarenta quilos e nódulos púrpuras espalhados pelo corpo quase de criança onde, do antigo, restaram apenas os enormes olhos verdes, e também pelo suicídio de Julia, pulsos cortados e a cabeça enfiada no forno do fogão a gás, vestida de bailarina com tutu
de gaze azul e sapatilhas, depois de ter grafitado em spray rosa-choque no lado de fora da porta da cozinha alguma coisa em espanhol, alguma coisa amarga, alguma coisa assim: no se puede vivir sin amor. Daquele tempo nem tão distante, daqueles dias que até hoje duram às vezes duas, às vezes duzentas horas, restou esta sensação de que, como eles, também me vou tombando rápido dentro da boca de um vulcão aberto sem fôlego nem tempo para repetir como numa justificativa, ou oração, ou mantra, enquanto caio sem salvação no fogo que é verdade, que si, que no, que nadie puede mismo vivir sin amor.

 (Caio Fernando)

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...