segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

10.

é,
de fato
assustador
perceber

que a realidade é que quando eu não me valido
eu te invalido também

9.

meu nome veio a mim
por causa daquela atriz bem bonita
que estava na novela
o teu também?

adoro a voz da atriz
mas nunca tinha gostado
do nome.

meu nome parecia uma prisão.

veja bem: 
quando criança, ao perguntarem o significado do meu nome 
eu dizia: alegria.

meu pai repetia isso 
quase como em oração

é de fato uma pena
que eu tenha entendido 
que eu era isso
mas 
que eu só podia
ser isso

em mim, 
ser alegria tornou-se uma prisão.

ano passado eu fui muito livre.

menos do que hoje desejo ser.
mais do que jamais imaginei ser possível.

na tua voz aprendi a perceber a beleza da sonoridade do meu nome.
depois de mais de década
ano passado 
senti
quebrei minha jaula
imaginária também

hoje sou sim, alegria.
me faço livre.

8.

me pego em muitos dias
extremamente cansada
dos meus próprios dramas pessoais

tenho tanto medo
que vocês também.

acredito que a autorresponsabilidade
me emancipa 
me permite
transformação

mas parece
que na encruzilhada
entre honrar o que eu realmente sou
ou
tentar não desagradar 
repito o mesmo erro
de não escutar o conselho
de meu amigo:

quando não resta mais nada a ser feito,
o que podemos fazer é ser honestos.

7.

passei a semana 
recomendando à pacientes 
que colocassem as suas angústias no papel

hipócrita

encarei o papel em branco por meses.

fazem uns anos que me sinto assim:
meio esvaziada de palavras.

ainda não aprendi a nomear aquilo que sinto 
tão intensamente

as vezes me perguntam
"o que é a dissociação?"

dissociação é:
1. não ter memórias genuínas da maior parte da minha jornada até aqui;
2. não notar que me queimei na panela quente;
3. não conseguir identificar o que sinto;
4. não controlar movimentos corporais em momentos de crise;
5. perder o controle;
6. não me identificar ao me olhar no espelho;
7. ter uma péssima noção espacial;
8. (...)

como me disse um mestre,
a dissociação
é quando um bruxo rouba a sua alma
e a leva para o mundo dos mortos

é habitar a vida, 
mas não viver a minha vida.

me pergunto:
o quanto de mim é patologia
e o quanto é covardia
?

pelo menos
a covardia 
me dá autonomia de ação
ou reação

me apavora a paralisia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

6.

consigo encher o coração
de amor
pelas imperfeições.

pelas imperfeições que 
habitam fora de mim.

hoje voltando do trabalho eu vi uma ruína.

bate o ímpeto 
de pular do ônibus
e adentrar
em um espaço em que me sinto acolhida.

embora eu saiba que a ruina é uma desconstrução

mas me torno
tão violenta
no momento em que 
inverto
e vejo a ruína que habita em mim.

5.

gosto de acreditar que sou honesta.
admito algumas falhas
fiz o loàs à imperfeição
há um tempo atrás

mas escuto perguntas em que vejo que minto
em suas respostas
talvez pelo puro orgulho
de não revelar
que eu talvez não saiba ainda quem é que eu sou

eu, que nunca
nunca me percebi orgulhosa,
sou.

4.

me perco entre os opostos
entre ser submissa
ou ser opressora

ninguém me avisou
que ao tentar descobrir
como existir sem ser ferida
eu iria ferir

3.




O que fazer, então
se não aprendi a ser amada
se pareço bicho ferido
avançando nas mãos daqueles que só desejam fazer carinho
?

2.




passei um tempo habitando o inferno
mesmo
quando a porta que levava até o mar
já estava aberta.
parece que passei tanto tempo
acostumada com as correntes
que não percebi que elas
já não estavam mais em mim


1.


costumo sonhar com caminhos,
como aquela poeta
parecem mais labirintos
na verdade
são túneis

cavernas.

onde meu corpo
fica parte coberto com água

e eu caminho.

confesso que caminho 
mas nem sempre
com a intenção de chegar

raramente os meus túneis me causam medo.
e meus sonhos
costumam ser encharcados de medo,
não é tão distante do que eu achava que era ao estar acordada.

caminhar nem sempre a procura da saída
já me fez encontrar muita gente boa.
a calma permite o meu encantamento,
como tenho aprendido.

há uns dias sonhei com um caminho.

um caminho
mas não tão óbvio quanto o túnel

era uma montanha na praia. 
havia grama verde até a beira do mar
falésia abaixo
eu estava em perigo, 
novamente 

era noite.
haviam tambores gigantes alfaias do tamanho de prédios
por todo o mar.
você estava ao meu lado.
era noite e tinha a luz da lua

eu não sentia medo

.

- infelizmente não recordo o nome da artista que produziu a imagem.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

.todos os dias







e todos os dias

trazer à tona meu melhor rosto
para que os outros não se assustem
para que os outros não se espantem
para que eu não me dane e sangre
e todos os dias 
depurar o melhor de mim
e não deixar nenhum espinho à tona
e não deixar nenhuma dor à mostra
e não deixar nenhuma cicatriz visível
combater a voz rouca com gargarejo de salmoura
esconder as olheiras com óculos escuros
e dizer coisas, mesmo sem sentido,
o tempo todo, dizer coisas e mais coisas e outras coisas
para que o silêncio não agrida nem pareça fundo
como um poço
para que o poço não assuste
e todos os dias
e todos os dias
e hoje como ontem


não deixar a sede vencer a garganta
e não deixar o gesto se estender do braço
e não gritar, não gritar nem chorar,
nem utilizar palavras ásperas
(dance, dance, dance
e não se esqueça de sorrir)
e todos os dias
controlar o ridículo
para não confessar amores inconfessáveis
delimitar o cansaço
mastigar a solidão
tomar um ônibus
e voltar sozinho para casa, em passo lento
ou então beber num bar qualquer
qualquer bebida, qualquer companhia,
beber, beber, beber, beber
e não esquecer nada.
todos os dias
um dia depois do outro
amanhã eu sei
amanhã também.

Caio Fernando Abreu

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...