sábado, 20 de abril de 2013

Que sempre quer botar pingo de "i" em ipsilone.

Nome da cidade, tanto de tanto de dois mil e tanto. Nome do destinatário. 

Escrevo essa carta porque sinto saudades de você. Sinto do que foi mas, principalmente, do que poderia ser. Não deveria abrir espaço no meu coração pra essas coisas de saudades, deveria mandar ele ir tomar vergonha na cara, ou, tomar um café. Um café, sim. Vai ver eu me esquecia de sentir saudades. Mas é, eu sinto.

E escrevo também para expressar a minha possessa revolta, você jogou fora algo que não se acha todo dia. Não, não é uma carta de raiva, sim, de saudades. Mas uma está completamente ligada à outra, o que posso fazer? Nada teria acabado se você se importasse, ou ao menos, fingisse. Lembro, tristemente, de todos os alegres, duros e divertidos momentos que passamos juntos, uma mensagem depois de tudo isso não iria lhe matar. Também não faria mal um carinho de vez em quando, nem um cinema. Definitivamente, um cinema não faria mal. 

Mas você escolheu que não. Bom, escolheu sim, você sabe como eu estava naquela época, e que época. E sim, ver as tuas fotos de hoje me entristece. Não que eu quisesse que fosses infeliz, nem que eu pense muito em você ou na sua felicidade, hoje em dia esse assunto pouco me ocorre, mas ocorre; queria apenas saber que sentes falta de mim. Sente? Espero que sim. E que doa cada pensamento que tem sobre mim. Apesar de que, com toda a tua cegueira para o que não é tu, dificilmente enxergará o tamanho da merda que fizestes. Merda sim! 

Dói em mim. Mas é também incrível a facilidade do meu rosto de demonstrar nojo ao tocarem em seu nome, na verdade, desprezo. 

Lembro-me da vez em que me aconselharam a nunca te perder, pois como você é difícil de achar. Discordo. Como você encontro em qualquer esquina, é só um rosto sorridente e um ar superior, não?! Mas você, não encontro em mais nenhuma esquina, aí, sim. E nem sei se gostaria. Provavelmente não, provavelmente nunca. E pra quê? Você? Igual? Não, obrigada. Quero alguém que me trate no mínimo como um ser com sentimentos, humano. 

Não sei como, mas sinto a sua falta. 

Saudosamente, alguém que muito sofreu na sua frente e você ficou tomando sorvete. 


Letícia Lima

terça-feira, 16 de abril de 2013

A vida.

― Achei que você estivesse morto... ― disse, perplexo. 
― Foi o mesmo que eu pensei durante algum tempo ― disse Ford ― e depois decidi que eu era um limão durante algumas semanas. Me diverti bastante nessa época, pulando para dentro e para fora de um gim-tônica. 
Arthur limpou a garganta, depois repetiu: 
― Onde ― disse ele ― é que você...? 
― Onde encontrei gim-tônica? ― disse Ford, animado. ― Encontrei um pequeno lago que pensava ser um gim-tônica, então fiquei pulando para dentro e para fora dele. Bem, pelo menos creio que ele achava que era um gim-tônica. 
― Eu poderia ― disse com um sorriso que faria qualquer homem são procurar abrigo nas árvores ― ter imaginado tudo isso.
Esperou alguma reação de Arthur, mas este já o conhecia demasiadamente bem. 
― Continue ― disse ele, sem se alterar. 
― Como você pode ver ― disse Ford ―, o sentido disso tudo é que não há sentido em
tentar enlouquecer para impedir-se de ficar louco. Você pode muito bem dar-se por vencido e guardar sua sanidade para mais tarde.


A Vida, o Universo e Tudo Mais - Douglas Adams

terça-feira, 2 de abril de 2013

Uma memória.



A memória.
  
Agarra coisas interessantes.
  
Às vezes inoportunas.
   
Por vezes distantes.
  
Uma nunca vou esquecer.
  
Não quero nunca esquecer.
  
Duas irmãs.
  
Dois tesouros.
  
Os braços de uma em minha volta.
  
O sorriso de outra em minha frente.
  
O coração de um em alegria.
  
Não quero nunca esquecer.


Augusto Reis

terça-feira, 26 de março de 2013

Uma coisa que eu aprendi na vida: Deus não te tira as coisas, Ele te livra delas.

Caio Fernando

terça-feira, 19 de março de 2013

9.

acenda um fósforo em mim, não queima
perfure com uma faca, não jorra
cuspa na minha cara, não escorre
quase nada me traz consequência
não há aderência em gente que teima


Martha Medeiros, Cartas Extraviadas

domingo, 17 de março de 2013

Para uma menina com uma flor.

"Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. 

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo. 

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. 

E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro. 

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois. 

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. 

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor. "


Vinícius de Moraes
E essa, perpétuer.

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...