domingo, 17 de abril de 2016

.carta extraviada.


Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.


Fernando Pessoa


Não sei por onde começar esta carta que já nasce atrasada, pensamos sempre que temos muito a dizer mas as palavras são pouco amistosas, onde encontrá-las agora, às três e dez de uma madrugada em que me encontro insone e pensando mais uma vez em você?

Você esperou por estas palavras por muitos meses, na esperança de que elas aliviariam a dor do seu coração, mas elas não vieram porque estavam ocupadas vigiando meus impulsos, me impedindo de me abrir, e minha própria dor lhe pareceu desatenção, eu que não durmo de tanta paixão congestionada, de tanto desejo represado, de tão só que estou.

Meus motivos sempre lhe pareceram egoístas, e se eu lhe disser que o descaso aparente foi na verdade uma atitude consciente para preservar você, me chamará de altruísta e não sairemos do mesmo lugar.

Eu errei por não permitir que você me oferecesse seu afeto, eu errei ao sobrevalorizar um risco imaginário, eu errei por achar que existem amores menores e maiores, avaliados pelo tempo investido, pela contagem dos bei­jos, pelas ausências sentidas, por tudo isto fui conduzido a um erro de cálculo.

Não te peço nada além de compreensão, e esta carta nem era para pedir, mas para doar, eu que sempre me achei bom nessas coisas, o voluntário da paz, o boa-gente oficial da minha turma.

Mas peço: lembre de mim como alguém que al­cançou a mesma medida do seu sentimento, a mesma profundidade das suas dúvidas, o mesmo embaraço diante da novidade, o mesmo cansaço da luta, a mesma saudade.

A carta vem tarde c redigida com palavras covar­des, as corajosas repousam pois se imaginam já ditas e escritas, valentes foram as palavras do início, as desbra­vadoras, as que ultrapassaram limites, quando nós dois ainda não sabíamos do que elas eram capazes, palavras audazes, febris.

Pela enormidade de tempo que temos pela frente em que não nos veremos mais, não nos tocaremos ou ouviremos a voz um do outro, pela quantidade de dias em que conduzirás tua vida longe de mim e eu de ti, pela imensidão da nossa descrença, pela perseverança da nossa solidão, pêlos nãos todos que te falei, pelo pouco que houve de sim, acredita: te amei além do possível, não te amei menos que a mim.

Martha Medeiros
Cartas Extraviadas e Outros Poemas

O lamento de não poder te mostrar a minha intensidade.

29. imersa

uma mordidinha para sentir o gosto
um cheirinnho para sentir o perfume
um beijinho rápido, uma ilusãozinha
a quantos basta uma amostra grátis

não consigo molhar os pés apenas
eu mergulho e só paro quando me afogo
eu me queimo e só para quando derreto
eu me jogo e só paro quando me param


Martha Medeiros
Cartas Extraviadas e Outros Poemas

19.

surpreendentemente, ele não me deixou
ele não fez o que disseram que iria fazer,
as revistas,
ele não se comportou como exigiam,
os mandamentos,
ele não se rendeu às evidências.

comovente, ele muito mais me amou,
fez o que disse que iria fazer,
meu coração,
não se enquadrou no personagem,
foi mais longe,
superou a si e a todos, chorou e teve paciência.


Martha Medeiros
Cartas Extraviadas e Outros Poemas

1.

caminhante, passou por mim em passos lentos
com uma blusa que jamais o vi usar e um cavanhaque
ele que tinha o rosto imberbe e cujas blusas eu lavava todas
cruzou por mim na calçada e me olhou com olhos novos
da mesma cor de antes mas eram olhos outros
que viram virgindades durante o nosso tempo apartado
era ele mas era outro, e eu era a mesma, e outra
e a distância entre nós era bem mais longa que aqueles passos curtos
e o tempo entre nós era infinito no nosso desconhecimento mútuo
ele que tanto amei e ele a mim, que trocamos beijos mais que íntimos
suas cicatrizes pelo corpo que lambi, e ele aos meus seios
ele que não me foi secreto por anos e eu por ele igualmente traduzida
caminhante, hoje passou por mim como se não houvesse passado
ele, em passos lentos, fez um sinal educado com a cabeça
eu, com meio-sorriso, fiz que não tinha importância.


Martha Medeiros
Cartas extraviadas e outros poemas

domingo, 10 de abril de 2016

.ausência.

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Vinícius de Moraes

segunda-feira, 4 de abril de 2016

.XIV


Como se desenhados
Tu
E o de dentro da casa.
Entro
Como se entrasse
No papel adentro

E sem ser vista
Rasgo
Alguns véus e fibras

Sem ser amada
Pertenço.

Que sobreviva
O fino traço de tua presença.
Aroma. Altura.
E lacerada eu mesma

Que jamais se perceba
Umas gotas de sangue na gravura.

Hilda Hilst
Cantares da Perda e da Predileção

quinta-feira, 31 de março de 2016

poema de sete faces.

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.



Carlos Drummond de Andrade

domingo, 27 de março de 2016

.porta-retrato.

Tinha secado: esse era talvez o ponto. Não a palavra exata, que já não tinha essas pretensões, mas a mais próxima. Sabia pouco a respeito de árvores, ou sabia de um jeito não-científico, desses de tocar, cheirar e ver, mas imaginava que o processo interno de ressecamento começasse bem antes da morte aparecer no verde brilhante das folhas, na polpa dos frutos ou na casca do tronco. Não era evidente nem externo ou explícito o que padecia. E padecia? perguntava-se detalhando os traços com as pontas dos dedos, nada que revelasse na umidade da boca ou num contorno de nariz — uma dor? Não era assim. Gostaria de voltar atrás, com sentimentos curtos e claros feito frases sem orações intercaladas, iluminar aos poucos, um mineiro, uma lanterna, o poço fundo, uma linguagem? A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-secom outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre. As luvas brancas, as longas pinças esterilizadas com que tocava sem tocar o todo, o tudo e o si. Um vício que lhe vinha quem sabe da mania de ouvir música erudita, mesmo enquanto apenas vivia, antes os fones nos ouvidos que os gritos na vizinhança. E por mais que afetasse um ar de quem lentamente cruza as pernas em público, puxando com cuidado as calças para que não amarrotassem, saberia sempre de sua própria farsa. Tão consciente- mente falsa que sua inverdade era o que de mais real havia, e isso nem sequer era apenas um jogo de palavras.

A grande mentira que ele era, era verdade. Ou: a mentira nele nunca fora fraude, mas essência. Seu segredo mais fundo e mais raso, daí quem sabe a surpresa branca de quando ouvira um quase-amigo dizer que não passava de uma personagem. Prometera-se sentimentos sem intercalados, mas sentia agora uma necessidade de explicar ao ninguém que superlotava sua constante platéia, com ele sempre fora assim: quase-amigos, nada de intimidades. Mas voltando atrás no ir adiante: uma surpresa quê. Não, não uma surpresa quê. Uma não-surpresa surpreendida, pois como e porque se fizera visível e dizível naquele momento o que nem sequer alguma vez escondera? Perdia-se, não eram teias. Nem labirintos. Fazia questão de esclarecer que sua maneira torcida não se tratava de estilo, mas uma profunda dificuldade de expressão. Por esse lado, quem sabe? As emoções e os pensamentos e as sensações e as memórias e tudo isso enfim que se contorce no mais de-dentro de uma pessoa — tinham ângulos? Havia lados mais como direi? Fragmentava-se: era os pedaços descosturados de uma colcha de retalhos. Pedia atenção aqui, por favor, mais por gestos, entonações ou simplesmente clima, e regirava: era os retalhos, um por um, não a colcha, ele. Desde o xadrez vermelho ao cetim roxo sem estampa, e assim por diante, todos. Quase parava de aborrecer-se então, como quem troca súbito uma peça para violino e cravo por um atabaque de candomblé. O leve tédio suspenso como poeira espanada logo voltava a desabar. O bocejo era a compreensão mais amarga que conseguia de si mesmo. E posto isso, cabia a seguir qualquer atitude desesperada como casar, tentar o suicídio, fazer psicoterapia ou um concurso para o Banco do Brasil.

Localizava-se, mais fácil assim, dando nome às coisas. Um entusiasmo tênue como o gosto de uma alface. Isso, estar, ser. Uma vontade de interromper- se aqui, paladar estragado pelo excesso de cigarros tentando inutilmente dar um nome ao gosto que fugia entre os dentes. Em algum quarto, há muito não sabia de línguas no seu corpo, ou tão sabidas tinham se tornado que. Vacilava entre a certeza quase absoluta de estar alcançando qualquer coisa próxima de uma sabedoria inabalável, alta como um minarete, gelada como um iceberg — melhor assim: uma montanha de compreensão sem dor de todas as coisas. Ou, talvez o ponto, nem icebergs, nem minaretes — mas árvore. Inventava com os olhos no ar vazio à sua frente um verde copado de sumarentos frutos, como se diria num outro tempo, se é que alguma vez se disse, dizia sim, dizia agora, desavergonhado e frio. Verde copado de sumarentos frutos. Folhagem de seda lustrosa. Tronco pétreo ancestral. O seco invisível como verme instalado no de-dentro. Impressentível, sob a casca, caminhando lento, questão de tempo, apenas, e semente contendo o galho crispado, mão de bruxa, roendo. Tinha dois olhos duros. Dois olhos grandes de quem vê muito, e não acha nada. Tinha secado, era certamente esse o ponto. Nunca a palavra exata, esclarecera de início. Já não tinha mais essas pretensões.


Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 17 de março de 2016

.passagem da noite.

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Carlos Drummond de Andrade






quarta-feira, 16 de março de 2016

.pessoas como flores.


que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços, acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim
por tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
Charles Bukowski

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

7.

eu diria do amor que o amor é reto
que o asfalto do amor acaba
mas o amor continua
desbravando o mato

Martha Madeiros

.tudo se refaz, menos os nomes

comecei a escrever com a caneta falhando. vai ver até ela quis testar o meu ímpeto. peguei a outra caneta. escrevi um tempo atrás um poema s...