Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
“Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido.
Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira.” Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral.”
Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa. Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho.
Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo.
Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda.
Não havia como endireitá-lo.
Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro.Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.
Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?
Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.
Amanhã começa agosto. No sul, as paredes mofam em silêncio. Faltam cinco meses para o fim da década. Nada mudará. Ficaremos um pouco mais cansados. Mas nada, nada mudará.
Há cachorros loucos vagando pelos becos alguns suicídios talvez, pelos banheiros, e velhos que não resistirão. Minha avó dizia sempre - não sei se passo desse agosto. E não passou.
Num susto a mão vira o calendário: Cecília desapareceu no mundo Rafael aprendeu a brincar com o coração alheio Paula faz cara de nojo e viaja para Nova Iorque Ju não escreveu, nem escreverá. Tudo já faz tanto tempo. Eu sigo acreditando.
Mas no sul as bergamotas estão mais doces do que nunca a umidade invadiu todos os cantos da casa meus olhos amanhecem inchados de pranto nenhum e secamente inventariam marcas, desgostos, rostos perdidos, corações mofados, roupa cinza na guarda da cadeira.
Amanhã começa agosto outra vez. E continuamos. 30 de julho de 1979
Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco: .
Segundo Bukowski, o amor acontece a cada dez anos Você me falou Precisamente o que você me disse foi O amor acontece a cada dez anos E eu acabo de chegar aos dez
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Eu te lembrei do jantar Do meu cabelo E da forma como o teu corpo se movia ao redor do meu Eu gostava de acreditar que você sabia o que estava fazendo Que os movimentos bruscos, rápidos e certeiros Remetiam a algo como certeza, domínio e qualquer coisa similar ou mesmo igual a segurança. Eu tenho vergonha Foi a primeira coisa que você me falou Eu tenho vergonha de tudo
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Imagine se fosse seguro Respondi certeira Neste exato momento eu embarquei Em direção ao poço sem nome Porque algumas coisas não tem nome E outras a gente só não sabe
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Por falar em jantar Foi lá que eu conheci o menino nômade de oito anos Que me recitou um poema: Quando você se afastar, Faça devagar e suavemente Faça como se eu estivesse morrendo No meu sonho em vez da minha vida.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
As mensagens não paravam de chegar E o meu medo você viu como charme Se você se comportar, te levo café da manhã na cama Você me falou Você terá que ler a minha autora preferida Eu te disse
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Enquanto você me apresentava os homens da sua vida Eu te cobria com os abismos das minhas mulheres Não espere para ter certeza, mexa-se mexa-se mexa-se E eu achava que você sabia do que eu estava falando
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Você gosta do amargo. Você me falou. Gosto do que se despe e te despe Independente do sabor. Eu te respondi.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Eu te comprei um livro vermelho Comecei a grifa-lo quase que secretamente Porque eu sabia que só o entregaria no fim E vieram os desenhos, as escritas e todo o peso do meu corpo Era pra você o livro Depois eu soube que você achava um sacrilégio modificar a obra original Mas era pra você o livro despido Cada um pode mudar de opinião a hora que quiser. Você me falou
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Tua voz é boa, segura. Eu gosto. Você me falou
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
No poço sem nome Pude tocar os minutos do teu tempo Eles pairavam no ar E o brilho da pausa me desestruturava Acho que foi isso que me manteve por perto Dança comigo? Você me perguntou
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Eu não sei dançar a dois Respondi Deixa que eu te conduzo Você me falou
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Aos vinte e sete anos eu gostava de explicações Não de entendê-las, mas de possuí-las Eu não sou bom para explicar as coisas Você me falou Mas eu sou boa de entender Eu respondi. Eu sou estranho. Você me falou.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Por um breve instante eu saí do poço sem nome E foi sem suavidade e rápido demais que eu te avisei Isso tem um fim Não sou homem pela metade Você me falou
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Tenho problemas em dormir junto Eu te disse Tenho aqui uma escova de dente nova Você me falou
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Você me estendeu um contrato Um contrato de que eu poderia ir embora A hora que eu quisesse Mas que, Sem dúvidas, Você protegeria o menino nômade Mesmo que pra isso tivesse que ir embora antes E eu grifei no livro vermelho Sobre os leões que rugem contra Deus Quando percebem que seus focinhos são iguais.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Tempo Tempo é uma coisa que eu não entendo Mas eu respeito Só me diga quando E você se segurou nos teus trinta anos de idade me garantindo clareza
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
De volta ao poço sem nome Eu descompassava Como se aquilo fosse eu Também quero te ver, acredite. Você me falou
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Soube de um poema cujo verso dizia: Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. O ácido é o desoxirribonucleico, DNA ou simplesmente, sangue. Eu acho o meu sangue vermelho demais. Eu te disse. Você me abraçou.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Eu não acredito nesse fim. Você me falou.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
E depois disso eu caí em outro poço Esse tem nome E eu sei o nome Mas não quero falar aqui
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Numa esquina qualquer No tempo exato A vida gritou para eu sumir Eu grifei no livro vermelho: Não sou de choro fácil.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Quer ir ao parque? Eu te perguntei. Vou num tempo diferente do seu. Você me respondeu. E eu perguntei se esse era o fim. Os cachorros me deram uma direção na vida incrível. Você me respondeu.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Num passado próximo Rebobinando apenas alguns dias Eu me gravei dançando sozinha pra você Ao meu lado, uma taça de vinho Ao seu lado, você escancarou ao mundo, feliz, o encontro de duas As minhas células ressoaram uma dor intangível O contrato sempre foi de desapego e eu não te devo nada Você me falou E eu entendi que a baleia era eu.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Então eu abri a porta da memória E me vi sentada na cama preta Com o coração acalentado Ao ver raízes nos seus olhos e excitação Não tenho pressa em te conhecer. Você me falou.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Essas coisas acontecem assim, inesperadamente. Você me falou Não se engane, você sabia que havia chegado aos dez. Eu deveria ter dito. Eu não sei quantas vezes eu te vi nua Você me falou Acho que nenhuma Eu deveria ter dito. Não dou chance ao azar. Você me falou.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Minha mãe não teve contrações durante a minha gravidez. É falta de coragem. O médico falou Nesses casos específicos, o bebe permanece durante alguns dias a mais no útero. Durante este tempo, desenvolve um canal ligando o osso que eu não sei o nome que fica no extremo da cabeça com o outro osso que eu não sei o nome e que fica no extremo do calcanhar esquerdo. O canal atravessa o dorso e move a baleia. A falta de coragem é recompensada por um subterfúgio para sentir. E ela sente tudo. Ela é um canal e um canal é sempre atravessado.
I wanna hold your hand Eu deveria ter dito
Eu prefiro ser a garota Ou a baleia Que tem um canal nas costas E que te escreveu um poema. Porque eu gostaria de segurar a sua mão, nada mais.
Se eu morresse agora
Alguém leria esse papel?
Me diz
Se eu me fosse agora
Alguém enxergaria mais do que os pensamentos egocêntricos de uma suicida?
Me conta
Se eu partisse agora
Alguém encontraria a minha poesia no meio dos papéis rasurados e das cartas extraviadas?
Me fala
Se eu morresse agora
Alguém me transformaria em mar, música, poema ou grafia?
Me diz agora
Se eu me fosse
Alguma falta faria?
Me conta agora
Se eu partisse
Alguém me sentiria?
Me fala agora
Se eu morresse
Essa dor pararia?
Ela chegou na frente de todos Não impediu o olhar de ninguém Desabotoou o primeiro botão, o segundo, o terceiro, o quarto. Expôs uma semi-lua do seio esquerdo.
Só depois fui perceber a faca que trazia
Gentilmente, toma da lâmina Rebate o sol em meu rosto Fico cego por três segundos
Quando retorna a visão A faca já havia cortado a pele Exposto a gordura A fáscia O músculo
Delicada, Desarticula a segunda costela A terceira A quarta A quinta A sexta
Leva a mão ao íntimo (Ainda com a faca nela) Já não mais a aorta Ou a pulmonar Ou qualquer grande vaso Impede o coração de sair
Pulsando na mão dela Vai mostrando a cada um O quanto o sangue é azul
Saí dela dali sangrando Mas, ela mal me tocou. Alguém disse que estávamos ali para ela Mas, por Deus!, esse sangue em mim É que ela está aqui E não larga mais.
eu queria te escrever um poema
mas i don't find the lenguage
e the words somem
the world keep falling apart
e eu queria te escrever um poema
com os dizeres que eu-só-penso-em-você
e my heart está completo agora
mas é mentira
então the words somem
the world keep falling apart
e eu queria te escrever um poema
tão tarado e tão sagrado
que pareceria que você é meu único alimento
mas é mentira
então the words somem
the world keep falling apart
porque eu queria te escrever um poema real
mas como vou te explicar
que a minha honestidade
de dizer que estou perdida e quebrada, baby
nunca estou preparada e tenho medo
tenho medo medo medo e
meu passado ainda dói
e me destrói
e otras cositas más
são palavras de mais amor
do que qualquer eu-te-amo
mundialmente admirado
?
então as palavras somem
e eu quero te escrever um poema
mas the world keep falling apart
e i don't find the lenguage
e eu queria te escrever um poema real
sobre o meu coração
que não precisa estar completo agora
porque o meu o teu
passados presentes futuros
moldam meu coração com luz
e não peso
mas eu queria te escrever um poema
(e nada mais)
sim, te pressentia desde não sei quando sem esperar, sem saber sequer que pressentia nos sonhos, nos inventos nos futuros que supunha e nem ainda tinha nos rostos que mal via tudo era vago então difuso aquele tempo dos corpos que eu não via
apenas tu eu pressentia claro nos caminhos de agora mais que imaginário no real de cada dia em cada solidão ardida te sabia assim existindo ao meu lado a falar exatamente essas coisas fundas exílios, prisões, partidas que me falas agora
assim eras quando eu te pressentia como é agora quando te percebo sendo
e permaneço imóvel como para não afugentar uma borboleta pousada por descuido na palma de minha mão não digo nada mas de certa forma
não desvie os olhos
me olhe
esta cara que trago
é justamente
esta cara que trago
o caco o mapa o trapo
do que sobrou da viagem
tome um trago
me olhe
não desvie os olhos
esta cara que é minha
é o que restou
dos naufrágios
de todas as ventanias
de todas as calmarias
de todos esses contatos
imediatos ou não
me olhe
não desvie os olhos
de dentro e fundo de mim
veja o resto
conte o saldo
depois me mate
me cuspa me acuse
ou me recuse
então quem sabe
me goze
bem fundo
no fundo de mim
[latir, later, latência] tiraram-me a inocência do aborto bem sucedido tiraram-me, te, os desesperos, as correntes de fetos, os afetos, os negantes de amor o amor o amor o amor o amor que não aquece os ralos não se prende em banheiros não se mija em barrigas em quartos escuros limpando o chão a casa escondendo o barulho o líquido da mãe, o amor não esconde não esconda o amor você errou o amor, ahhh, o amor errou mais uma vez o amor não arruma camas deitáveis para desconhecidos não se planta em colheitas a erva que alimenta a boca suja beijada amada o amar não ama o então amado numa noite o amor não ama o amor pra amar de fato desama muitas e múitiras vezes o amor que é acanhado não sobrevive a bons tratos o amor se esconde não gosta de múitiras gentes múitiros aguços machucaram o amor o amor está sem cabeças sem canto de nariz sem cheiro de canto de nariz o amor deformou e eu vi, confesso que vi um amor horroroso sonho com o amor horroroso estridente apoiador de ossos ahh o amor, o carangueijo comeu um leão valente ahh o amor as vezes custa custa custa na demora de amar tapem os ouvidos não tape os ouvidos porque eu juro, eu vi eu vi eu vi o amor e um homem que era pequeno, um fato, um amor, um homem eu vi vi vi não conte ao amor eu vi o homem futuro entupindo a privada