quinta-feira, 26 de julho de 2012

‎"A fantasia é de prata e escarlate, índigo e azul, de obsidiana com veios de ouro e lápis-lazúli. A realidade é compensado e plástico, feita em barro marrom e verde oliva. Fantasia tem gosto de habaneros e mel, canela e cravo, carne vermelha rara e vinhos doces como o verão. A realidade é feijão e tofu, com gosto de cinzas no final. A realidade é os shoppings de Burbank, as chaminés de Cleveland, uma garagem em Newark. A fantasia é as torres de Minas Tirith, as pedras antigas de Gormenghast, os salões de Camelot. A fantasia voa nas asas de Ícaro, a realidade na Southwest Airlines. Por que nossos sonhos se tornam muito menores quando eles finalmente se tornam realidade?

Lemos fantasia para encontrar as cores novamente, eu acho. Para provar especiarias fortes e ouvir as canções que as sereias cantavam. Há algo velho e verdadeiro na fantasia que fala com algo profundo dentro de nós, com a criança que sonhava que um dia iria caçar nas florestas da noite, e festejar sob as colinas ocas, e encontrar um amor que dure para sempre em algum lugar ao sul de Oz e ao norte de Shangri-La.

Eles podem ficar com o paraíso deles se quiserem. Quando eu morrer, prefiro ir a Terra-Média."

- George R.R. Martin

terça-feira, 17 de julho de 2012

Canto para a minha morte


"Eu sei que determinada rua que eu já passei não tornará a ouvir o som dos meus passos. Tem uma revista que eu guardo há muitos anos e que nunca mais eu vou abrir. Cada vez que eu me despeço de uma pessoa, pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez. A morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina ela vai me beijar. Com que rosto ela virá? Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer? Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque? Na música que eu deixei para compor amanhã? Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro? Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada, e que está em algum lugar me esperando, embora eu ainda não a conheça? Vou te encontrar vestida de cetim, pois em qualquer lugar esperas só por mim. E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar. Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo morte, morte, morte, que talvez seja o segredo desta vida. Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida. Qual será a forma da minha morte? Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida. Existem tantas... Um acidente de carro. O coração que se recusa abater no próximo minuto, a anestesia mal aplicada, a vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida, o câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe, um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio.. Oh morte, tu que és tão forte, que matas o gato, o rato e o homem. Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar. Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva, e que a erva alimente outro homem como eu. Porque eu continuarei neste homem, nos meus filhos, na palavra rude que eu disse para alguém que não gostava. E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite... Vou te encontrar vestida de cetim, pois em qualquer lugar esperas só por mim. E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar. Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo morte, morte, morte, que talvez seja o segredo desta vida. Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida.."     
Raul Seixas