sexta-feira, 30 de outubro de 2015

só por hoje.

Respira fundo. Intenso, profundo e de olhos bem fechados. Sente o peso se esvair... manda embora o cansaço e torne esse momento um leve sorrir. Coloca de lado todo o medo, toda a angústia e a dor que te rodeia. Só por hoje. Deita aqui e descobre que o meu calor não é só fogo... é ternura também.

Thaís Renata de Lima

terça-feira, 6 de outubro de 2015

o haver.



Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.


Vinícius de Moraes

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

é tempo de morrer. (é?).

Eu havia colocado no toca-discos um disco velho, poemas do Vinícius e Drummond, daqueles que, com o tempo, começam a chiar e a pular. O próprio Vinícius, com sua voz de sussurro, recitava, e agora chegava a vez do último poema, O Haver, que é um balanço da vida, tanto que todas as estrofes começam com a mesma palavra Resta; foi isso que sobrou.

"Resta essa capacidade de ternura,
Essa intimidade perfeita cora o silêncio […]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido […]
Resta essa faculdade incoercível de sonhar […]
[…] e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança…"

E os resta se sucederam, até chegar ao resta final. Assim é a vida. Tudo o que é belo, para permanecer belo, tem de ter um fim. Assim é com o pôr-de-sol que é belo porque suas cores são efêmeras e em poucos minutos se vão. Assim é também a sonata que é bela porque sua vida é curta. Se ela não tivesse fim e ficasse tocando eternamente, é certo que o seu lugar seria entre os instrumentos de tortura do inferno.

Até o beijo… Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca? A vida precisa de descanso. Lembro-me de um poema de Fernando Pessoa em que ele dizia ter dó. das estrelas, que tinham de ficar brilhando, brilhando, sem nunca descansar… O poema tinha de morrer. A sua beleza o exigia. No lugar da sua morte ficaria o vazio silencioso. Nasceria então uma outra coisa no seu lugar: a saudade. A saudade é flor que só floresce na ausência. É nela que se dizem as orações suplicando dos deuses a graça de repetição da beleza. E é só para isso que existem os deuses: para garantir o retorno do belo. A voz do Vinícius ficou mais baixa. É preciso sussurrar quando o fim se aproxima.

"Resta esse diálogo cotidiano com a morte,
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
ela virá me abrir a porta como uma velha amante […]
E eu automaticamente me adiantei, recitando em silêncio o último verso:
[…] sem saber que é minha mais nova namorada."

Foi então que o imprevisto aconteceu: a agulha pulou para trás. Achou o poema tão bonito que se recusou a ser cúmplice da sua morte. Fez como fazem médicos e parentes, que não permitem a morte do ente querido. Mas o que aconteceu não foi o que a agulha queria. O belo não se prolongou. Ele fugiu. E, no seu lugar, o grotesco, o feio, o que não deveria ser… Uma repetição sem sentido: sem saber que é a minha mais nova… sem saber que é a minha mais nova… sem saber que é a minha mais nova… E assim teria ficado, eternamente se eu, por puro amor, não tivesse ajudado o poema a morrer: levantei-me do meu lugar, fui até o toca-discos, e consumei o assassinato: empurrei suavemente o braço com o meu dedo. O poema se disse até o fim, morreu e ficou perfeito. Depois foi o silêncio.

Pensei que aquilo tinha sido uma parábola da vida. O que se pede da vida é que ela seja bela como um poema. Mas, para ser bela, eternamente, ela há de saber morrer. Está lá, dito no texto sagrado, que para tudo há o tempo certo.

Há um tempo de nascer e há também um tempo de morrer. Aprendemos a contar os meses da gravidez e a marcar o dia do parto. Mas quando aprenderemos a reconhecer o momento de morrer? O nosso corpo sabe. E não quer ficar, depois da hora. Ele também tem dó das estrelas, que brilham sem descanso.

Acho que seria isso que a vida diria, como seu último desejo, se os vivos a ouvissem: que o fim seja calmo como o crepúsculo, que seja decidido como o último acorde de uma sonata, e que se saiba haver chegado o momento quando se reencontra a velha amente com a alegria de quem abraça a mais nova namorada.

Que os médicos e parentes, por amor à beleza, deixem o poema se dizer, até o fim. Por favor, não ponham o dedo ao contrário, no braço do toca discos. 


Rubem Alves