segunda-feira, 31 de agosto de 2015

poema para os dias das lembranças ruins.

Já passou. Acabou. Deixa pra lá. Esquece. Não serve mais. A data venceu. Deixa disso. Pula esse dia. Arranca essa página. Vira o disco. Começa outra música. Faça de conta. Inventa qualquer coisa. Permita que se vá. Feche os olhos. Deixe passar. Aguente. Resista. Sobreviva a este momento. E lembre-se: amanhã é outro dia.

Kelly Shimohiro


sábado, 29 de agosto de 2015

se é pra morrer.



Se é para morrer
quero morrer muitas vezes,
mais do que as que soube ter vivido
e fui eterno sem o saber.

Se é para morrer
morrerei tantas vezes
que entre corpo e tempo
minha alma perderá caminho.

E morrerei
de tudo, em cada instante.

Morrerei até ser árvore,
renascendo em estação
para além do tempo, para além da luz.

Se é para morrer
que seja como o amor:
tanto e sempre
que não será derradeira a última vez.


Mia Couto

CXLIV, 144.

Dois amores - de paz e desespero -
Eu tenho que me inspiram noite e dia:
Meu anjo bom é um homem puro e vero;
O mau, uma mulher de tez sombria.
Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer transformá-lo num diabo,
Tentando-lhe a pureza com a lascívia.
Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem dizer que seja;
Mas longe ambos de mim, e amigos, temo
Que o anjo no fogo já do outro esteja.
Nunca sabê-lo, embora desconfie,
Até que o mau meu anjo contagie.



William Shakespeare


Tradução: Ivo Barroso

6. Desesperada, mente.

Mentira, você não me ama.
Eu também, eu nunca te amei.

Mas o que importa a verdade
quanto esta sede quase mata a gente
e nada mais que uma ilusão ardente
pode saciar a vontade
de ter amor, mesmo fingido, mesmo molhado?

Verdade, eu nunca te amei.
Você também, nunca me amou.

Então diz que me ama. Desesperada, mente.
Te faço confissões alucinadas
e tenho febre ao teu lado do telefone
esperando tuas mentiras descaradas.
Sente, pouco importa a falsidade
e mente, mente, meu amor, espatifada, mente.

É tudo verdade, é tudo mentira.
Vamos voar num tapete voador
de olhos fechados, de mãos enlaçadas
como se houvesse amor, esquecer
que você não me ama
e eu também, eu nunca te amei,
meu amor, minha dor.

Desesperada, mente
mente, mente, meu amor
Alucinada, mente.

Caio Fernando Abreu


Poesias nunca publicadas, Sem data.

5.

A todo momento
tenho a impressão que você
vai entrar por aquela
porta giratória
acompanhado de qualquer pessoa
homem, mulher, não importa
tão pouco especial,
meio bêbado, meio barbado
no fim do domingo
numa mesa ao fundo
do bar, ao som do reggae
acompanhado de minha amiga
tão pouco especiais
no fundo do bar
banal ao som de Joplin
estarei na décima quinta
garrafa de vinho
e o nada, nada mais me resta
a não ser
estar no fundo do bar
e eu estarei lá
à espera de alguém
que não estará lá.
num fundo de bar
num fim de noite
na curva do domingo
nós três, nós mil

tão pouco especiais
jogados no fundo de qualquer coisa
à espera de qualquer coisa
muito especial
entrando por aquela porta giratória.


Caio Fernando Abreu

Poesias nunca publicadas, Sem data

18.

Por te querer mais claro
Mais, mais leve, tangível.
Por te querer, apenas?!
Por tudo isso me tornar assim
escuro, remeto, pesado
gerando em mim mesmo
o que não queria em ti
sem compreender agora
a tarde de silêncios
e moscas sobre os cães
da casa a que não pertencemos
nem pertenceremos nunca
e te afundas em porões sem chaves
enquanto busco o sol
e me pergunto então
o que queria, afinal.


Caio Fernando Abreu.

Poesias nunca publicadas, Sem data.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

nomes .2. almas ou tulipas?



(...)

Uma outra voz, hesitante e tão frágil que Coraline pensou estar imaginando , disse:
- Está... você está viva?
- Sim - sussurrou Coraline.
- Pobre criança - disse a primeira voz.
- Quem são vocês? - sussurrou Coraline.
- Nomes, nomes, nomes - disse uma outra voz, longuíqua e perdida. - Os nomes são os primeiros a partir, depois que a respiração se esvai, e a batida do coração. Guardamos as nossas memórias por mais tempo do que nossos nomes. Ainda trago em minha mente imagens da minha preceptora em uma certa manhã de maio, trazendo consigo meu aro e minha vara, o sol da manhã batendo-lhe nas costas e todas as tulipas agitando-se à brisa. Mas esqueci-me de seu nome e do nome das tulipas também. 
- Não acho que as tulipas tenham nome - disse Coraline. - São apenas tulipas.
- Talvez - disse a voz com tristeza. - Mas sempre achei que aquelas tulipas deveriam ter um nome. Eram vermelhas, alaranjadas e amarelas como a brasa na lareira do quarto de brinquedos em uma noite de inverno. Recordo-me delas.
A voz soava tão triste que Coraline estendeu sua mão para o lugar de onde ela vinha, encontrando uma mão fria. Coraline apertou-a firmemente.
Seus olhos estavam começando a se acostumar à escuridão. Agora, Coraline estava vendo, ou imaginava ver, três formas, cada qual tão lânguida e pálida como a lua durante o dia. Eram formas de crianças aproximadamente do seu tamanho. A mão fria apertou a sua mão de volta.
- Obrigado - disse a voz.

(...)



Neil Gaiman, Coraline

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

11.


maria clara:

me chama qualquer hora
diz como eu te encontro
me leva daqui
perdoa alguma coisa
é que são tantas coisas
dizem que os morangos são eternos
quem disse
suicidou-se no último carnaval
haveria talvez ao longe
uma escola de samba cantando oh jardineira
quem saberá
o dia ficou cinza
sinto falta de você
a cidade mete medo
o abajur da sala queimou
um perfil de nefertiti
você nunca saberá
você nunca mais telefonará
interrogação interrogação interrogação
interrogation mark
singapura
isso é muita cocaína
quero ir embora daqui
quem sabe eu te encontro
não telefonarei
I promise
Sonhei com você
mas só conto se você ligar
você não ligará
comprei uma garrafa de conhaque
mas não consegui sequer beber demais
também não havia motivo
ou sim
depende do ponto de vista
preciso de você
são três horas da tarde
sexta-feira
vinte e quatro de abril de mil novecentos e oitenta e um
não me queria mal
ex-noiva de reagan processada por estelionato
em são paulo brazil
o que foi que aconteceu
alguma coisa partiu
tenho trinta e dois anos
é difícil compreender
isso
y otras cositas más
você tem vinte e quatro anos
e um metro e cinqüenta e dois de altura
eu tenho um metro e oitenta e dois
há vários descompassos
primeiras vezes

ah
primeiras vezes

o primeiro bode de fumo que amarrei
foi no alto da tijuca
faz muito tempo
depois vieram outros bodes
outras drogas
meu terçol no olho direito melhorou
agora estou com um no olho esquerdo
do meu lado tem um pé de guiné
dentro de uma lata de brancol
cola branca para azulejos
são três e pouco da tarde
manda um fonograma
ou qualquer coisa assim
preciso de você
você já não gosta mais de mim
que pena que pena
amanhã é sábado

Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

agosto 13.

Lavava o rosto e organizava as palavras.
Era como se aquele perfume com cheiro de groselha preta e baunilha, que ele me deu, chegasse novamente às minhas narinas. Corri, tratei de respirar. O sábado era de agosto e o céu me salpicava algumas estrelas.


Renata Pires Rocha

terça-feira, 11 de agosto de 2015

soneto 13.

Ah, se pudesses ser quem és! Mas, amado,
Tens a vida apenas enquanto ela pertence a ti.Deverias te preparar para um fim tão próximo,E a outro emprestar o teu doce semblante.


Não tiver um fim, então, viverias
Novamente após a tua morte,
Quando a tua doce prole ostentasse a tua doce forma.
Cuja economia em honra se poderia prevenir


Contra o vento impiedoso dos dias frios,
Ó, quanto desperdício! Meu caro, sabes
Que tiveste um pai: deixa o teu filho dizer o mesmo.



Assim, se a beleza que deténs em vida
Quem poderia ruir uma casa assim tão bela,
E a estéril fúria do eterno estupor da morte?


William Shakespeare

soneto 8.

Doce música, por que a ouves tão triste?
Doçuras não se atacam; a alegria se rejubila;
Por que amas aquilo que não recebes efusivo,
Ou com prazer aceitas teu incômodo?
Se a harmonia de afinados sons
Bem ajustados ofendem o teu ouvido,
Docemente te repreendem, tu que confundes
As partes do que deverias suportar.
Vê como uma corda à outra unida,
São tangidas, de cada vez, mutuamente;
Assemelhando-se a pai e filho, e à feliz mãe,
Que, em uníssono, entoam um doce som;
Cujo canto inaudível, sendo muitos, soa como um,
Assim cantando para ti: 'De nada valerá a tua solidão'.


 William Shakespeare

sábado, 8 de agosto de 2015

.qualquer coisa.

Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
nem as garotas jovens
nem as garotas velhas
nem os homens jovens
nem os homens velhos
nem aqueles no meio-termo
nenhum deles,
não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
Ao invés disso
construa na areia
construa no lixão
construa na fossa
construa nos túmulos
construa na água,
mas não construa nas
pessoas.
Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.
Construa em outro lugar,
qualquer outro,
qualquer
mas não nas pessoas,
massas
sem cabeça, sem coração
emporcalhando os
séculos,
os dias,
as noites,
as cidades, os municípios,
as nações,
a Terra,
a estratosfera,
emporcalhando a
luz,
emporcalhando todas
as chances,
aqui,
emporcalhando completamente
tudo
agora
e amanhã.
Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.
Qualquer coisa.


Charles Bukowski

domingo, 2 de agosto de 2015

.pra machucar os corações: mês do desgosto.

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco: .

Caio Fernando Abreu