domingo, 26 de maio de 2013

.just it.

Para uma avenca partindo.

Você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeito, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço. 

Caio Fernando

era

E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.

Caio Fernando Abreu - Além do ponto

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Caio.

Constantemente, vemos frases tolas onde na assinatura está o nome de um grande autor, como se fosse dita ou escrita por ele. Um dos grandes autores com quem acontecem essas tragédias constantemente é Caio Fernando Abreu, você certamente já viu o nome dele em uma foto do "face" ou no "tumblr", e o que eu quero dizer é que esse não é O Caio, não o meu. Então vai aqui, a fim de quebrar, de certa forma, preconceitos, um dos textos que eu mais gosto falando sobre O Caio, escrito por Luís Augusto Fischer, que é a introdução da antologia "Além do ponto e outros contos":


A vida pela obra, a obra pela vida


Se o seu negócio, leitor, é passar alguns momentos lendo uns textos inofensivos, que não mudem nada em sua vida e passem sem deixar rastros, pode parar por aqui: feche agora mesmo as páginas desta coletânea de contos e se dirija a outro livro. Procure literatura de autoajuda, mistificação da vida, um desses passatempos. Com Caio Fernando Abreu, o buraco é mais embaixo.

O caso é que os textos de Caio nunca passam batidos pelo leitor. Seja pelo tema ou pela linguagem, seja, mais ainda, pelo astral do conjunto do relato, não tem como o leitor simplesmente passar pelas frases parágrafos textos que ele escreveu, de vez em quando assim mesmo, sem aquela pontuação que ameniza e deixa o leitor no conforto. Não, senhor: aqui se trata de literatura levada a sério, como uma das grandes artes que a humanidade inventou.

Para Caio, a literatura deve ter a mesma força da vida. Pois a vida não tem o poder de derrubar as melhores intenções, traindo esperanças ou fazendo-as brotar onde menos se espera? É, ela é bem assim; e bem assim Caio concebeu seu exercício da escrita - como uma espécie de vida intensificada  vida concentrada em palavras. Escrevia com um amplo domínio do repertório das emoções humanas, que em sua literatura comparecem no palco do texto, expondo suas dificuldades e virtudes bem ali, diante do leitor, que por isso mesmo empresta sua solidariedade ao que vai lendo.

Falamos em palco, e vem ao caso, porque Caio foi um homem de teatro, também. Estudou um tempo na universidade, escreveu para teatro, adaptou textos para a cena, tudo isso mostrando que tinha noções muito fortes de uma das coisas mais importantes da linguagem teatral -  a representação.

E quem diz que representação diz re-presentificação: o teatro, tanto quanto a literatura de Caio Fernando Abreu (toda ela, conto, novela, poesia, crônica), faz acontecer de novo, diante do espectador, um drama, uma comédia, uma tragédia, alguma coisa. Bem ali, na cara do público, e contando com sua participação.

Esta coletânea abrange os vários anos em que Caio atuou, para formar um quadro representativo de sua trajetória como contista, e é dedicada especialmente à platéia que principia a tomar contato com a sua obra e com a mais alta literatura.

Com você, prezado leitor, respeitável público, alguns contos de Caio Fernando Abreu, teatrólogo mesmo quando foi contista. Uma das melhores vozes de um tempo duro, o tempo da ditadura no Brasil e da Guerra Fria no mundo todo. Uma testemunha vibrante da força do rock'n'roll e um homem solidário com as dores que só o bolero pode expressar. Um escritor que não pediu desculpas para ser triste quando podia ter apelado para isso, nem pediu aplausos para expressar solidariedade quando descobriu o melhor da humanidade no meio do lodo. Um grande escritor.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


  Marina Colasanti