segunda-feira, 27 de junho de 2016

.no centro do furacão



Vórtice, voragem, vertigem:
qualquer abismo nas estrelas de papel brilhante no teto.


Queria tanto poder usar a palavra voragem. Poder não, não quero poder nenhum, queria saber. Saber não, não quero saber nada, queria conseguir. Conseguir também não - sem esforço, é como eu queria. Queria sentir, tão dentro, tão fundo que quando ela, a palavra, viesse à tona, desviaria da razão evitaria o intelecto para corromper o ar com seu som perverso. A-racional, abismal. Não me basta escrevê-la - que estou escrevendo agora e sou capaz de encher pilhas de papel repetindo voragem voragem voragem voragem voragem voragem voragem sete vezes ao infinito até perder o sentido e nada mais significar - não é dessa forma que eu a desejo. Ah essa palavra de desgrenhados cabelos, enormes olhos e trêmulas mãos. Melodramática palavra, de voz rouca igual à daquelas mulheres que, como dizia John Fante, só a adquirem depois de muitos conhaques e muitos cigarros. Eu quero sê-la, voragem.
Espio no dicionário seu significado oficial, tentativa inútil de exorcizar o encantamento maligno. O que leio, inquieta ainda mais: "Aquilo que sorve ou devora". E vejo um redemoinho lamacento de areias movediças à superfície do qual uma única mão se crispa. Vórtice, penso, numa vertigem. Repito, hipnotizado: vertigem, vórtice, voragem. "Qualquer abismo" - continuo a ler. Os abismos de rosas, os abismos de urzes, e aqueles abismos à beira do qual duas crianças correm perigo, protegidas pelas asas do Anjo da Guarda. Os abismos de estrelas falsas no falso céu do teto do meu quarto, os abismos de beijos e desejos, o abismo onde se detém o rei daquela história zen para abrir o anel que lhe deu o monge, onde está guardado o condão capaz de salvá-lo - e o condão é a frase: "isto também passará". Sim, leio então: "Tudo que subverte ou consome" - paixões, ideologias, ódios, feitiçarias, vocações, ilusões, morte e vida. Essas outras palavras de maiúsculas implícitas - vorazes, voragem -, abismais.
Eu estava lá, no centro do furacão. E repito as palavras que são e não são minhas enquanto o porteiro do edifício em frente toca violão e canta, e a chuva desaba outra vez, e peço: por favor, me socorre, me socorre que hoje estou sentido e português, lusitano e melancólico. Me ajuda que hoje eu tenho certeza absoluta que já fui Pessoa ou Virgínia Woolf em outras vidas, e filosofo em tupi-guarani, enganado pelos búzios, pelas cartas, pelos astros, pelas fadas. Me puxa para fora deste túnel, me mostra p caminho para baixo da quaresmeira em flor que eu quero encostar em seu tronco o lótus de mil pétalas do topo da minha cabeça tonta para sair de mim e respirar aliviado de por um instante não ser mais eu, que hoje não me suporto nem me perdôo de ser como sou e não ter solução. Me ajuda, peço, quando Excalibur afunda sem volta no lago.
Ela se debruça sobre mim, me beija com sua grande boca vermelha movediça. Tenho medo mas abro minha boca para me perder.
Ela repete baixinho em meus ouvidos nomes cheios de sangue - Galizia, Ana Cristina, Júlio Barroso - enquanto contemplo o céu no teto do meu quarto, girando intergaláctico em direção a ER-8, a estrela de 10 bilhões de anos, o cadáver insepulto para sempre da estrela perdida nos confins do Universo. Choro sozinho no escuro, você não enxuga as minhas lágrimas. Você não quer ver a minha infância. Solto nesse abismo onde só brilham as estrelas de papel no teto, desguardado do anjo com suas mornas asas abertas. Você não me ouve nem me vê, e se ouvisse e visse não compreenderia quando eu abrir os braços para Ela e saudar, amável e desesperado como quem dá boas-vindas ao terror consentido: voragem, voragem.
Voragem, vórtice, vertigem: ego. Farpas e trapos. Quero um solo de guitarra rasgando a madrugada. Te espero aqui onde estou, abismo, no centro do furacão. Em movimento, águas.



Caio Fernando Abreu

sábado, 25 de junho de 2016

.todos os dias


e todos os dias
trazer à tona meu melhor rosto
para que os outros não se assustem
para que os outros não se espantem
para que eu não me dane e sangre
e todos os dias 
depurar o melhor de mim
e não deixar nenhum espinho à tona
e não deixar nenhuma dor à mostra
e não deixar nenhuma cicatriz visível
combater a voz rouca com gargarejo de salmoura
esconder as olheiras com óculos escuros
e dizer coisas, mesmo sem sentido,
o tempo todo, dizer coisas e mais coisas e outras coisas
para que o silêncio não agrida nem pareça fundo
como um poço
para que o poço não assuste

e todos os dias
e todos os dias
e hoje como ontem


não deixar a sede vencer a garganta
e não deixar o gesto se estender do braço
e não gritar, não gritar nem chorar,
nem utilizar palavras ásperas
(dance, dance, dance
e não se esqueça de sorrir)
e todos os dias
controlar o ridículo
para não confessar amores inconfessáveis
delimitar o cansaço
mastigar a solidão
tomar um ônibus
e voltar sozinho para casa, em passo lento
ou então beber num bar qualquer
qualquer bebida, qualquer companhia,
beber, beber, beber, beber
e não esquecer nada.
todos os dias
um dia depois do outro
amanhã eu sei
amanhã também.

Caio Fernando Abreu

.3.cantiga de hoje à noite

Não. Não me peçam singelezas.
Se penso em flores, céu e campo,
o pensamento espalhado bucólico em recantos de infância,
se pesquiso espantos renascidos de ocultos vãos de memória,
a forma me sai fria, em gelo e sal.
Nos ásperos caminhos de meu tempo
já não encontro passos predestinados:
cirandas confusas em torno de ídolos de pedra, desesperados abraços, desvairados encontros
sem amanhã, sem depois.
Já não consigo amenidades no falar.
As estruturas criadas em cristal são apenas vidro,
vidro partido violentando veias onde nasce um sangue inerte.
Inútil sangue de meu tempo
percorrendo escuros caminhos de cansaço.

Por favor, não esperem doçuras do meu canto.
Não esperem doçuras de ninguém mais,
não esperem se quer o canto:
maldito aquele que quiser purezas.
E no entanto, houve um tempo em que eu cantava.
Nos teares antigos de meu peito
rocas de prata entreteciam esperas,
intermináveis rendas de alegria.
Geradas por raízes de terra
uma seiva lenta e calma envivecia os membros.
Ainda assim, o voo pesa.
O impossível voo em meu corpo sem asas.

Peçam-me apenas silêncios. E que no meu escuro claustro
encontre aqueles cantares, encontre a mão de um amigo.
Mas já não creio em canções e os amigos me traíram.
Em traições e guitarras, difícil achar a flor.

Caio Fernando Abreu 

13 de abril de 1969

segunda-feira, 13 de junho de 2016

.luciana


Luciana morta dentro do caixão enorme. Sobre a mesa, quatro velas ardendo. Coroas de flores por toda parte. A chuva batendo nas vidraças, o vento inclinando plátanos e eucaliptos, que despiam suas folhas para jogá-las contra a janela. A chuva esmaecia o contorno dos corpos, apagava o rosto das pessoas, suavizando os ângulos dos objetos para transformar tudo numa massa cinzenta, aqui e ali entrecortada por soluços. Caminhos de lama pelo chão, coisas de fora que as solas dos sapatos das pessoas traziam e depositavam no assoalho encerado dois dias antes pela própria Luciana.
Maurício encolheu-se no fundo da poltrona, enrolando-se mais no cobertor. Mamãe o mandara ficar ali, sem se mover, com um rosto tão sério que ele nem sequer se atrevia a mudar de posição. A perna já estava dormente, como se cravassem nela mil agulhas muito finas e compridas. Luciana não ia voltar nunca mais, ele sabia. E agora, meu Deus, como seria agora nas noites de chuva e vento — como hoje — quando ela vinha com seus braços cheirosos e seu sorriso bonito afastar o medo e a insônia — como seria, meu Deus? Veio uma ardência nos olhos. Uma sugestão de lágrima dançou úmida no pensamento. Mas ele a afastou, medo e vergonha de ceder: “Seja homem”, Luciana dizia. “Homem não chora.”
Como vai ser, Luciana? Me diz, como vai ser quando eu estiver com resfriado e tu não estiveres pra me dar chá de laranjeira? Como vai ser quando entrar um caco de vidro no meu pé e não tiver ninguém pra botar mercúrio e esparadrapo? Luciana, me diz, quem é que vai fazer pandorga pra mim quando estiver ventando um ventinho bom? Quem vai fazer doce de abóbora e me deixar comer a rapa no fundo do tacho? Quem vai escolher forquilha boa pra me fazer um bodoque? Quem Luciana, quem?
As lágrimas começavam a escorrer, ele não tinha mais vergonha. Quentes, desciam pelas faces, ensopando o cobertor, pingando sobre o chão
encerado — ainda anteontem, meu Deus — por Luciana. E Maurício não sabia se chorava por ela ou por si mesmo, sem Luciana. Sentia-se pequenino, só, perdido dentro do cobertor, aquele tremor que não era frio nem medo: uma tristeza fininha como as agulhas cravadas na perna dormente, vontade de encostar a cabeça no ombro de alguém que contasse baixinho uma história qualquer.
Olhou em volta. Não conseguia distinguir os rostos das pessoas. Sabia que ali estavam vizinhos, comadres, que aquela sombra de farda verde, cabeça enterrada nas mãos abertas, era o noivo de Luciana, que o vulto mais soluçante de todos era o de tia Violeta. Sabia, mas não podia acreditar que fossem eles mesmos. Quem sabe se não estavam todos fazendo de conta e de repente alguém ia dar uma grande risada enquanto Luciana levantava do caixão, atirando para longe os panos roxos e as flores que afogavam seu rosto, quem sabe? Chegou a mexer a perna, tirou o pescoço para fora do cobertor. Agora, pensou com força. Cravou as unhas nas palmas das mãos, fechou os olhos, aguardou a risada que viria acabar com tudo. Agora, repetiu. Foi baixando novamente a cabeça, os lábios roçando pelo pano áspero de lã. Agora agora agora. Mas nada acontecia além das conversas que saíam das bocas das pessoas e rolavam até seus ouvidos, incompreensíveis:
— Mas como foi fazer isso? Uma moça boa, forte, bonita, alegre, trabalhadeira... — ... noiva — acrescentou alguém de voz rouca.
— É mesmo, ainda mais essa. Fico com pena é do rapaz. Dela, não, porque, afinal, o que é que a gente importa neste vale de lágrimas?
— Nada — respondeu a voz rouca.
Uma terceira voz intrometeu-se na conversa. Voz de cachorro, Maurício pensou, descobrindo no fim das palavras tons agudos que lembravam latidos.
— Diz que o padre nem quis encomendar o corpo da infeliz.
— É pecado — disse a voz rouca.
A primeira tornou a falar:
— Foi formicida, não foi?
A voz de cachorro, que parecia bem-informada, esclareceu:
— Não. Soda cáustica.
— Aceita um cafezinho? — perguntou de repente uma outra voz.
Maurício escondeu as orelhas no cobertor. Não queria mais ouvir. Passou as mãos pelos tornozelos fazendo-as subir até os joelhos, onde se detiveram sobre uma casquinha de ferida. Tiro ou não tiro? Acariciou a casquinha, deixando deslizar entre os dedos a forma arredondada. Lembrou a voz de Luciana, uma voz lustrosa, entremeada de reflexos de riso: “Tira nada, guri. Olha que as tripas saem por aí.” E ele não tirava. Então ela vinha com a água oxigenada, algodão, iodo, gaze, e curava o machucado tão bem que até dava vontade de se machucar de novo. Suspirou, a perna começando a adormecer outra vez.
As pernas grossas de Luciana, os seios fartos de Luciana, as cadeiras largas de Luciana — tudo enrolado em panos roxos, preso dentro do caixão. O caixão enrolado em flores que transbordavam sobre a mesa, algumas escapulindo para o chão, esmagadas por pés cobertos de lama. Aquilo era o começo do nunca mais, pensou Mauricio. E repetiu em pensamento: nunca nunca nunca mais. Porque quando uma pessoa morria, era para sempre. Mas não conseguia compreender palavras grandes como essas: nunca, sempre. Havia o dia de ontem, o dia de hoje e o dia de amanhã. Havia mesmo os dias de uma semana atrás, de um mês ou, com um grande esforço que quase fazia a cabeça estourar, os dias de um ano atrás. Mas sempre era muito mais que um ano; e nunca, muito menos que um segundo. Sempre e nunca — ele imaginava uma coisa muito grande e branca, que a gente olhava debaixo para cima, sem conseguir ver onde terminava. Luciana ia ficar para sempre na parede branca, para nunca mais voltar.
Bocejou sem querer, o pensamento difícil fazendo o sono pesar nas pálpebras que ameaçavam fechar. De repente sua atenção voltou-se para a silhueta que surgia na porta. Era vovó, com seus cabelos cor de cinza, as rosas murchas no lugar das mãos. Aproximava-se com firmeza do caixão, os tacos grossos dos sapatos batendo fortemente no assoalho, fazendo as conversas morrerem, transformadas num murmúrio de expectativa. Por um segundo Maurício imaginou que ela fosse sacudir Luciana pelo ombro e dizer com voz seca: “Vamos, sua china preguiçosa, chega de folga. Já chega de
estar se refestelando aí nessa maciota de panos e flores.” imaginou e desejou, desejou que ela dissesse, vamos, vovó, diga. Esqueceu da perna, a boca entreaberta por um bocejo que não se completou. Diga, vovó, diga. Mas a velha curvou-se sobre o caixão, afastou o lenço e depositou um beijo na face branca de Luciana.
Maurício escondeu o rosto. Não era raiva o que sentia, era de novo aquela tristeza fininha, agulhando seu pensamento, seu coração. Arrancou com força a casca de ferida do joelho, espiou por baixo do cobertor. Mas o sangue não veio. Então ergueu os olhos, ficou olhando as folhas de platanos coladas à vidraça, a cabeleira despenteada dos eucaliptos. O vento, a chuva. A noite que vinha chegando. Tornou a afundar a cabeça na quentura úmida do cobertor. Como vai ser, como vai ser, Luciana?, perguntou baixinho. Mas ninguém respondeu.
Esperava ansioso as noites de inverno quando o minuano uivava enfurecido, com vontade de derrubar a casa. Encolhia-se no fundo dos lençóis, o peso dos acolchoados esquentando o corpo, vontade de ficar uma vida inteirinha ali, esquecido de tudo, de todos. Era nessas noites que Luciana vinha. Vinha com seu corpo grande, seu sorriso bonito, uma xícara de leite morno, um pedaço de bolo. E as reclamações:
— Deita aí, seu pestinha. Fica se fresqueando nesse vento frio e acaba pegando uma constipação. Depois a gente é que sofre o dia inteiro, cuidando dessa porcariazinha de guri.
Reclamava rindo, as mãos ajeitando as cobertas em volta do corpo do menino. Que cheiro bom tinha Luciana quando se curvava para ele. Maurício fechava os olhos, aspirava fundo: parecia o cheiro da fazenda. Depois abria os olhos, ficava vendo os movimentos dela. Como Luciana era grande, como Luciana era boa, como Luciana era bonita, como...
— Luciana, por que é que tens as mamicas tão grandes?
Por um segundo a moça ficava séria. Depois ria:
— Porque sim, ué.
— Mas por quê, Luciana? As minhas são pequenininhas, olha aqui, ó — desabotoava o pijama e mostrava.
Luciana ralhava de novo:
— Abotoa esse troço, guri! Se tu pega uma pulmonia acabam é botando a culpa em mim.
— Mas por que, Luciana...
— Por que o que? — perguntava ela distraída, enquanto mexia nas cortinas, já esquecida da pergunta.
— ... que tu tens umas mamicas tão grandes?
Ela largava os braços como quem diz: “Quem é que pode com esse pestinha?” Então explicava:
— É porque eu sou mulher e tu és homem.
— E se eu fosse mulher, aí tinha?
— Tinha.
— E se tu fosses homem, aí não tinha?
— Não tinha.
— E se...
Luciana fechava a cara:
— Toma já-já este leite e pára com essas perguntas senão eu chamo a comadre Joana!
Maurício parava. Comadre Joana — brrrrr! —, um arrepio de nojo, frio e medo eriçava-o todo. Lembrava da velha babona, a boca sem dentes, as mãos iguais a duas garras. Estendia a mão, pegava o copo de leite. Bebia devagar, calorzinho gostoso descendo pela garganta, espalhando-se pelo corpo inteiro. Depois era a vez do bolo, que tinha o mesmo cheiro de Luciana. — Já tomei — dizia. — Agora conta uma historia.
Ela sentava na beira da cama. Voltava os olhos para a janela onde o vento colocava assobios de inverno.
— Qual? A do Negrinho do Pastorejo?
— Não. Essa tu já contou. Outra.
— Deixa ver... A do Boitatá?
— Essa também tu já contou.
— A da Moura-Torta, então.
— Puxa, Luciana, eu já conheço todas essas. Uma história nova.
— Hum... nova?
Ela começava a passar a mão sobre a colcha de retalhos que tia Violeta tinha feito. A mão morena contrastava com os pedaços coloridos de tecido. Baixava a cabeça, uma sombra escurecia seu rosto, fazendo-a ficar muito séria. Mauricio espichava o corpo na cama, preparando-se para a ouvir, Luciana começava:
— Era uma vez...
— Uma princesa, já sei.
— Não sabe nada. Fica quieto senão não conto. Era uma vez um castelo onde morava uma rainha muito velha, junto com três filhas. Uma das filhas era solteira, mas as outras duas eram casadas. Uma das casadas tinha um filho assinzinho do teu tamanho e igualzinho a ti, só que era ainda mais chato. A outra tinha um filho que era um príncipe muito bonito, de olhos azuis e dedos muito compridos. Esse príncipe não morava junto com elas no castelo, morava numa cidade muito grande e muito longe. Só vinha nas férias, e então todo mundo ficava mais alegre, tudo ficava mais colorido, porque ele era muito bom e muito bonito.
Maurício achava graça:
— Que engraçado, parece o Edu, não é, Luciana? Me diz, ele era parecido com o Edu, era?
Luciana ficava muito tempo quieta, alisando os fios rebeldes da colcha de retalhos. Depois dizia:
— Era. Era sim. Bem igualzinho a seu Eduardo.
Maurício achava engraçado ela dizer “seu Eduardo” e ficar tão triste sempre que falavam nele. A história continuava:
— Nesse castelo também tinha uma moça muito pobre que servia de empregada. Todos tratavam muito bem ela, e ela queria muito bem todo mundo, principalmente aquele piazinho que era igual a ti.
— E era bonita a moça essa?
— Era. Acho que era.
— Como é que ela era, hein?
— Grande, trabalhadeira, os cabelos pretos e os olhos dum castanho bem claro, quase cor de casca de laranja quando esta madura.
— Parecidos com os teus, então?
— É. Parecidos com os meus. Mas a moça vivia muito triste, porque ela gostava do príncipe e tinha roubado um retrato dele. Todos os dias, quando acordava de manhã, a primeira coisa que ela fazia era olhar bem pra cara dele. Aí a moça sorria e ficava um pouquinho alegre. De noite, antes de dormir, ela olhava de novo o retrato, dava um beijo nele e ficava outro pouquinho alegre.
— Péra aí— interrompia Maurício. — Naquele tempo já tinha retrato?
— Retratos são modos de dizer. Era uma pintura que um pintor tinha feito do príncipe.
— Ah, bem. Mas essa moça era meio doida, não era?
— Doida por quê, guri?
— Ih, Luciana, esse negócio de beijar retrato e só doido que faz.
Ela explicava, sorrindo — um sorriso diferente dos que costumava sorrir: — Não, gurizinho. Quando a gente gosta mesmo duma pessoa, a gente faz essas coisas. — Calou um momento, depois acrescentou: — Faz até pior. — Pior, como? Lamber o prato que a pessoa come?
Ela não respondeu. Mauricio deu uma cuspidinha de lado, fazendo cara de nojo.
— E daí, Luciana?
— Daí que a vida da moça foi ficando um inferno. Ela não pensava noutra coisa o dia inteiro. Só no amor que sentia. Pensava no amor que sentia pelo príncipe o dia inteiro, nem comia mais direito, nem dormia, nem trabalhava nem nada. As princesas e a rainha ralhavam com ela o tempo todo. Passava o ano todo esperando o príncipe vir de férias. Mas quando ele vinha, a moça ficava ainda mais triste.
— Por quê, hein?
— Porque ela via ele todos os dias.
— Ué, mas não era então pra ela ficar alegre em vez de triste?
— Não, porque o príncipe não ligava mesmo pra ela.
— Mas ela não era bonita?
— Era.
— Então por que o príncipe não gostava dela?
— É que ela era empregada.
— E o que tem isso?
— Tem que ela não sabia calçar um sapato bonito pra ir nas festas do castelo, nem tinha nunca vestido uma roupa bonita nem ido num baile. E se fosse, todo mundo ia ficar logo vendo que ela nunca tinha ido e o príncipe ia ficar muito triste e morto de vergonha.
— E o príncipe sabia que ela gostava dele?
— Não. Ela não queria contar pra ele porque ele era muito bom e ia ficar triste por não poder gostar dela. E ela não queria que ele ficasse triste.
— E depois, Luciana? — perguntou Mauricio, que estava achando aquela história meio sem jeito.
— Depois o príncipe foi embora.
— E a moça?
— A moça morreu, coitada.
— Morreu como, Luciana?
— Tomou um veneno.
— Tadinha da moça...
Maurício baixava os olhos, encostava a cabeça no travesseiro. Uma vontade de chorar e chorar de pura pena da moça.
— Que história mais triste, Luciana.
O minuano forçava as vidraças. Por baixo delas escorregava um friozinho que colocava arrepios na pele da gente. Maurício tinha a impressão de que junto com o frio escorregava também um grande silêncio. Lá fora só se ouvia algum latido de cachorro ou barulho de lata que o vento levava para diante, sem dó. De manhãzinha o pátio estaria todo atapetado de geada, ele espiaria pela janela e acharia tudo muito bonito. Depois voltaria para a cama, cairia num sono ainda mais gostoso, para acordar com a voz da mãe chamando: “Tá na hora da aula, Maurício.” A colcha de tia Violeta esquentava o corpo por fora, o copo de leite de Luciana esquentava a gente por dentro. Todo ele estava quentinho e pronto para dormir. O frio continuava escorregando pela janela, cada vez mais gelado. Um silêncio, meu Deus. Tadinha da moça da história. Os olhos iam-se fechando, o corpo
diminuindo, caindo num poço todo algodoado, sem fundo. De súbito voltava à tona, atraído por um barulho muito leve. Abria os olhos e perguntava: — Luciana, por que é que tu estás chorando?

Caio Fernando Abreu
Limite Branco

.diário IV


18 de maio

Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo s
e repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim.


Caio Fernando Abreu
Limite Branco

sábado, 11 de junho de 2016

.décimo quarto canto.


AMOR

Meu destino são as armas. As espadas! Estiletes que atravessam o crânio. Depois, o assalto ao castelo, onde encarceraram a princesa.
Amo muito a ti. Por ti corre o sangue que inunda o Hôrto. E por ti colunas de fumo erguem-se sólidas, como gladiadores desafiando os astros. Sòzinho criei êste tumulto, declarei esta guerra, que Lúcifer, de seu trono, espreita com pavor. Breve estarás salva. Vejo que minhas vestes estão rôtas, os cabelos partidos, o corpo desmembrado. Mas, o coração, que é teu, nunca pulsou com tanta fortaleza, aqui, no peito


José Alcides Pinto
Cantos de Lúcifer

domingo, 5 de junho de 2016

.95


nunca mais
é a expressão que durará pra sempre
entre nós a ausência, a surdez, a cegueira
nada, silêncio, nem um eco ou assovio
mata-se o amor no frio


Martha Medeiros

sexta-feira, 3 de junho de 2016

.para uma avenca partindo


 - Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ............................................................................................................................................................................................................................................................................................ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

Caio Fernando Abreu