terça-feira, 28 de outubro de 2014

atravessei a cortina.



"Tornando-se real. Uma reflexão de si mesmo do pássaro Pega."

Um cantor de uma boa banda tem uma mente bonita. Tem também uma bonita tatuagem no peito, no coração: real
Por que real? O que real?
Descobri que vinha de uma - também muito - bonita história infantil, escrita em 1922 por Margery Williams, "Velveteen Rabbit or How The Toys Become Real".
Li.
A história fala sobre um coelho de pelúcia que torna-se real. Quis ser real.
Trouxe o real como significante na minha vida. Juntei ao balão, ao barco. Por que não uma também futura tatuagem? Quis e incorporei, real.
Trouxe para mim o real, para o comum. 
Vivi normalmente (desvivendo).
Depois de três meses na terapia, voltei a me buscar. 
Escrevi sobre. No período de uma semana me senti real (chamei, completa) duas vezes.
No dia seguinte, por nós conflituosos da vida, me vejo na barca de Niterói para a cidade do Rio de Janeiro. Lá, novamente, me senti real
Com tal sentimento, em minutos me vi no centro cultural, CCBB. Encantada. Corri de uma exposição de ouro para uma escadaria com Paulo Leminski.
Andei ao centro.
Foi quando minha simpática acompanhante desejou um café. Fez o convite. Recusei. E partiu.
Já estava naquele momento tão atraída por uma cortina que café nenhum interessava, 
Atravessei a cortina e encontrei.
Segredos atrás de pequenas cortinas. 
Egoísmo, alegria, medo, juras e desejo de morte. 
Começou com "o que vemos". Que frase.
Caras distorcidas, bilhetes e quadros que pediam meus segredos. Qual deles? escrevi? Escrevi Perpétuer. Escrevi um machucado.
Rodei. Vi um pássaro.
Vi um quadro que indiretamente e atrevidamente perguntava: quem é você?
Se descubra. Se identifique. Se represente. (papel quadrado, caneta preta)
?
Isso eu já sabia.
balão sem fogo? coloquei (até) um ponto, o fogo.
barquinho na água, deus dará.
um flash.
Perpétuer.
real.
Deixei de lado, escutei uma voz. 
 - Então já leu sobre o Pega?
 "Hã?"
 - O Pega, já leu?
E rapidamente respondi àquele vulto que não. (virei)
 - Não sei o que escrever.
 "Hm." Roboticamente desleixada, pateticamente desligada. Dentro. Ligada.
 - E o que é Perpétuer?
 "Como?" (Como?)
 - Você escreveu no quadro, Perpétuer.
 "Ah. Meu blog, complicado." 
 - Verei. (virei)
Sorriso tímido.
Hora de partir. Continuei a ir. Vi o pássaro. Vi o livro. Me chamou. Reneguei.
 - Leva o livro. (reneguei)
 "Hã?" (hã?)
 - Leva o livro? (reneguei)
 "Pode?"
 - Pode, leva. 
 "Tá."
Sorriso tímido. 
Saí.
Encontrei minha simpática acompanhante me esperando. 
Levei, guardei.
Abro hoje.
Leio o livro de Anthony Marcellini sobre o pássaro Pega, o pássaro que se reconhece real.
Leio sobre a primeira inspiração. "Velveteen Rabbit or How The Toys Become Real". 
Tremi.
Me torno real. (destorno)

L.L.

Perpétuer

28/10/2014 
  

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

te cuida

A gente sai de casa para ir numa festa ou para pegar a estrada, e antes que a porta atrás de nós se feche, ouvimos a voz deles, pai e mãe: te cuida. A recomendação sai no automático: tchau, te cuida. Um lembrete amoroso: te cuida, meu filho. A vida anda violenta, mas a gente não dá a mínima para este "te cuida" que a gente ouve desde o primeiro passeio do colégio, desde o primeiro banho de piscina na casa de amigos, desde a primeira vez que saímos a pé sozinhos. Pai e mãe são os reis do "te cuida", e a gente mal registra, tão acostumados estamos com estes que não fazem outra coisa a não ser querer nosso bem e nos amar para todo sempre, amém.

No entanto, lembro da primeira vez em que estava apaixonada, me despedindo dentro do carro, entre beijos mais do que bons, com aquele que devia ser um moleque mas para mim era um homem, e um homem estranho, uma vez que não era pai, irmão, primo, amigo ou colega. Depois do último beijo, abri a porta do carro e, antes de sair, ouvi ele dizer com uma voz grave e sedutora: te cuida.

Me cuidarei, pode deixar. Me cuidarei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Me cuidarei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.

Me cuidarei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Me cuidarei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não pode cuidar de mim.

Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me viu hoje. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me ama e não agüentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir.

Te cuida, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um te amo.

Meses depois, terminado o namoro sem beijos de despedida, saio do carro trancando o choro, ainda que o rompimento tenha sido resolvido de comum acordo. Abro a porta e já estou com uma perna pra fora quando ouço, sem nenhuma aflição por mim, apenas consciência de que não teríamos mais notícias um do outro: te cuida. Me cuidei. Só chorei quando já estava dentro do elevador.

Martha Medeiros

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

o velho e o mar


Lança o barco contra o mar
Venha o vento que houver
E se
Virar
Nada
Pega a mala que couber
Roda a estrada sem saber
E se
Perder
Calma
Beija a boca da mulher
Tira a roupa sem pedir
E se
Sorrir
Fica
Bebe o copo que encher
Diz pro amigo que é irmão
O que
Nem tem
Palavra
Lança o barco contra o mar
Venha o vento que houver
E se
Puder
Voa

Rubel

domingo, 19 de outubro de 2014

.deixei atrás os erros do que fui.

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

Fernando Pessoa