terça-feira, 25 de junho de 2013

cala-tebouço


79.

loas à imperfeição!
quem me dera não ter
um pingo de receio
de desagradar
vá para a puta que o pariu
diria mil vezes
o rancor meu recheio
grande merda você
que perca, que afunde, que morra
queria boa porção de lama
e dormir o sono das injustas
desbocada? dá no mesmo, porra
tanto faz como tanto fez
vem cá você, sua pentelha
você não é de nada
e pronto
mil sessões de terapias poupadas

Martha Medeiros

17.

se tenho os lábios bem desenhados e o seio esquerdo e direito
se falo com voz cristalina e o umbigo não é saltado
se o cabelo é alinhado e as orelhas estão sempre limpas
por que não me amas?

se tenho o pescoço longo e as emoções controladas
se sei responder as perguntas quase todas
se conheço a arte de sorrir com o rosto inteiro
por que não me amas?

se tenho sete vestidos para usar no sábado
se as pernas são rijas e as unhas não estão roídas
se leciono às quintas e a tristeza está bem escondida
por que não me amas?

se nado bem de costas e vivo bem de frente
se como pouco açúcar e bebo muita água
se a timidez que trago não atrapalha a dança
por que não me amas?

sei responder as perguntas quase todas

Martha Medeiros

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Matematicamente

eu misturei você, samba e Cazuza, vai que servia, vai que curava, vai que bastava. mentira. enganei mil outras camas, tomei mil outras doses, jurei mil outros nomes; que bobeira é essa de não achar que o universo é digno da nossa injúria, da nossa falta de vergonha? todos esses pecados são seus, meus; são vírgulas e reticências na nossa relação textual-distinta-física-maldita. matematicamente eu deveria estar zilhões de metros longe de você, mas temos um magnetismo barato como imãs de farmácias com corações abertos vinte e quatro horas pra medicar-nos da ausência intragável que realmente jogamos na rotina um do outro. a verdade é que eu te enrolo em pedaços de texto mal pontuados pra que você fique confuso e atrapalhado na minha frase incomum da vida. futuro não há, destino não há e cura, nem pensar. mas prometemos os filhos e os netos e bisnetos e o pseudo-infinito casual pop nas nossas conversas de segundas e cumpriremos seja lá de que jeito. somos o último ato, um fato, um contrato (sem data de validade, vá entender). não nos cabe saber. 

domingo, 2 de junho de 2013

100.

Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar.

Sumi porque não há futuro e isso até não é o mais difícil de lidar, o pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.

Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós que o nosso amor e sua desejada e irrefletida permanência.

Cartas Extraviadas, Martha Medeiros.