quarta-feira, 23 de outubro de 2013

.fios, lagartas e porquês.

Era apenas uma criança. Mais uma, aliás, com tantos porquês em mente. Papai já se preocupava com os fios de cabelo sem pigmento que estavam por nascer, e, dia vai, dia vem, o seu trabalho mais duro era encontrar - quando não se via na obrigação de inventar - respostas rápidas para as minhas perguntas. Não que elas precisassem ser convincentes, até porque eu tinha uma meia dúzia de anos ainda, mas as minhas dúvidas sobre essa esfera que insiste em rodar deixavam -no intrigado.
 
Eu perguntei porque as borboletas nasciam lagartas, e ele respondeu-me que aquela era a maior lição de vida para se tomar como exemplo. Sabe, o inseto que nasce feio e gorducho para depois ganhar cores e asas, transformando-se em algo novo e admirável. Foi aí que eu perguntei porque elas precisavam transformar-se. Quer dizer, lagartas podem não ser as mais lindas das criaturas, porém, para mim, elas não podiam ser vistas como 'o patinho feio'. O cara ao meu lado apontou para os seus cabelos negros, certo de que um bocado de fios brancos se encontravam ali. Ele disse que toda e qualquer coisa do universo evoluía, transformando-se com o tempo. Não satisfeito, soltei rapidamente mais de meus questionamentos: Então um dia eu irei ter asas, papai? Assim como as borboletas? O homem permaneceu quieto, pego de surpresa. E, pela primeira vez, sem uma resposta rápida. Percebi em seu olhar que algo estava errado, mas antes que eu voltasse a perguntar, abri os braços e corri em círculos, rindo alto ao imaginar que voava.
 
Agora eu sei que papai não quis acabar com o meu sonho. Eu nunca teria um par de asas, e isso acabei descobrindo por conta própria. Mas ele nunca soube que eu não precisava disso para voar. Peter Pan não precisou. Passei muito tempo indo para o infinito sem o auxílio delas. Porém, assim como ele disse, todas as coisas evoluem. E a cada noite eu peço, em silêncio, para que ocorra logo a minha transformação. No fim, somos todos pequenas lagartas.

Pedro Guerra

ver o sol.

Não adianta me oferecer o discurso de faculdade-emprego-família como verdade absoluta. A gente não aprende a viver sentado numa carteira de colégio. Não é a fórmula de Pitágoras ou a definição de pronome oblíquo que vai fazer com que eu seja mais ou menos inteligente. Saber organizar informações burocráticas em série e ser programado roboticamente não faz de ninguém um ser humano repleto. Isso tudo só rende uma possível colocação relevante numa prova de vestibular, um êxtase momentâneo. A vida se aprende nas perdas. É perdendo a liberdade que a gente descobre que não se encaixa, é perdendo alguém que a gente descobre que não vale a pena lutar por futilidades, é perdendo o apoio que a gente descobre que o resto do mundo não para só porque nosso mundo parou. A gente vai aprendendo a viver assim, na marra, no grito, no sufoco, no impulso. Eu quis mudar o mundo, quis ser brilhante, quis ser reconhecida. Hoje eu quero bem pouco e prefiro me concentrar no agora do que planejar um futuro incerto. Eu me libertei da culpa e dei de cara com algo novo: não me encaixo, e aceito. Não é justo perder as asas no momento em que se descobre tê-las. É preciso poder voar, é preciso ter uma visão estratégica das janelas. Ver o sol e não poder tê-lo é absurdo.

Então eu deixo algumas coisas passarem incompletas porque tenho consciência de que certas palavras ainda não têm tradução. Por mais que eu grite, vai ter quem não entenda, não aceite. O que eu não aceito é ter nascido num mundo tão grande e conhecer só uma pequena parte. Vou voar. Quem conseguir compreender, que me acompanhe.

Verônica H.- Sol

sábado, 12 de outubro de 2013

.nossos últimos segundos.

Não deixe quebrar, não deixe romper, não deixe virar grafite envelhecido e esquecido como qualquer contrato sem alma. Corra e cole os pedaços, corra e segure meus pés no chão porque eu estou quase voando, ou me faça voar novamente com você. Por favor, não espere o sanduíche ou a festa do ano, e a minha cara assustada perdida na sua ausência. 

Venha logo, traga de volta a minha certeza, não deixe, por favor, não deixe. Traga um agasalho para esquentar a minha falta de amor e ganhe em troca um ingresso para a minha fidelidade. 

Não espere o horário do trânsito livre, não espere ouvir o que você não quer, não espere a vida dar merda para colocar a culpa na vida. 

Eu ainda estou aqui por você, limpa, ilesa, sua. Mas cada milímetro do meu corpo me implora por vida, por magia, por encantamento. Por favor, me roube, não deixe, não esqueça do nosso pacto em não ser mais um daqueles casais que não conversam no restaurante e reparam tristes nos outros. 

Outro dia ouvi a música do Closer e lembrei o tanto que eu te amava, o tanto que ainda te amo, mas havia esquecido. Eu lembrei que enxergar sem pretensões você dormindo, com o seu ombro caído pra frente fazendo bochechas de criança na sua cara feliz, é a visão do paraíso pra mim. 

Eu preciso de força, eu preciso de ajuda, eu preciso que você me lembre de que eu não preciso de mais nada, que mais nada é tão perfeito e que podemos ser um casal imbatível. 

Caso tudo isso seja um trabalho inconsciente para me perder, parabéns, você está conseguindo. Mas se ainda existir dentro de você alguma esperança, eu preciso demais que você me abrace e me faça sentir aquilo novamente. É fácil, basta você querer, eu ainda quero tanto. 

Venha agora, não espere o músculo, a piada, o botão, o calo, a saudade, o arrependimento, o vazio. Eu preciso sentir que você ainda sente, eu preciso que o seu coração dê um choque no meu, eu preciso saber que seu peito ainda aperta um pouco quando eu vou embora e se espalha como borboletas nas veias quando eu chego. 

Tudo o que eu quero, quando ela me olha sem pressa e sorri nervosa sem saber porque a gente procura se perder. Eu ainda preciso que você me ache bonita, se surpreenda, me comemore e esqueça um pouco de todo o resto pra se encantar sem medo do tempo. 
Não me tire a razão, não me tire a honra, não me faça estragar tudo só para sentir o vento na cara de novo e a música alta. Berre e assopre em mim enquanto é tempo. 

Eu ainda quero viver para você. Venha agora, ganhe a corrida, passe todo o resto pra trás, é você quem eu continuo eternamente esperando na linha final.

Tati Bernardi 

?amor?

Amor é quando você sabe tintim por tintim as razões que impedem o seu relacionamento de dar certo, é quando você tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, é quando você não tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda não impede de fazê-lo chorar escondido quando ouve uma música careta que lembra os seus 14 anos, quando você acreditava em milagres. Tudo isso pode parecer uma grande dor, mas é uma grande dádiva, porque a existência do amor está toda hora sendo lembrada. Dor é quando a gente está numa relação tão fácil, tão automática, tão prática e funcional que a gente até esquece que também é amor.

Martha Medeiros

terça-feira, 1 de outubro de 2013

.real.


Era uma vez um Coelho de Pelúcia, e no começo ele era realmente esplêndido. Era rechonchudo e felpudo como um coelho deve ser; a pele tinha manchas marrons e brancas, os fios do bigode eram de pura fibra e as orelhas forradas de cetim cor de rosa. Na manhã de Natal, quando ele sentou-se espremido no alto da meia do Menino, com um ramo de azevinho entre as patas, o efeito era gracioso.

Havia outras coisas na meia: nozes, laranjas e um brinquedo a motor, amêndoas de chocolate e um rato de corda, mas o Coelho era sem dúvida o melhor de todos. Por pelo menos duas horas, o Menino o amou e então tios e tias chegaram para o jantar; logo depois, ouviu-se um formidável farfalhar produzido por papel de seda e desembrulho de pacotes e, na agitação de ver todos os presentes, o Coelho de Pelúcia foi esquecido.


Por um longo tempo, ele viveu no armário de brinquedos ou no quarto de crianças e ninguém lhe deu muita atenção. Ele era naturalmente tímido e, por ser de pelúcia, alguns dos brinquedos mais caros o desprezavam. Os brinquedos mecânicos eram bem superiores e a todos olhavam de cima para baixo; eram cheios de ideias modernas e fingiam ser reais. O barco modelo, que havia resistido duas temporadas e perdido a maior parte da sua pintura, notou como falavam e jamais perdeu uma oportunidade de se referir ao seu cordame em termos técnicos. O Coelho não podia ter a pretensão de ser modelo de coisa alguma porque não sabia que coelhos de verdade existiam; imaginou que, como ele, todos os outros eram recheados de serragem, e concluiu que a serragem era completamente ultrapassada e nunca deveria ser mencionada nos círculos modernos. Até Timothy, o leão de madeira articulado, que fora construído por soldados deficientes e deveria ter uma visão mais ampla, gabou-se e fingiu ser aliado dos poderosos. Em meio a todos eles, o pobre Coelhinho se sentiu muito insignificante e banal, e o único que o tratou sempre com gentileza foi o Cavalo de Pele.


O Cavalo de Pele havia vivido por mais tempo que os outros no quarto de crianças. Era tão velho que sua pele marrom não tinha mais pelos nos remendos e mostrava as costuras por baixo, e a maior parte dos cabelos do rabo fora arrancada para formar um colar de contas. Ele era sábio porque tinha visto uma longa sucessão de brinquedos mecânicos chegar se gabando e se vangloriando, e um a um quebrar suas molas e ter seu fim, e ele sabia que eles eram apenas brinquedos e nunca passariam de nada além daquilo. A magia do quarto de crianças é muito rara e maravilhosa, e apenas aqueles brinquedos que são antigos, sábios e experientes como o Cavalo de Pele compreendem isso.


“O que é ser REAL?” perguntou o Coelho um dia, quando eles estavam deitados lado a lado perto do cercado do quarto de crianças, antes de Nana chegar para arrumar o quarto. “Isso significa ter coisas que zunem dentro de você e uma manivela?”


“Real não é de que você é feito.”, disse o Cavalo de Pele. “É uma coisa que lhe acontece. Quando uma criança o ama por muito, muito tempo, não apenas para brincar, mas REALMENTE o ama, então você torna-se REAL.”


“Isso machuca?” Perguntou o Coelho.


“Às vezes,” disse o Cavalo de Pele, pois ele era sempre sincero. “Mas quando você é REAL, não se importa em ser machucado.”


“Isso tudo acontece de uma só vez, como quando alguém lhe dá corda,” ele perguntou, “ou pouco a pouco?”


“Isso não acontece de uma vez,” disse o Cavalo de Pele. “Você se transforma. Demora bastante. É por isso que não acontece àqueles que quebram facilmente, ou tem bordas finas, ou a quem tem que ser cuidadosamente carregado. Geralmente, a partir do momento em que você é Real, a maior parte do seu cabelo foi amorosamente arrancada, e seus olhos caíram e você sente as articulações frouxas e está muito surrado. Mas essas coisas não importam de fato, porque uma vez que você é Real não pode ser feio, exceto para aqueles que não o compreendem.”


“Suponho que você seja real?” disse o Coelho. E então desejou não ter dito aquilo, porque pensou que o Cavalo de Pele talvez fosse muito sensível. Mas o Cavalo de Pele apenas sorriu.


“O tio do Menino me tornou Real,” ele disse. “Isso ocorreu há muitos e muitos anos; mas uma vez que 
você é Real não volta a ser irreal novamente. Isso dura para sempre.”


O Coelho suspirou. Pensou que levaria muito tempo até que essa magia chamada Real ocorresse com ele. Ele desejou ser Real para saber como se sentiria; e, apesar disso, a ideia de ficar surrado e perder seus olhos e bigodes ainda lhe parecia em certa medida triste. Ele teve vontade de se tornar Real sem que todas aquelas coisas desagradáveis acontecessem a ele.


Havia uma pessoa chamada Nana que tomava conta do quarto de crianças. Às vezes, ela não reparava nos brinquedos espalhados, e às vezes, por qualquer motivo, chegava arrastando tudo como um grande vento e os enfiava nos armários. Ela chamava isso de “arrumação” e disso todos os brinquedos tinham raiva, especialmente os de lata. O Coelho não ligava tanto para isso porque onde quer que fosse jogado pousava suavemente.


Numa certa noite, quando ia para a cama, o Menino não achou o cão de porcelana com que sempre dormia. Nana estava afobada, e havia problemas demais para sair à caça de cães de porcelana na hora de se deitar, então ela simplesmente olhou ao redor, e ao perceber o armário de brinquedos aberto, nele fez uma varredura.


“Aqui,” disse ela, “pegue o seu velho Coelho! Ele serve para dormir com você!” E arrastou o Coelho pela orelha, e o atirou nos braços do Menino.


Naquela noite e por várias outras que se seguiram, o Coelho de Pelúcia dormiu na cama do Menino. No início, ele sentiu-se desconfortável porque o Menino o abraçava muito apertado, às vezes rolava por cima dele, e às vezes o empurrava para debaixo do travesseiro de modo que o Coelho mal podia respirar. E ele sentiu saudade também daquelas longas horas de luar no quarto de crianças, quando toda a casa ficava em silêncio, e das suas conversas com o Cavalo de Pele. Mas em pouco tempo passou a gostar daquilo porque o Menino costumava lhe falar, e para ele construía maravilhosos túneis sob as roupas de cama que dizia serem como tocas onde viviam os coelhos reais. E os dois brincavam de esplêndidos jogos juntos, aos sussurros, quando Nana ia embora para a sua ceia e deixava a luz noturna acesa na cornija da lareira. E quando o Menino caía no sono, o Coelho acalentava-se bem perto sob o seu queixo quentinho e sonhava, envolvido pelas mãos do Menino durante a noite inteira.


E assim passava o tempo, e o Coelhinho era muito feliz – tão feliz que nunca se deu conta de como o seu lindo pelo tornava-se cada vez mais surrado, o rabo descosturava-se, e todo o cor de rosa do seu focinho onde o Menino o beijava esmaecia.


A primavera chegou e eles tiveram longos dias no jardim, pois aonde o Menino ia, o Coelho o acompanhava. Ele passeava no carrinho de mão, fazia piqueniques na grama e tinha uma adorável cabana encantada construída para ele embaixo dos pés de framboesa, atrás do canteiro de flores. E uma vez, quando repentinamente o Menino foi chamado para o chá, o Coelho foi deixado na clareira por muito tempo após o anoitecer, e Nana teve de vir e procurá-lo com uma vela porque o Menino não conseguia dormir sem ele. Ele estava molhado pelo orvalho e completamente sujo de terra por mergulhar nas tocas que o Menino fizera para ele no canteiro de flores, e Nana resmungava enquanto o esfregava com a ponta do avental.


“Tinha que ser o seu velho Coelho!” disse ela. “Imagine todo esse rebuliço por um brinquedo!”


“Me dê meu Coelho!” disse ele. “Você não devia falar assim. Ele não é um brinquedo. É REAL!”


Quando o Coelhinho escutou aquilo ficou feliz, pois enfim soube que o Cavalo de Pele estava certo. Havia lhe ocorrido a magia do quarto de crianças, e ele não era mais um brinquedo. Era Real. O próprio Menino dissera isso.


Naquela noite, o Coelhinho estava feliz demais para dormir e seu pequeno coração de serragem quase explodiu de tanto amor. E nos seus olhos de botão de bota, que há muito perdera o brilho, surgiu um olhar de sabedoria e beleza, de tal maneira que até Nana percebeu na manhã seguinte quando o pegou, e disse, “Eu seria capaz de jurar que esse velho Coelho não tinha toda essa expressão de lucidez!”


Aquele era um verão maravilhoso!


Próximo à casa onde eles viviam havia um bosque, e nas longas noites de junho o Menino gostava de ir lá após o chá para brincar. Ele levou o Coelho de Pelúcia consigo e, antes do seu passeio para colher flores ou de brincar de bandido em meio às árvores, sempre preparava para o Coelho um pequeno ninho em algum lugar entre as samambaias, onde este ficaria perfeitamente aconchegado, pois era um menininho de coração generoso e queria que o seu Coelho se sentisse confortável. Numa certa noite, enquanto o Coelho estava deitado ali sozinho, observando as formigas que corriam por um lado e outro das suas patas de pelúcia sobre a grama, ele viu dois seres estranhos rastejando para fora das altas samambaias que existiam naquele local.


Eram coelhos como ele, mas bem peludos e novinhos em folha. Deviam ser muito bem feitos, porque a costura não ficava nem um pouco à mostra, e eles mudavam de formato de maneira fantástica quando se moviam; em um minuto eles eram compridos e magros e no minuto seguinte eram gordos e felpudos, em vez de permanecerem sempre iguais, como ele. Suas patas caminhavam suavemente sobre o chão e eles moviam-se bem perto dele, contraindo seus focinhos, enquanto o Coelho espreitava atentamente para ver qual era o lado aparente do mecanismo à corda, porque ele sabia que as pessoas que pulavam geralmente tinham algo para alçá-las. Mas ele não conseguia ver. Eles eram evidentemente uma nova espécie de coelhos.


Eles o observavam e o Coelhinho os observava de volta. E a todo o momento seus focinhos se contraíam.


“Por que você não se levanta e brinca com a gente?” um deles perguntou.


“Eu não estou com vontade.” disse o Coelho, pois ele não queria explicar que não tinha mecanismo à corda.


“Ei!” disse o coelho peludo. “É fácil demais,” e ele deu um salto de lado e apoiou-se nas patas traseiras.


“Eu não acredito que você consiga!” disse ele.


“Eu consigo!” disse o Coelhinho. “Posso saltar mais alto que qualquer coisa.” Ele quis dizer quando o Menino o arremessava, mas obviamente não queria revelar isso.


“Você pode se apoiar nas patas traseiras?” perguntou o coelho peludo.


Aquela era uma pergunta apavorante, porque o Coelho de Pelúcia não tinha verdadeiramente patas traseiras! A sua parte de trás era feita de uma única peça, como uma almofada. Ele estava ainda sentado nas samambaias e esperou que o outro coelho não percebesse.


“Não estou com vontade!” disse novamente.


Mas os coelhos selvagens tinham olhos astutos. E logo aquele esticou o pescoço e o olhou.


“Ele não tem patas traseiras!” gritou ele. “Imaginem um coelho sem patas traseiras!” E começou a dar gargalhada.


“Eu tenho!” chorou o Coelhinho. “Eu tenho patas traseiras! E estou sentado nelas!”


“Então as estique e me mostre, assim!” disse o coelho selvagem. E começou a rodopiar e dançar, até que o Coelhinho ficasse totalmente zonzo.

“Eu não gosto de dançar,” disse ele. “Eu prefiro ficar quieto!”


Mas durante todo o tempo ele desejou dançar, pois um novo sentimento repentino o penetrou, e ele viu que daria qualquer coisa no mundo para ser capaz de saltar do jeito que faziam aqueles coelhos.


O estranho coelho parou de dançar e chegou bem perto. Ele chegou tão perto dessa vez que seu bigode comprido roçou na orelha do Coelho de Pelúcia, e então ele franziu seu focinho de repente e esticou as orelhas e deu um salto para trás.


“Ele não cheira bem!” exclamou. “Ele não é um coelho de verdade! Ele não é real!”


“Eu sou Real! Foi o que disse o Menino!” E quase começou a chorar.


Só então houve o barulho de passos, e o Menino correu para perto deles e, num lampejo de rabos brancos e vestígios de patas, os dois coelhos desapareceram.


“Voltem e brinquem comigo!” chamou o Coelhinho. “Oh, voltem aqui! Eu sei que sou Real!”


Mas não houve resposta, apenas as pequenas formigas correndo de um lado a outro, e as samambaias balançando delicadamente onde os dois estranhos haviam passado. O Coelho de Pelúcia estava absolutamente só.


“Oh, meu Deus!” pensou ele. “Por que eles fugiram daquela maneira? Por que não podiam ficar e conversar comigo?”


Por muito tempo ele ficou bem quieto, observando as samambaias, e esperando que eles voltassem. Mas não retornaram, e num instante o sol caiu e as pequenas mariposas esvoaçaram, e o Menino veio e o levou para casa.

As semanas se passaram, e o Coelhinho tornou-se bastante velho e surrado, mas o amor do Menino por ele era tão grande quanto antes. Ele o amou com tanta intensidade que amava todos os bigodes arrancados, o forro cor de rosa de suas orelhas que ficou cinza e suas manchas marrons desbotadas. Ele até começou a perder a sua forma, e mal parecia um coelho, exceto para o Menino. Para este, ele sempre foi lindo e isso era tudo o que contava para o Coelhinho. Não ligava para como as outras pessoas o olhavam, porque a magia do quarto de crianças o havia tornado Real, e quando você é Real, ficar gasto não é importante.


E então, um dia, o Menino ficou doente.


Seu rosto ficou bastante avermelhado, ele falou enquanto dormia e o seu corpinho ficou tão quente que queimou o Coelho quando o abraçou bem de perto.


Pessoas estranhas chegaram e entraram no quarto de crianças. Uma luz ficou acesa durante toda a noite e, enquanto isso, o Coelhinho de Pelúcia ficou lá, sem que ninguém o notasse sob as roupas de cama; ele de forma alguma se moveu, porque tinha medo que alguém o encontrasse e o levasse embora, e ele sabia que o Menino precisava dele.


Aquele era um longo período enfadonho, porque o Menino estava doente demais para brincar e o Coelhinho sentia-se um tanto entediado sem ter nada que fazer o dia inteiro. Mas ele se aninhou pacientemente, e aguardou até a hora em que o Menino estivesse bem novamente; eles poderiam sair no jardim entre as flores e as borboletas e brincariam de jogos esplêndidos nos arbustos de framboesa como faziam. Todos os tipos de coisas fascinantes ele planejou, e rastejou para perto do travesseiro onde as sussurrou no ouvido do Menino enquanto este repousava meio sonolento. Logo a febre passou e o Menino melhorou. Ele era capaz de sentar-se na cama e olhar o livro ilustrado, enquanto o Coelhinho aconchegava-se próximo a ele. E um dia, eles o deixaram se levantar e se arrumar.


Era uma iluminada manhã de sol e as janelas estavam bem abertas. Eles levaram o Menino para fora na varanda, envolvido num xale, e o Coelhinho ficou enrolado entre os lençóis, pensativo.


O Menino iria à praia no dia seguinte. Tudo estava combinado e agora só restava seguir as ordens médicas. Eles falaram sobre tudo, enquanto o Coelhinho estava deitado sob a roupa de cama, apenas espreitando com a cabeça, e foi quando escutou. A sala estava para ser desinfetada e todos os livros e brinquedos com que o Menino tinha brincado deveriam ser queimados.


“Oba!” pensou o Coelhinho. “Amanhã devemos ir à praia!” Pois o Menino várias vezes falara da praia, e ele queria muito ver as ondas enormes se aproximando, os caranguejos miúdos e os castelos de areia.


Só então Nana o avistou.


“E o velho Coelho dele?” perguntou ela.


“Aquele?” disse o médico. “Ora, é uma massa de germes de escarlatina – Queime-o imediatamente. O quê? Não faz sentido! Dê-lhe um novo. Ele não pode mais ter aquele!”


E então o Coelhinho foi colocado em um saco com livros ilustrados velhos e um monte de lixo, e levado aos fundos do jardim atrás do galinheiro. Era um bom lugar para fazer uma fogueira, só que naquele momento o jardineiro estava bastante ocupado para cuidar disso. Ele tinha as batatas para desenterrar e as ervilhas para colher, mas prometeu chegar cedo na manhã seguinte e queimar todo o terreno.


Naquela noite, o Menino dormiu num quarto diferente, e teve um novo coelho para dormir com ele. Era um coelho esplêndido, todo de pelúcia branca com olhos de vidro de verdade, mas o Menino estava excitado demais para reparar nisso. Pois no outro dia iria à praia, e isso por si só era algo tão maravilhoso que não o deixava pensar em mais nada.


E enquanto o Menino estava dormindo, sonhando com a praia, o Coelhinho estava entre os livros ilustrados velhos num canto atrás do galinheiro, e ele sentiu-se muito só. O saco foi deixado desamarrado e, ao se contorcer um pouco, ele foi capaz de enfiar a cabeça pela abertura e olhar para fora. Tremia um pouco, porque se acostumara a dormir numa cama apropriada, e dessa vez seu pêlo tinha se tornado tão fino e puído pelos abraços que não o protegia mais. Ali perto, ele podia ver os arbustos de framboesa, crescendo altos e espessos como uma floresta tropical, em cujas sombras ele brincou com o Menino em manhãs passadas. Ele pensou naquelas horas ensolaradas no jardim – como eram felizes – e uma imensa tristeza tomou conta dele. Ele pareceu vê-las todas passarem por ele, cada uma mais linda que a outra, as cabanas encantadas no canteiro, as noites calmas no bosque quando ele deitava em samambaias e as formiguinhas corriam sobre suas patas, o dia maravilhoso quando ele soube pela primeira vez que era Real. Ele pensou no Cavalo de Pele, tão sábio e gentil, e em tudo o que ele lhe dissera. De que valia ser amado, perder a beleza e tornar-se Real se tudo terminava daquele jeito? E uma lágrima, uma lágrima real, escorreu pelo seu focinho de pelúcia surrada e caiu no chão.

E então algo estranho aconteceu. Pois, onde a lágrima caiu, cresceu uma flor, uma misteriosa flor, não exatamente como as que nasciam no jardim. Tinha pequenas folhas verdes cor de esmeralda, e no meio das folhas uma flor parecida com um cálice dourado. Era tão bonita que o Coelhinho se esqueceu de chorar e ficou somente ali a admirando. E logo a flor desabrochou e dela saiu uma fada.


Ela era a fada mais adorável em todo o mundo. Seu vestido era de pérola e gotas de orvalho, tinha flores ao redor do pescoço e do cabelo e seu rosto era como a flor mais perfeita de todas. E ela aproximou-se do Coelhinho e o acolheu em seus braços, e deu um beijo no seu focinho de pelúcia que estava todo molhado de tanto chorar.


“Coelhinho,” ela disse, “não sabe quem eu sou?”


O Coelho a olhou e lhe pareceu que ele já havia visto antes o rosto dela, mas não conseguia se lembrar de onde. “Eu sou a Fada Mágica do quarto de crianças,” disse ela, “Eu tomo conta de todos os brinquedos amados pelas crianças. Quando eles estão velhos e bastante usados, e as crianças não precisam mais deles, então eu venho e os levo embora comigo e os torno Reais.”


“Antes eu não era Real?” perguntou o Coelhinho.


“Você era Real para o Menino,” disse a Fada, “porque ele o amou. Agora você deve ser Real para todos.”


E ela segurou o Coelhinho em seus braços e voou com ele por dentro do bosque.


Havia luz naquela hora porque a lua se erguera. Todo o bosque estava bonito, e as folhagens das samambaias cintilavam como prata congelada. Na clareira aberta entre os troncos de árvores, os coelhos selvagens dançavam com suas sombras na grama aveludada, mas quando viram a Fada todos pararam de dançar e ficaram em círculo para olhá-la atentamente.


“Eu trouxe-lhes um novo companheiro para brincar.” Disse a Fada. “Vocês devem tratá-lo com gentileza e ensinar-lhe tudo que ele deve saber na terra dos Coelhos, porque ele viverá com vocês para sempre!”


E beijou o Coelhinho novamente e o colocou na grama.


“Corra e brinque, Coelhinho!” ela disse.



Mas o Coelhinho continuou completamente imóvel por um instante e de forma alguma se mexeu. Pois, quando ele viu os coelhos selvagens dançando ao seu redor, de repente lembrou-se das suas patas traseiras, e não quis que eles notassem que ele era feito todo de uma única peça. Ele não sabia que quando a Fada o beijou pela última vez, ela o transformou plenamente. E ele podia ficar lá sentado por muito tempo, tímido demais para se mover, se algo não tivesse roçado o seu focinho e o levado a coçá-lo com a pata traseira, antes que pudesse pensar no que fazer.


E ele viu que realmente tinha patas traseiras! Em lugar da pelúcia desbotada, havia um pelo marrom, macio e brilhoso, suas orelhas contraíam-se sozinhas e seus bigodes eram tão compridos que tocavam a grama. Ele deu uma pirueta e a alegria de usar aquelas patas traseiras era tamanha que ele foi com os outros saltitando na grama, dando pulos de lado e rodopios como os demais faziam, e ficou tão animado que, quando enfim parou para olhar a Fada, ela havia partido.


Ele afinal era um Coelho Real, em casa com outros coelhos.


Outono e inverno se passaram, e na primavera, quando os dias eram quentes e ensolarados, o Menino saiu para brincar no bosque atrás da casa. E enquanto brincava, dois coelhos rastejaram para fora das samambaias e o espiaram. Um deles era todo marrom, mas o outro tinha marcas estranhas sob o pelo, como se há muito tivesse sido manchado, e ainda conservasse as manchas. E havia algo naquele focinho macio e nos olhos pretos redondos que lhe era familiar, de modo que o Menino pensou consigo:


“Nossa, ele é igual ao meu velho Coelho que se perdeu quando eu tive escarlatina!”


Mas ele jamais soube que aquele era de fato o seu próprio Coelho, voltando para ver a criança que, antes de tudo, o ajudara a se tornar Real.

Margery Williams

Tradução: Vladimir de Araújo A. Melo

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