quarta-feira, 23 de outubro de 2013

.fios, lagartas e porquês.

Era apenas uma criança. Mais uma, aliás, com tantos porquês em mente. Papai já se preocupava com os fios de cabelo sem pigmento que estavam por nascer, e, dia vai, dia vem, o seu trabalho mais duro era encontrar - quando não se via na obrigação de inventar - respostas rápidas para as minhas perguntas. Não que elas precisassem ser convincentes, até porque eu tinha uma meia dúzia de anos ainda, mas as minhas dúvidas sobre essa esfera que insiste em rodar deixavam -no intrigado.
 
Eu perguntei porque as borboletas nasciam lagartas, e ele respondeu-me que aquela era a maior lição de vida para se tomar como exemplo. Sabe, o inseto que nasce feio e gorducho para depois ganhar cores e asas, transformando-se em algo novo e admirável. Foi aí que eu perguntei porque elas precisavam transformar-se. Quer dizer, lagartas podem não ser as mais lindas das criaturas, porém, para mim, elas não podiam ser vistas como 'o patinho feio'. O cara ao meu lado apontou para os seus cabelos negros, certo de que um bocado de fios brancos se encontravam ali. Ele disse que toda e qualquer coisa do universo evoluía, transformando-se com o tempo. Não satisfeito, soltei rapidamente mais de meus questionamentos: Então um dia eu irei ter asas, papai? Assim como as borboletas? O homem permaneceu quieto, pego de surpresa. E, pela primeira vez, sem uma resposta rápida. Percebi em seu olhar que algo estava errado, mas antes que eu voltasse a perguntar, abri os braços e corri em círculos, rindo alto ao imaginar que voava.
 
Agora eu sei que papai não quis acabar com o meu sonho. Eu nunca teria um par de asas, e isso acabei descobrindo por conta própria. Mas ele nunca soube que eu não precisava disso para voar. Peter Pan não precisou. Passei muito tempo indo para o infinito sem o auxílio delas. Porém, assim como ele disse, todas as coisas evoluem. E a cada noite eu peço, em silêncio, para que ocorra logo a minha transformação. No fim, somos todos pequenas lagartas.

Pedro Guerra

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