quinta-feira, 27 de novembro de 2014

black lives matter


"4 HOURS AND 32 MINUTES

This is how long Michael Brown's body lay in the middle of a Fergunson street before someone came for him. Today we are standing in silence for 40 minutes & 32 secunds in prayer and solidarity for Fergunon, for the Brown Famile, and for the Black Community. 

We stand because All Lives Matter.

We stand because Black Lives Matter."


4 HORAS E 32 MINUTOS

Esse foi o tempo que o corpo de Michael Brown ficou caído do meio de uma rua de Fergunson antes que alguém viesse lhe ajudar. Hoje nós ficamos em silêncio por 40 minutos e 32 segundos em oração e solidariedade por Fergunson, pela família Brown e pela Comunidade Negra.

Nós ficamos porque Todas as Vidas Importam.

Nós ficamos porque a Vida Negra Importa. 


Encontrei esse panfleto ontem, dia 26.11, colado no chão, em frente a biblioteca de um dos campi da Universidade da Califórnia, no campus de San Diego (UCSD). Tentei fazer uma tradução. É absurdo que o óbvio precise ser repetido, mas tristemente, ainda é necessário. Todas as vidas são  igualmente importantes. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

domingo, 16 de novembro de 2014

o medo

Não quero chamar seu futuro feito de heroico. No sentido "guiness" da palavra, pois sei que não é isso que esse seu coração procura. Mas fico aqui com meus botões, pensando, o quanto frio, quanta solidão você vai passar, quanto medo. Medo, meu irmão, a gente passa por isso. (Grande parêntese: Quem diz que não tem medo é tão micho, tão pobre de espírito, que nem vou perder meu tempo em considerações a respeito. O medo é real, existe e tem a pentelha qualidade de estar presente. Tirando o Super Man, que é de Cripton, nós humanos passamos, sentimos, sofremos o medo. É inevitável! Acho eu que o grande "corajoso" é aquele que tem plena consciência de seu medo, e, sendo esperto, sabe administrá-lo. A grande nobreza do espírito, nesse pormenor, é ser consciente e bom administrador. Só que no nosso caso, marinheiros que somos, a fraqueza, o vacilo, não nos são permitidos. Vacilar é sinônimo de morte, de fim. Ter medo, sim, é humano! Vacilar, pestanejar, ser ineficiente na marinharia, a nós, não nos é permitido. Nós marinheiros temos só uma opção, se quisermos chegar, sermos eficientes, próximos do perfeito, fora disso nada nos resta. Ah! meu marinheiro  Amir, tenho tanta certeza da sua eficiência. Lhe julgo tão marinheiro. Sei dos escorregões que você vai dar, das inseguranças, das dúvidas, mas sei, com absoluta certeza, que você "naturalmente" vai se dar bem. Acho tanto de você, que seu feito, feito por você, é mera obrigação de ser sucesso. O mínimo que espero, e sei, é você ter sucesso, humildemente, não contando os "impossíveis" obstáculos que você, só você, venceu. 

Fechou aqui o parêntese, pois até me perdi nele. Ele, o parêntese, era só pra dizer que medo é inevitável e que só quem sabe de si sabe vencê-lo Os fracos morrem! Fica aqui combinada uma festa na "zona", no seu centésimo aniversário.)


Carta de Hélio / Vagabundo para Amir / Paratii.

barcos meus

Porque barcos são seres imprevisíveis que as vezes gostam de inventar problemas ou mudar o rumo sem muitas explicações.

Amyr Klink

sábado, 8 de novembro de 2014

lágrima

um passarinho
volta pra árvore
que não mais existe

meu pensamento
voa até você
só pra ficar triste

Paulo Leminski

terça-feira, 4 de novembro de 2014

para ler navegando

Faça tudo, busque o impossível,
Mas, meu amigo,
Respeite o mar.
O sábio marinheiro sabe que
Ele jamais venceu uma tormenta,
Apenas e tão-somente apenas,
Foi o mar que deixou
Ele passar.


Carta de Hélio / Vagabundo para Amir / Paratii

terça-feira, 28 de outubro de 2014

atravessei a cortina.



"Tornando-se real. Uma reflexão de si mesmo do pássaro Pega."

Um cantor de uma boa banda tem uma mente bonita. Tem também uma bonita tatuagem no peito, no coração: real
Por que real? O que real?
Descobri que vinha de uma - também muito - bonita história infantil, escrita em 1922 por Margery Williams, "Velveteen Rabbit or How The Toys Become Real".
Li.
A história fala sobre um coelho de pelúcia que torna-se real. Quis ser real.
Trouxe o real como significante na minha vida. Juntei ao balão, ao barco. Por que não uma também futura tatuagem? Quis e incorporei, real.
Trouxe para mim o real, para o comum. 
Vivi normalmente (desvivendo).
Depois de três meses na terapia, voltei a me buscar. 
Escrevi sobre. No período de uma semana me senti real (chamei, completa) duas vezes.
No dia seguinte, por nós conflituosos da vida, me vejo na barca de Niterói para a cidade do Rio de Janeiro. Lá, novamente, me senti real
Com tal sentimento, em minutos me vi no centro cultural, CCBB. Encantada. Corri de uma exposição de ouro para uma escadaria com Paulo Leminski.
Andei ao centro.
Foi quando minha simpática acompanhante desejou um café. Fez o convite. Recusei. E partiu.
Já estava naquele momento tão atraída por uma cortina que café nenhum interessava, 
Atravessei a cortina e encontrei.
Segredos atrás de pequenas cortinas. 
Egoísmo, alegria, medo, juras e desejo de morte. 
Começou com "o que vemos". Que frase.
Caras distorcidas, bilhetes e quadros que pediam meus segredos. Qual deles? escrevi? Escrevi Perpétuer. Escrevi um machucado.
Rodei. Vi um pássaro.
Vi um quadro que indiretamente e atrevidamente perguntava: quem é você?
Se descubra. Se identifique. Se represente. (papel quadrado, caneta preta)
?
Isso eu já sabia.
balão sem fogo? coloquei (até) um ponto, o fogo.
barquinho na água, deus dará.
um flash.
Perpétuer.
real.
Deixei de lado, escutei uma voz. 
 - Então já leu sobre o Pega?
 "Hã?"
 - O Pega, já leu?
E rapidamente respondi àquele vulto que não. (virei)
 - Não sei o que escrever.
 "Hm." Roboticamente desleixada, pateticamente desligada. Dentro. Ligada.
 - E o que é Perpétuer?
 "Como?" (Como?)
 - Você escreveu no quadro, Perpétuer.
 "Ah. Meu blog, complicado." 
 - Verei. (virei)
Sorriso tímido.
Hora de partir. Continuei a ir. Vi o pássaro. Vi o livro. Me chamou. Reneguei.
 - Leva o livro. (reneguei)
 "Hã?" (hã?)
 - Leva o livro? (reneguei)
 "Pode?"
 - Pode, leva. 
 "Tá."
Sorriso tímido. 
Saí.
Encontrei minha simpática acompanhante me esperando. 
Levei, guardei.
Abro hoje.
Leio o livro de Anthony Marcellini sobre o pássaro Pega, o pássaro que se reconhece real.
Leio sobre a primeira inspiração. "Velveteen Rabbit or How The Toys Become Real". 
Tremi.
Me torno real. (destorno)

L.L.

Perpétuer

28/10/2014 
  

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

te cuida

A gente sai de casa para ir numa festa ou para pegar a estrada, e antes que a porta atrás de nós se feche, ouvimos a voz deles, pai e mãe: te cuida. A recomendação sai no automático: tchau, te cuida. Um lembrete amoroso: te cuida, meu filho. A vida anda violenta, mas a gente não dá a mínima para este "te cuida" que a gente ouve desde o primeiro passeio do colégio, desde o primeiro banho de piscina na casa de amigos, desde a primeira vez que saímos a pé sozinhos. Pai e mãe são os reis do "te cuida", e a gente mal registra, tão acostumados estamos com estes que não fazem outra coisa a não ser querer nosso bem e nos amar para todo sempre, amém.

No entanto, lembro da primeira vez em que estava apaixonada, me despedindo dentro do carro, entre beijos mais do que bons, com aquele que devia ser um moleque mas para mim era um homem, e um homem estranho, uma vez que não era pai, irmão, primo, amigo ou colega. Depois do último beijo, abri a porta do carro e, antes de sair, ouvi ele dizer com uma voz grave e sedutora: te cuida.

Me cuidarei, pode deixar. Me cuidarei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Me cuidarei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.

Me cuidarei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Me cuidarei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não pode cuidar de mim.

Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me viu hoje. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me ama e não agüentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir.

Te cuida, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um te amo.

Meses depois, terminado o namoro sem beijos de despedida, saio do carro trancando o choro, ainda que o rompimento tenha sido resolvido de comum acordo. Abro a porta e já estou com uma perna pra fora quando ouço, sem nenhuma aflição por mim, apenas consciência de que não teríamos mais notícias um do outro: te cuida. Me cuidei. Só chorei quando já estava dentro do elevador.

Martha Medeiros

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

o velho e o mar


Lança o barco contra o mar
Venha o vento que houver
E se
Virar
Nada
Pega a mala que couber
Roda a estrada sem saber
E se
Perder
Calma
Beija a boca da mulher
Tira a roupa sem pedir
E se
Sorrir
Fica
Bebe o copo que encher
Diz pro amigo que é irmão
O que
Nem tem
Palavra
Lança o barco contra o mar
Venha o vento que houver
E se
Puder
Voa

Rubel

domingo, 19 de outubro de 2014

.deixei atrás os erros do que fui.

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

Fernando Pessoa

sábado, 20 de setembro de 2014

9.

acenda um fósforo em mim, não queima
perfure com uma faca, não jorra
cuspa na minha cara, não escorre
quase nada me traz consequência
não há aderência em gente que teima

Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e Outros Poemas

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

a tristeza em pé

Tem sempre aquela pessoa que vai te falar: mas você tem as duas pernas, garota! Tem também as variações das duas pernas: os pais vivos, pelo menos dois paus na conta bancária, dois olhos perfeitos, dois ouvidos sem defeitos, essas coisas.

No Brasil não tem terremotos. Pelo menos não em São Paulo. Pelo menos não em Perdizes. Tem buracos que engolem pessoas perto da Ed. Abril e tem aviões que matam duas centenas de pessoas. Mas eu não tive nenhum conhecido, amigo ou parente que tenha morrido em nenhum desses acidentes.

Se você me vir por aí, buscando um pão quente ali na padoca da esquina ou comprando uma pacotinho de absorvente na farmácia do outro lado da rua, certamente pensaria: lá vai uma garota com as duas pernas, os dois olhos, os dois ouvidos, pelo menos uns dois paus na conta bancária, os pais vivos e nenhuma catástrofe significativa pesando em seus dois ombros perfeitos. Ou não pensaria nada porque nada em mim grita. Não tenho motivos para gritar.

Lá vai mais uma garota de pé. Sem motivos óbvios ou convincentes para se contorcer de dor por aí. Ou sem nenhuma justificativa para se encolher, desistir, correr de quatro, se esconder em cantos, colar a testa na parede e querer que o mundo vire para o lado até as paredes virarem chãos. Eu sou só uma garota com a vida boa e, por isso, uma garota que segue a vida em pé. Seria até um pecado não dar valor a vida, não é mesmo? Com tanta gente pior por aí, não é mesmo? Seria um pecado não ser absolutamente feliz. E sorrir o tempo todo. E seguir a vida em pé.

E hoje tava o maior sol. E sol me deixa triste. Porque o sol sempre quer dizer que a vida só está uma merda por culpa sua. Afinal, a parte dele, ele ta fazendo. Lá no céu, iluminando tudo, deixando tudo dourado. A culpa do seu dia estar um verdadeiro lixo é única e exclusivamente sua, porque o dia só quis ajudar. E a vida poderia estar realmente maravilhosa.

Poderia se ao invés de estar nesse parque nojento com meninas barrigudas correndo e gritado “o peixe ta morrido, o peixe ta morrido” eu estivesse numa praia deserta tomando água de côco com um tipo inteligente, bom de cama e apaixonado. Mas praias desertas são como esse tipo inteligente, bom de cama e apaixonado. Logo enchem.

Depois eu voltei do supermercado cheia de sacolas e umas das sacolas, muito pesada, fez um vergão no meu braço. E o que isso tem de triste? Sei lá, mas eu fiquei triste pra cacete. E o gordo do meu prédio que deixa a esteira completamente melada de suor me deprime demais, demais. E a tia com pernas de frango assado que divide a vaga do estacionamento comigo, e tem uma bosta de um Ka roxo sempre sem gasolina, me deprime mais ainda. E o prédio de trás, com seus pagodes dominicais? Me deprime tanto que eu gostaria que assassinato não desse cadeia. Eu gostaria de explodir todos eles. E depois dormir em paz. Mas eu não durmo em paz nunca, mesmo quando estou dormindo em paz. Eu acordo e penso “olha, estou dormindo em paz”. Isso definitivamente não é dormir em paz! E quando vou ver, lá estou eu mais uma vez, dobrando esquinas, cruzando ruas, fazendo curvas, dando setas, entrando em lugares, me despedindo, saindo do banho, dando a descarga, abrindo a geladeira, mudando o canal. Sempre de pé. Absolutamente triste e de pé. Eu e minha tristeza em pé.

E então minha mãe me conta da sua dor ou doença da semana. E me faz uma lista de todas as pessoas que podem ser responsáveis por sua morte anunciada há mil anos. O chefe arrogante, a empregada burra, o vizinho barulhento, a telemarketing robótica, o moço da feira, a menina da unha. E eu quero matar todo mundo. Mas eu sei que já estive nessa lista vez ou outra. E então eu também quero me matar. E meu pai me fala o quanto acredita que a vida é uma grande merda. E que ele espera a hora que a vida acabe. E então minha mãe faz pipoca doce e meu pai parcela mais um aparato eletrônico em doze vezes. E eles já não sofrem mais e não culpam ninguém. E eu também já não sofro mais e nem me culpo. E tudo passa por um tempo e vamos sorrir, vamos ao cinema, vamos dormir depois do almoço do domingo. E daqui uns dias vamos caminhar por aí, com a nossa dor sem motivos. E, principalmente por isso, uma dor filha da puta. E vamos em frente. Eretos com nossa tristeza. Porque a alegria sempre carrega essa certeza de que a alegria é falsa. E a tristeza sempre volta, ainda mais em pé que a gente. Sobre a nossa cabeça. Tirando sarro da nossa ilusão.

E o único jeito de ser mais malandro que a tristeza é sendo cínico. E lá vai a garota. Comprar pão quente com seu cinismo. Comprar absorvente com seu cinismo. Amar com seu cinismo. Porque só o cinismo vence a tristeza. Porque só o cinismo é mais triste do que a tristeza.

E eu virei um muro alto feito de pedras cheias de pontas. Tudo isso só porque eu quero tanto um pouco de carinho que acabei ficando com medo de não ganhar. E coitada da moça da padaria e do moço da farmácia. Porque lá vai uma garota trator. Sempre de pé, carregando seu corpo sempre no chão. Sempre com pressa, pressa de acabar logo com tudo. Para poder deitar um pouco. Para poder dividir a tristeza com a gravidade. Para parar de fingir que tudo bem andar por aí carregando essa merda dessa tristeza. Sempre de pé. Afinal, seria um pecado não ser absolutamente feliz, com tanta gente pior por aí, não é mesmo?

Eu não consigo simplesmente deixar morrer e nascer de novo. Porque todos os dias eu nasço de novo, com a esperança que a tristeza fique na outra vida. Mas a tristeza nasce comigo. E nós saímos para trabalhar, comprar pão ou sonhar em explodir o prédio do pagode. Sempre de pé. Somos dois animais de pé. Um ao lado do outro. Dentro do outro. Em cima do outro. Mas sempre juntos. Mesmo quando a alegria ocupa todos os espaços. Ainda assim a tristeza está lá, disfarçada de alegria. E a ausência da tristeza é apenas uma linha de trem. Anunciando que o trem existe, só saiu por um tempo. Daqui a pouco ele volta, maquinando, bufando e atropelando minha cabeça. E o trem corre deitado, mas eu sigo em pé. Afinal, seria um absurdo uma menina com uma vida tão boa não seguir assim.

E nunca ninguém desceu do morro em bando para me matar. Mas eu sinto a morte me sufocando quando vou da Barra para a Zona Sul. E nunca ninguém botou uma arma na minha boca no farol da Henrique Schaumann. Mas eu sinto um gosto de pólvora misturado a lanche de restos mortos quando passo em frente ao Big X Picanha. E nunca ninguém me odiou ao ponto de me matar, mas eu me sinto morta todas as vezes que alguém deixa de me amar. E eu não estava naquele avião e nem naquele buraco. E nem tem terremotos na minha cidade. Mas nem por isso eu me sinto voando. Mas nem por isso eu deixo de sentir a terra em cima da minha cabeça. Tudo a minha volta treme e chacoalha mais que aquele brinquedo Samba no parquinho. De quando eu era criança e tinha medo de vomitar. E eu não comi nada estragado e nem estou ajoelhada no bidê. Eu nem tenho bidê. Mas sinto a eminência de uma ânsia podre e de joelhos o tempo todo. E definitivamente a minha vida não é uma merda. Mas a verdade é que eu sinto o cheiro da bosta mesmo assim.

E eu continuo andando por aí, em pé com minha tristeza. Mas minha sombra está de lado, deitada no chão. Talvez porque assim esteja minha alma. Talvez porque isso seja viver, para quem é de verdade, para quem pensa um pouco, para quem sente um pouco, para quem lê jornal de manhã. Talvez apenas porque é meio dia.

Tati Bernardi

sábado, 6 de setembro de 2014

trova

Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

Mário Quintana

domingo, 31 de agosto de 2014

sem amor, só a loucura

Hoje te conto. E lembro daquela história zen, o rei que pediu ao monge um talismã que o protegesse de qualquer mal. O monge deu ao rei um anel, com a recomendação de abri-lo só em caso de extremo perigo. Um dia, o castelo foi cercado pelos inimigos, e o rei encurralado numa torre. Ele abriu o anel. Dentro, havia um papelzinho dobrado. Ele abriu o papelzinho e leu uma frase assim: Isto também passará.


Caio Fernando

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

tentação.

(para ouvir.)

     Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. 
   Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
   Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
   Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
   A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
    Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
    Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
   Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
   No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
   Mas ambos eram comprometidos.
   Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
   A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
   Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

                                                                                                           
                                                                                                          Clarice Lispector

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

balada do enterrado vivo.

Na mais medonha das trevas
Acabei de despertar
Soterrado sob um túmulo.
De nada chego a lembrar
Sinto meu corpo pesar
Como se fosse de chumbo.
Não posso me levantar
Debalde tentei clamar
Aos habitantes do mundo.
Tenho um minuto de vida
Em breve estará perdida
Quando eu quiser respirar.
Meu caixão me prende os braços.
Enorme, a tampa fechada
Roça-me quase a cabeça.
Se ao menos a escuridão
Não estivesse tão espessa!
Se eu conseguisse fincar
Os joelhos nessa tampa
E os sete palmos de terra
Do fundo à campa rasgar!
Se um som eu chegasse a ouvir
No oco deste caixão
Que não fosse esse soturno
Bater do meu coração!
Se eu conseguisse esticar
Os braços num repelão
Inda rasgassem-me a carne 

 Os ossos que restarão! 

Se eu pudesse me virar
As omoplatas romper
Na fúria de uma evasão
Ou se eu pudesse sorrir
Ou de ódio me estrangular
E de outra morte morrer!
 
 
Mas só me resta esperar
Suster a respiração
Sentindo o sangue subir-me
Como a lava de um vulcão
Enquanto a terra me esmaga
O caixão me oprime os membros
A gravata me asfixia
E um lenço me cerra os dentes!
Não há como me mover
E este lenço desatar
Não há como desmanchar
O laço que os pés me prende!
Bate, bate, mão aflita
No fundo deste caixão
Marca a angústia dos segundos
Que sem ar se extinguirão!
Lutai, pés espavoridos
Presos num nó de cordão
Que acima, os homens passando
Não ouvem vossa aflição!
Raspa, cara enlouquecida
Contra a lenha da prisão
Pesando sobre teus olhos
Há sete palmos de chão!
Corre mente desvairada
Sem consolo e sem perdão 
 
Que nem a prece te ocorre 
À louca imaginação!
 

Busca o ar que se te finda
Na caverna do pulmão
O pouco que tens ainda
Te há de erguer na convulsão
Que romperá teu sepulcro
E os sete palmos de chão:
Não te restassem por cima
Setecentos de amplidão!

Vinicius de Moraes

sábado, 23 de agosto de 2014

o segredo.


Desde a pré-história eu havia começado a minha marcha pelo deserto, e sem estrela para me guiar, só a perdição me guiando, só o descaminho me guiando - até que, quase morta pelo êxtase do cansaço, iluminada de paixão, eu enfim encontrara o escrínio. E no escrínio, a faiscar de glória, o segredo escondido. O segredo mais remoto do mundo, opaco mas me cegando com a irradiação de sua existência simples, ali faiscando em glória que me doía nos olhos. Dentro do escrínio o segredo: um pedaço de coisa. 
Um pedaço de ferro, uma antena de barata, uma caliça de parede. 
Minha exaustão se prostrava aos pés do pedaço de coisa, adorando infernalmente. O segredo da força era a força, o segredo do amor era o amor – e a jóia do mundo é um pedaço opaco de coisa.
O opaco me reverberava nos olhos. O segredo de minha trajetória milenar de orgia e moete e glória e sede até eu finalmente encontrar o que eu sempre tivera, e para isso tinha precisado morrer antes. Ah, estão sendo tão direta que chego a parecer simbólica. 

Clarice Lispector

.inatingível.


O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância.
Um pássaro no alto planou voo
E mergulhou no espaço.
Eu segui porque tinha que seguir
Com as mãos na boca, em concha
Gritando para o infinito a minha dúvida.

Mas a noite espiava a minha dúvida
E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam
Na esperança da aurora.
Eu continuo à beira do caminho
Vendo a luz do infinito
Que responde ao peregrino a imensa dúvida.

Eu estou moribundo à beira do caminho.
O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.
Morrerei gritando a minha ânsia
Clamando a crueldade do infinito
E os pássaros cantarão quando o dia chegar
E eu já hei de estar morto à beira do caminho.

Vinicius de Moraes

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

pateticamente.

Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali.

Charles Bukowski. 

.ou um chá!

Sinto-me terrivelmente vazio. Há pouco estive chorando, sem saber exatamente por quê. Ás vezes odeio esta vida, estas paredes, essas caminhadas de casa para a aula, da aula para casa, esses diálogos vazios, odeio até este diário, que não existiria se eu não me sentisse tão só. O que eu queria era alguém que me recolhesse como um menino desorientado numa noite de tempestade, me colocasse numa cama quente e fofa, me desse um chá de laranjeira e me contasse uma história. Uma história longa sobre um menino só e triste que achou, uma vez, durante uma noite de tempestade, alguém que cuidasse dele.

Limite Branco - Caio Fernando

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pra machucar corações: Mês do Desgosto.

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

Caio Fernando Abreu 


terça-feira, 15 de julho de 2014

no centro do furacão.


Vórtice, voragem, vertigem:
 qualquer abismo nas estrelas de papel brilhante no teto.

Queria tanto poder usar a palavra voragem. Poder não, não quero poder nenhum, queria saber. Saber não, não quero saber nada, queria conseguir. Conseguir também não - sem esforço, é como eu queria. Queria sentir, tão dentro, tão fundo que quando ela, a palavra, viesse à tona, desviaria da razão evitaria o intelecto para corromper o ar com seu som perverso. A-racional, abismal. Não me basta escrevê-la - que estou escrevendo agora e sou capaz de encher pilhas de papel repetindo voragem voragem voragem voragem voragem voragem voragem sete vezes ao infinito até perder o sentido e nada mais significar - não é dessa forma que eu a desejo. Ah essa palavra de desgrenhados cabelos, enormes olhos e trêmulas mãos. Melodramática palavra, de voz rouca igual à daquelas mulheres que, como dizia John Fante, só a adquirem depois de muitos conhaques e muitos cigarros. Eu quero sê-la, voragem.

Espio no dicionário seu significado oficial, tentativa inútil de exorcizar o encantamento maligno. O que leio, inquieta ainda mais: "Aquilo que sorve ou devora". E vejo um redemoinho lamacento de areias movediças à superfície do qual uma única mão se crispa. Vórtice, penso, numa vertigem. Repito, hipnotizado: vertigem, vórtice, voragem. "Qualquer abismo" - continuo a ler. Os abismos de rosas, os abismos de urzes, e aqueles abismos à beira do qual duas crianças correm perigo, protegidas pelas asas do Anjo da Guarda. Os abismos de estrelas falsas no falso céu do teto do meu quarto, os abismos de beijos e desejos, o abismo onde se detém o rei daquela história zen para abrir o anel que lhe deu o monge, onde está guardado o condão capaz de salvá-lo - e o condão é a frase: "isto também passará". Sim, leio então: "Tudo que subverte ou consome" - paixões, ideologias, ódios, feitiçarias, vocações, ilusões, morte e vida. Essas outras palavras de maiúsculas implícitas - vorazes, voragem -, abismais.

Eu estava lá, no centro do furacão. E repito as palavras que são e não são minhas enquanto o porteiro do edifício em frente toca violão e canta, e a chuva desaba outra vez, e peço: por favor, me socorre, me socorre que hoje estou sentido e português, lusitano e melancólico. Me ajuda que hoje eu tenho certeza absoluta que já fui Pessoa ou Virgínia Woolf em outras vidas, e filosofo em tupi-guarani, enganado pelos búzios, pelas cartas, pelos astros, pelas fadas. Me puxa para fora deste túnel, me mostra p caminho para baixo da quaresmeira em flor que eu quero encostar em seu tronco o lótus de mil pétalas do topo da minha cabeça tonta para sair de mim e respirar aliviado de por um instante não ser mais eu, que hoje não me suporto nem me perdôo de ser como sou e não ter solução. Me ajuda, peço, quando Excalibur afunda sem volta no lago.

Ela se debruça sobre mim, me beija com sua grande boca vermelha movediça. Tenho medo mas abro minha boca para me perder.

Ela repete baixinho em meus ouvidos nomes cheios de sangue - Galizia, Ana Cristina, Júlio Barroso - enquanto contemplo o céu no teto do meu quarto, girando intergaláctico em direção a ER-8, a estrela de 10 bilhões de anos, o cadáver insepulto para sempre da estrela perdida nos confins do Universo. Choro sozinho no escuro, você não enxuga as minhas lágrimas. Você não quer ver a minha infância. Solto nesse abismo onde só brilham as estrelas de papel no teto, desguardado do anjo com suas mornas asas abertas. Você não me ouve nem me vê, e se ouvisse e visse não compreenderia quando eu abrir os braços para Ela e saudar, amável e desesperado como quem dá boas-vindas ao terror consentido: voragem, voragem.

Voragem, vórtice, vertigem: ego. Farpas e trapos. Quero um solo de guitarra rasgando a madrugada. Te espero aqui onde estou, abismo, no centro do furacão. Em movimento, águas.


Caio Fernando Abreu

de banca

Teresa, se algum sujeito bancar o 
sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um

bonde
Se ele chorar
Se ele ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredite não, Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA



Manuel Bandeira

segunda-feira, 7 de julho de 2014

o livro dos abraços.

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ensina a olhar!

Eduardo Galeano - O livro dos abraços

quinta-feira, 12 de junho de 2014

.eu ou tu.

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Pablo Neruda

LXXX


De viagens e dores eu regressei, amor meu, 
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.

Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.

Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre na minha cabeça sonhando:

que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormindo.

Pablo Neruda

LXVI

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.


Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem-fim e odiando-te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te como um cego.

Tal vez consumirá a luz de janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.


Nesta história só eu morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo.

Pablo Neruda

terça-feira, 3 de junho de 2014

Poema de sete faces.


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 1 de junho de 2014

Para uma menina com uma flor.





Para ler ao som de Charlotte, Hope Sandoval.

"Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. 

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo. 

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. 

E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro. 

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois. 

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. 

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor. "


Vinícius de Moraes
E essa, perpétuer.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

89.

fica combinado assim
você louco por mim
eu louca até o fim


Martha Medeiros
Meia-Noite e um Quarto 

25.

não devia te contar
mas se você guardar segredo
eu revelo este meu medo
de não saber amar

não devia te amar
mas se você guardar meu medo
eu revelo este segredo
que eu não sei contar


Martha Medeiros
Strip-Tease

26.

a emoção que veio vermelha
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele


Martha Medeiros
Strip-Tease

6.

você
não sente a minha falta
e eu
sem ti


Martha Medeiros
Strip-Tease

terça-feira, 22 de abril de 2014

.soneto ao caju.

À vocês, pessoas que distribuem gentilezas de graça. 


"Amo na vida as coisas que têm sumo 

E oferecem matéria onde pegar 
Amo a noite, amo a música, amo o mar 
Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo. 



Por isso amo o caju, em que resumo 
Esse materialismo elementar 
Fruto de cica, fruto de manchar 
Sempre mordaz, constantemente a prumo. 



Amo vê-lo agarrado ao cajueiro 
À beira-mar, a copular com o galho 
A castanha brutal como que tesa: 



O único fruto - não fruta - brasileiro 
Que possui consistência de caralho 
E carrega um culhão na natureza."



Vinícius de Moraes - Hollywood, 1947.