terça-feira, 25 de dezembro de 2012

E quando vou ver, lá estou eu mais uma vez, dobrando esquinas, cruzando ruas, fazendo curvas, dando setas, entrando em lugares, me despedindo, saindo do banho, dando a descarga, abrindo a geladeira, mudando o canal. Sempre de pé. Absolutamente triste e de pé. Eu e minha tristeza em pé. (…) E eu virei um muro alto feito de pedras cheias de pontas. Tudo isso só porque eu quero tanto um pouco de carinho que acabei ficando com medo de não ganhar. E coitada da moça da padaria e do moço da farmácia. Porque lá vai uma garota trator. Sempre de pé, carregando seu corpo sempre no chão. Sempre com pressa, pressa de acabar logo com tudo. Para poder deitar um pouco. Para poder dividir a tristeza com a gravidade. Para parar de fingir que tudo bem andar por aí carregando essa merda dessa tristeza. Sempre de pé. Afinal, seria um pecado não ser absolutamente feliz, com tanta gente pior por aí, não é mesmo?


Tati Bernardi, A tristeza em pé

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

“Gosto de pensar que quem já morreu fica num lugar quentinho, que a gente não vê, cuidando de quem ainda não morreu.E se você quiser agradar a essa pessoa, é só fazer coisas que ela gostava. Aí ela fica ainda mais quentinha e cuida ainda melhor da gente!”


CFA
Gosto de gente que me aceita, que me atura, que não reclama de mim, ou que reclama mas continua. Gosto de gente que aceita falar de qualquer assunto, que não é fresca, gente que se sente bem ao meu lado. Gosto de gente que não me faz perguntar se estou incomodando, se preciso sair. Gosto de gente que eu não preciso chamar pra vir, que eu não preciso dizer pra ela ler no meu olhar. Gosto de quem está comigo por ser quem eu sou, de quem me ouve por horas e mesmo assim não se cansa de dar o ombro pra eu apoiar. E gosto, acima de tudo, de gente que permanece.


João Pedro Buenos, Sabedorias.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Está chovendo. Pela janela posso ver, lá embaixo, as pessoas correndo, de capas e guarda-chuvas. As árvores do parque estão todas molhadas, mais verdes. Engraçado, não gosto do meu quarto — das paredes, do móveis —, mas gosto demais das coisas que posso ver pela janela. Das coisas que estão fora dele, porque o que está aqui dentro eu acho muito parecido comigo. E eu não gosto de mim. Ou gosto? Não sei. Talvez pareça não gostar justamente porque gosto muito, então exijo demais de meu corpo, e as coisas erradas que ele faz — são tantas! — me fazem detestá-lo. A gente sempre exige mais das pessoas e das coisas que quer bem, as que queremos mal ou simplesmente não queremos nos são indiferentes.

Caio Fernando Abreu, Limite Branco.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Parece absurdo que alguém possa sofrer num dia de céu azul, na beira do mar, numa festa, num bar. Parece exagero dizer que alguém que leve uma pancada na cabeça sofrerá menos do que alguém que for demitido. Onde está o hematoma causado pelo desemprego, onde está a cicatriz da fome, onde está o gesso imobilizando a dor de um preconceito? Custamos a respeitar as dores invisíveis, para as quais não existem prontos-socorros. Não adianta assoprar que não passa.

Martha Medeiros

Para o meu queridíssimo amigo Felipe :P


Tão. Tanto.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Me cuida.

Zé, me adota. Cuida das minhas dores e dos meus anseios. Me olha no fundo dos olhos. Enxerga minh’alma. Juro que não sou chatinha não. Não tenho frescura, não gosto das coisas tão certinhas. Não fico horas na frente do espelho mexendo no cabelo e tenho as unhas bem, bem feinhas. Sabe, Zé, tô precisando tanto de alguém que me proteja dos meus medos. Dos meus anseios. Zé, me carrega nas costas e me faz rir o riso mais doce puder. Pega a colcha de retalhos, um filme bem sessão da tarde, coloca a pipoca no forno e deixa que eu arrumo o sofá. Mergulha por entre os cobertores e me deixa deitar no teu ombro. Zé, ri da vida comigo. Me morde. Passa teu nariz na minha face fazendo dengo. Vem ser dengoso comigo, Zé, vem. Deixa eu meter as mãos por entre os teus fios de cabelo e te tocar o rosto de pele aveludada. Me deixa te olhar sem falar nada. Me deixa ver a beleza desses teus olhos verdes. Fala nada não. Fica quietinho. Zé, você é lindo. Põe - me nos braços e me chama de tua. Ai, Zé, te quero tão bem. Faz acontecer em câmera lenta. Aumenta o volume do rádio e dança o passo mais desengonçado junto ao meu pela sala. Tropeça e cai no chão. Me leva junto pro chão, Zé. Me faz cócegas e canta qualquer coisa no meu ouvido. Desafina. Afina. Sussurra. Diz que vai me proteger e não me deixa ir embora. Zé, não vai embora. Fica. Cuida de mim. Não se perde. Pega o papel e assina. Vai Zé, me adota.

RV

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Pra machucar os corações.



Para quem tem mais de 30, 35 anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não é que seja um mau disco. Eu explico. Ou tento. É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela memoria e refletido no tempo presente – agora -, parece sempre melhor. E terá mesmo sido?

Apenas, quem sabe, porque não havia fadiga lá. Aquela fadiga que se insinua, persistente, entre o ruído das buzinas e das descargas abertas nos engarrafamentos de trânsito, todo dia. Ou essa, de atravessar mais uma vez qualquer avenida às seis da tarde para, de repente, olhar a multidão também fatigada e preguntar: mas que cidade, afinal, é esta. E que vida? A quase amável, paciente fadiga de contemplar o grande relógio das repartições e escritórios  quase imóvel na sua lentidão, a partir das cinco e a caminho das seis da tarde. Para nos despejar, novamente, nas ruas entupidas de fumaça e desejos bandidos nas esquinas, dentro de carros apertados entre outros carros ou de ônibus apinhados – até o interior dos apartamentos, com seus fantasmas emboscados, uns mortos, outros vivos. E então o acúmulo de contas atrasadas, telefonemas ansiosos, telenovelas chatas, quem sabe algum plano, certas fantasias. Outra cidade, outro país, outro planeta, outra vida que não esta – uma memória de flores no cabelo e pés descalços, pouco antes do ruído do despertador e o do meu/teu/dele/nosso coração serem os únicos audíveis dentro da escuridão onde afundamos na lama de nossos sonhos mortos.

Mas eu falava – tentava – de um disco. De John Lennon.

Ele foi gravado ao vivo, no Madison Square Garden, a 30 de agosto de 1972. Há quase, portanto, 14 anos. Você tinha quantos – 15, 20, 25? E provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras, nem países, nem ódio entre as pessoas. Um mundo novo, não é isso? Depois houve cinco tiros nas costas, e pouco antes, durante o depois, os muros das cidades pixados com frases como “flower-power is dead”. E então uma invasão de cabelos muito curtos, quase raspados, roupas negras, couro justo: a ridicularização de tudo em que você acreditou durante tanto tempo – e largou faculdade, largou família, caiu em bandos pelas estradas para sonhar com essa coisa que não aconteceu: um mundo novo. O deboche das suas antigas – e perdidas – ilusões. Patrício Bisso só sobe no palco para cantar qualquer coisa como “bolsa peruana? Sandália indiana? Hippie! Mata”. Eu rio, você ri, ele ri – nós rimos todos juntos. E temos um sutil cuidado em evitar, no vocabulário, no vestuário, qualquer detalhe capaz de nos identificar como sobreviventes daquele tempo. Agora somos mais do que modernos: demi-darks. Não temos fé, nem esperança, nem caridade. Bebemos vodca pura, cheiramos umas. Nunca mais compramos uma caixinha de incenso. E a bad-trip pinta sem química.

Tudo isso dói tanto. Eu nunca mais tinha ouvido John Lennon. O tempo corre, a gente vai descobrindo jeitos de se proteger. Elis? Nem pensar: põe aí a Paula Toller. Marc (quem lembra?) Bolan? De jeito nenhum, melhor um Boy George, cara. Let´s Roller. It´s only rock and roll. Só que eu nem sempre sei se gosto. Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco-negro do futuro.

Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:

- Mother!

Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?

(Publicado no Estadão, Caderno 2, Domingo, 6 de abril de 1986)




Texto de Explicações.
"Mas sei lá, não sei se toda essa coisa patética é mesmo necessária. Tô resolvendo umas coisas aqui viu, esses negócios de sentimentos demonstrados demais meio que estraga. Tô aqui aprendendo que nem todos dão valor ao que você pode oferecer, e acabar demonstrando afeto demais começa a encher o saco, e eu digo tudo isso da minha parte. Chega de ligações, preocupações, sentimentos demonstrados aos extremos. Vou ficar mais relax mesmo, não quer me ligar, não liga, mas também não ligarei. Não quer me ver, não me veja, mas também não sairei que nem doida atrás de você pra saber se a gente vai se ver, que horas é o nosso encontro, não mais. É apenas um aviso que eu deixo bem simples: se quiser, me procura você. E outro aviso que eu deixo também: isso tudo é só conversa mesmo, teoricamente falando, tá tudo certo. É quando chega na hora da prática que ferra com tudo..." 

Caio Fernando





Afinal.



domingo, 16 de dezembro de 2012

Meu novo Et de Perpétuer

O Perpétuer foi criado em março de 2010 e dez por uma quase criança - eu -, e a sua amiguinha. O nome vem de perpetuar, de eternizar. Veio de quando uma linda professorinha minha falou da importância de se eternizar contos, ensinamentos e histórias. Falando que se as histórias infantis não fossem passadas de pai pra filho desde o princípio, não chegariam até hoje. E eu senti uma grande necessidade de eternizar os meus textos, os meus pensamentos, os meus aprendizados e as minhas histórias. Não existem aqui só textos meus ou dela, mas também textos e músicas que expressam o que queríamos expressar. Começam com textos infantis, amadores e toscos, e conseguem ir até bons textos. Não nos julguem pela pouca idade ou uma visão errada, queremos apenas nos eternizar. Nunca fizemos blog para ser famoso ou conhecido, nunca caçamos seguidores, e por muitas vezes, fizemos questão de não divulgar. Pode ser que 3 pessoas leiam isso, ou 30, ou até mesmo, nenhuma. Mas quero me explicar. Nunca postei constantemente, não é sempre que posso, nem sempre que consigo, mas todo dia, todo dia mesmo eu entro no blog. E bom, recentemente aconteceu uma verdadeira catástrofe. Fui fazer um favor para o meu pai em seu celular com o meu email, e os álbuns do Picasa, o programa que grava as fotos do blog, foram apagados, e com isso, perdi todas as fotos das postagens, do plano de fundo, do perfil e da logo do blog sumiram. O blog ficou simplesmente acabado. Eu fiquei verdadeiramente muito triste e decidi abandonar de vez. Mas não deu, senti falta, pois cresci com o Perpétuer e cada postagem daqui me mostra uma fase da minha vida. Então, com muito esforço, recomecei. Sou uma nova pessoa, com novas histórias, novas experiências, novos pensamentos, novos aprendizados, e agora, com um novo blog. Que venha uma verdadeira nova (e boa) fase!