domingo, 31 de maio de 2015

XIV.

Me falta tempo para celebrar teus cabelos. 
Um por um devo contá-los e elogiá-los: 
outros amantes querem viver com certos olhos, 
eu só quero ser teu cabeleireiro. 
Na Itália te batizaram de Medusa 
pela arrepiada e alta luz de tua cabeleireira.
Eu te chamo de minha travessa emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pêlo. 
Quando te extravias em teus próprios cabelos, 
não me olvide, lembra que te amo, 
não me deixe perdido partir sem tua cabeleireira 
pelo mundo sombrio de todos os caminhos 
que só tem sombra, de dores transitórias, 
 até que o sol suba a torre de teus pêlos.




 Pablo Neruda

terça-feira, 26 de maio de 2015

diário de bordo.

Tanto de tanto de dois mil e tanto,

Os endereços continuam os mesmos.
O cheiro também.
A comida tem o mesmo gosto. (profundamente, uma pitada de genérico)

O tempo oscila loucamente, assim como o clima, que mudou. (e eu?)
Eu, eu estou do outro lado do corredor, passando pela oscilação de clima.
Não entendo a linearidade do tempo. Era outro tempo, outro clima, outras situações, outra pessoa, outros dias, outra exposição. Como posso eu dizer que sou eu?

Fico então esperando novamente atravessar a cortina, o que não acontece.

.repetirei o caminho amanhã

Sendo outra pessoa, outro tempo, outro clima e outras dores, outras cores; Era eu?
Desde ontem(ns) há a frustração, ô companheira. Qual será a minha postura?

Encaro, então:
O tempo não vai voltar, Letícia. Nem o clima. Nem você. Nem o momento, a exposição ou o estranho.
Nem seus sentimentos.
Você não vai voltar.

Como será então, passar no lugar do meu sonho, tirar fotos de outros e não achar o tal antiquário?
(estranhas são as lágrimas que não descem dessa cachoeira metralhadora)

A rua será a mesma. E não será minha.
A torta terá o mesmo gosto, o que, pensando em compartilhar, me parece ser nenhum.

Tento ler-me agora, e só sinto misturas.

Frustração                    Ansiedade                    Angústia
Alegria                         Apreensão                   Saudade
Dúvida                         Tristeza                        Fracasso                   Medo.
Fantasia.

Quem será eu de amanhã?

.Preciso re-viver-me.


Perpétuer

a vida.

― Achei que você estivesse morto... ― disse, perplexo. 
― Foi o mesmo que eu pensei durante algum tempo ― disse Ford ― e depois decidi que eu era um limão durante algumas semanas. Me diverti bastante nessa época, pulando para dentro e para fora de um gim-tônica. 
Arthur limpou a garganta, depois repetiu: 
― Onde ― disse ele ― é que você...? 
― Onde encontrei gim-tônica? ― disse Ford, animado. ― Encontrei um pequeno lago que pensava ser um gim-tônica, então fiquei pulando para dentro e para fora dele. Bem, pelo menos creio que ele achava que era um gim-tônica. 
― Eu poderia ― disse com um sorriso que faria qualquer homem são procurar abrigo nas árvores ― ter imaginado tudo isso.
Esperou alguma reação de Arthur, mas este já o conhecia demasiadamente bem. 
― Continue ― disse ele, sem se alterar. 
― Como você pode ver ― disse Ford ―, o sentido disso tudo é que não há sentido em
tentar enlouquecer para impedir-se de ficar louco. Você pode muito bem dar-se por vencido e guardar sua sanidade para mais tarde.



Douglas Adams

A Vida, o Universo e Tudo Mais

domingo, 24 de maio de 2015

.definindo solidão

Solidão é a distância entre você e você mesmo.



Ana Paula Fernandes Ventura

sábado, 23 de maio de 2015

o brilho.


My candle burns at both ends;
It will not last the night;
But ah, my foes, and oh, my friends --
It gives a lovely light!

Edna St. Vicent Millay

quinta-feira, 21 de maio de 2015

14

Amor não foi, mas invenção
pois te queria de ouro
enquanto eras de barro, águas,
tintura fria, verniz.

De ouro fui eu, o meu invento
em diamantes, rubis, águas-marinhas
engastadas no meu corpo
que nunca foi tão belo. E tão inútil.

Não sei se foi o tempo,
o vento norte, o sol impiedoso dos verões
que pouco a pouco te partiu em cacos.

A chuva te desfez. Restou a lama.
De mim, um brilho falso. Imitação.
Quinquilharias.

16 de dezembro de 1980


Caio Fernando Abreu
(Poesias nunca publicadas, 2012)


segunda-feira, 18 de maio de 2015

1. the road not taken

 
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;        
 
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,        
 
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.        
 
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.




Robert Frost

quinta-feira, 14 de maio de 2015

.someone


My desires in a relationship have changed over time. I no longer want someone who promises to always love me and never leave me, I need someone who understands that life happens and sometimes things don’t work out. I don’t want someone who sugar coats things and never gets angry with me, I need someone to tell me how it really is and put me in my place. I need to be able to go five hours without talking to you and not feel lost or incomplete. I am complete without you. But with you, I want to be so much better. I want to be stronger with you. I want us to grow together and help each other grow individually. I don’t need you, but I really fucking want you. And this may not work out, but the fact that you understand all of this and this how our relationship works, makes me think we’ve got a pretty good shot. 


.autor anônimo.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

tanatologia

e no primeiro dia disseram-me que as luzes seriam apagadas e a noite que se seguiria não teria fim.
neguei. tudo ficará bem, disse à eles.
o sol se puserá à oeste e nascerá à leste,
os céus anunciarão primavera, verão, outono e inverno,
tudo haverá de existir como sempre existirá.
e nosso amor será, como todas as coisas, puramente eterno...

e no segundo dia quis gritar. quis que a doença da minha fúria contaminasse o meu redor.
bradei com a raiva do topo da minha inveja,
quis que fosse mentira, quis que fosse com outro. qualquer um menos eu.
que o calor do sol extinguisse os homens, derretendo qualquer esperança,
que as florestas todas queimassem, e que a fumaça consumisse os céus.
não aceitarei derrota - lutarei com todas as minhas forças em nome do nosso amor.
e no terceiro dia joguei dados. quis negociar meu adiantamento.
barganhei meus motivos e minhas riquezas, minhas terras e meus desejos,
tudo em nome de um pouco mais de dias no final do dia.
quis que sol nascesse só amanhã. e amanhã depois de amanhã,
que eu pudesse ver só mais uma primavera, só mais um verão, só mais um outono, só mais um inverno.
deixe-me amar pela última vez, só mais uma vez...
e no quarto dia perdi tudo o que tinha. não haverá amanhã.
nada me restou além da depressão. nada ficará bem, disse à eles. é o fim.
nesse dia não houve sol. nesse dia não houve nada.
o céu estava cinzento como fumaça. choveu e meus olhos se afogaram em lágrimas.
nada mais existirá. meus dias passaram.
estou de luto - nosso amor nada mais é para mim do que perda e pesar.
e no quinto dia dormi de luz apagada.
aceitei. tudo ficará bem, disse à eles. nada me traria mais paz ou me faria mais feliz.
e o sol nasceu à leste e se pôs à oeste,
os céus se abriram e a chuva derreteu a fumaça, dando nova vida para a floresta.
tudo existiu como sempre existiu.
nosso amor foi, um dia, puramente eterno. como todas as coisas, encontrou seu fim.
não houve sexto dia.

Levi S.
Sobre o dia de hoje e as mortes diárias. 

domingo, 3 de maio de 2015

a volta.

viajar não é o remédio
se na volta
é o mesmo tédio

Silvio Ribeiro de Castro