terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

7.

eu diria do amor que o amor é reto
que o asfalto do amor acaba
mas o amor continua
desbravando o mato

Martha Madeiros

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

.uma biografia anatômica ou a ferida que eu não posso pontuar.



Photography by Kyle Thompson
A anestesia está passando.
Continua embaçado,
Mas a névoa vai passar.
É absurdo ter que lembrar-te,
A ferida foi em mim.

Minha perna encontra a quina que rasga. Rasga.
Meu pulso encontra faca, tesoura, unha e desespero.
Minha caminhada é rasgada pela repetição.
Os calos sangram.
Invisível, minha cabeça é repetidamente almofada dos voos.
As lágrimas vermelhas caem.
De ignorar a ferida, surge o calcanhar nunca superado.
E de carregar, minhas costas nunca descansaram.
Eis que em mim, todas as feridas terminam abertas.

Todos os dias, é necessário sangrar mais para sangrar menos.
As mãos pesadas me rasgam e dizem curar.
Eu acredito. Iludidamente?
A ferida é mais profunda do que a casca aparenta.
E eu que pensei que em mim seria só um arranhão.
Iludida.
Iludida? Eu sabia?
Eu sabia.
A ilusão da cura é rasgada.

Pensei, como um afago, que ao menos na saída eu seria buraco de bala.

Parece que eu fui um arranhão.
Existente Rapidamente
Chata Inconveniente
Em mim, há a necessidade de pontos
(Que nunca são dados
Pontos são o superficial
Não é Real.
Oi, aure
Não podia só dessa vez
eu escolher the road already taken?
não.)
Eis outra ferida, que eu não posso pontuar.

Você me rasgou mais do que o cego bisturi.
Te chamaria de cirurgião que treme
Mas as feridas são compatíveis
A uma autopsia suja
A uma monitoria despreocupada
No cadáver esquecido
Tentava abrir mais feridas na esperança que a aquela parasse de doer.

Eis que já estou falando demais.

“Haverá uma boa cicatrização, só (que) hoje não”

A curetagem deixa a marca do grito (e o sangue seco).
A cabeça nega mas a pele não.
Só o vermelho é Real.
Orgulhosamente, nunca gostei do verde.

A voz amiga diz, she’s back.
I’m back.
Na maré de hoje,
Eu faço o meu próprio curativo, a minha própria curetagem.
Dessa vez, irei curar?
Irei curar.

Ainda existe a distensão.
Mas há muito tempo, a náusea já é familiar.
Eu não vomitarei por ti.

Eis que já estou falando demais.

Mas oceano não para,
E não irei silenciar.
A cura é de dentro pra fora.
E hoje eu grito,
Tirem de mim todo o branco. 


lê.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

07.02


É como se eu tivesse medo de viver a realidade.
Eu procuro estar anestesiada.
A menina que disse sentir o mundo.
Estou olhando para o mar, deitada em uma rede, ao lado das árvores, 
e eu ainda não consegui tirar os óculos escuros. 
O momento.
Nunca no momento.

Parece que tem um buraco vazio no meio dos meus peitos. 

Buraco negro, tudo e nada.
Eu percebo o início das sensações. 
O início da alegria, o início da dor. 
Eu sei que elas estão aqui, em algum lugar, mas elas nunca chegam.
Me preencho, então, de alimentos e momentos falsos.
Eu tão sensação, sendo enganada por essa criança que quer 
tapar o buraco negro com uma folha de papel, pensamento. 

Há muita dor.
Há muita dor.
Há muita dor.
Mas ela não chega.
Não há riso, não há vida, não há realidade.

Será que posso dizer que sinto algo? 

Vejo o mar, no meio do furacão. 
Só hoje, o furacão. 
Eu cheguei.
Enxergo, sei que sou eu, mas não consigo alcançá-lo.
Eis que ele me busca, um resgate. Tenta.
Não consigo encontrar.
Respiro mas não pareço respirar.
Mastigo mas nada tem gosto.
Leio a poesia.
Enxergo, seu que sou eu, mas não consigo a
alcança-la.
Me busca, poesia. Me encontra.
Eu tenho medo.
Eu tenho o vazio.
Eu não consigo respirar.

Letícia, Real Oceano. Eu não quero estar congelada.

.maré alta.



Antes de ser eu mesma
(ou isso que penso ser),
eu jogava esconde-esconde
com meus fantasmas
- os terríveis e os gentis.

Os dias me viravam do avesso
e desviravam,
as horas me traçavam
para me desarrumar.
Quanto mais me busquei
nos espelhos secretos,
mais me perdi de mim.

Quando chegou o tempo da verdade,
entendi que sou
- num fundo porão das horas -
reflexo de reflexo
de reflexo,
nada mais.
(E que deve ser assim.)


Lya Luft

O tempo é um rio que corre


.ah, um soneto...

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ...

Álvaro de Campos

.mas eu

Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.


Fernando Pessoa