sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

.uma biografia anatômica ou a ferida que eu não posso pontuar.



Photography by Kyle Thompson
A anestesia está passando.
Continua embaçado,
Mas a névoa vai passar.
É absurdo ter que lembrar-te,
A ferida foi em mim.

Minha perna encontra a quina que rasga. Rasga.
Meu pulso encontra faca, tesoura, unha e desespero.
Minha caminhada é rasgada pela repetição.
Os calos sangram.
Invisível, minha cabeça é repetidamente almofada dos voos.
As lágrimas vermelhas caem.
De ignorar a ferida, surge o calcanhar nunca superado.
E de carregar, minhas costas nunca descansaram.
Eis que em mim, todas as feridas terminam abertas.

Todos os dias, é necessário sangrar mais para sangrar menos.
As mãos pesadas me rasgam e dizem curar.
Eu acredito. Iludidamente?
A ferida é mais profunda do que a casca aparenta.
E eu que pensei que em mim seria só um arranhão.
Iludida.
Iludida? Eu sabia?
Eu sabia.
A ilusão da cura é rasgada.

Pensei, como um afago, que ao menos na saída eu seria buraco de bala.

Parece que eu fui um arranhão.
Existente Rapidamente
Chata Inconveniente
Em mim, há a necessidade de pontos
(Que nunca são dados
Pontos são o superficial
Não é Real.
Oi, aure
Não podia só dessa vez
eu escolher the road already taken?
não.)
Eis outra ferida, que eu não posso pontuar.

Você me rasgou mais do que o cego bisturi.
Te chamaria de cirurgião que treme
Mas as feridas são compatíveis
A uma autopsia suja
A uma monitoria despreocupada
No cadáver esquecido
Tentava abrir mais feridas na esperança que a aquela parasse de doer.

Eis que já estou falando demais.

“Haverá uma boa cicatrização, só (que) hoje não”

A curetagem deixa a marca do grito (e o sangue seco).
A cabeça nega mas a pele não.
Só o vermelho é Real.
Orgulhosamente, nunca gostei do verde.

A voz amiga diz, she’s back.
I’m back.
Na maré de hoje,
Eu faço o meu próprio curativo, a minha própria curetagem.
Dessa vez, irei curar?
Irei curar.

Ainda existe a distensão.
Mas há muito tempo, a náusea já é familiar.
Eu não vomitarei por ti.

Eis que já estou falando demais.

Mas oceano não para,
E não irei silenciar.
A cura é de dentro pra fora.
E hoje eu grito,
Tirem de mim todo o branco. 


lê.

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