sábado, 30 de novembro de 2013

.e cuidar

Me cuidarei, pode deixar. Me cuidarei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Me cuidarei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.

Martha Medeiros

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

.de tantos clichês.

À descoberta se seguiu o meu choque, completamente desnecessário, já que eu sabia e você sabia que eu já sabia de tudo. Eu soube de tudo tantas vezes e de tantas maneiras diferentes que o choque foi apenas parte do meu espetáculo, o filme de que todas as pessoas da minha geração acham que participam. Com o choque veio sua exclusão de todas as minhas redes de amigos na Internet e, sentindo que isso não fosse suficiente, o bloqueio do seu perfil para que você não pudesse me ver e eu não pudesse te ver. Nós deixamos de existir um para o outro há algumas horas ou alguns minutos, não lembro bem, e talvez você nem saiba. Isso eu não preciso avisar, não preciso ligar e dizer que não existimos mais um para o outro, se é que já existimos em algum momento desses três anos que você esteve na minha vida sem estar e eu na sua, menos ainda. Você vai perceber que já não existimos um para o outro, se é que já não percebeu. Talvez este seja o momento do café no seu trabalho, você se levante para tomar um café e quando volte abra o Facebook. Talvez você fique curioso e queira ver se eu publiquei uma indireta em forma de vídeo de música para você. Me ame, por favor, me ame pelo menos um pouco. Percorrendo toda a sua tela, você não verá meu nome. Não verá um poema que eu tenha publicado para te convencer de que sou inteligente e sensível, ou uma música, para te convencer de que temos o mesmo gosto musical e por isso devemos ficar juntos, mais juntos do que jamais estivemos. Não verá uma foto de um grafite num muro, um grafite de coração ou um grafite irônico dizendo que não ligo para o amor, para que você se convença de que sou uma mulher moderna e independente e nunca te darei uma dor de cabeça ou um aborrecimento com crises de carência ou ciúme e por isso você deve escolher a mim. Você não me verá nessa tela, então talvez você decida entrar no meu perfil e é neste momento que você perceberá que eu não existo mais. Talvez você ainda não saiba que eu não existo mais só para você ou talvez você se dê conta disso na mesma hora que vê que eu não existo mais. Talvez você só perceba daqui a uns dias, quem sabe semanas. Eu nunca saberei, porque nunca mais falarei com você, estou muito decidida. Nós não existimos mais um para o outro e por isso eu nunca saberei como você descobriu que eu não existia mais, porque eu nunca mais falarei com você, nunca mais.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

.vem de mim.



Brota esta lágrima e cai.
Vêm de mim, mas não é minha.
Percebe-se que caminha,
sem que se saiba aonde vai.


Parece angústia espremida
de meu negro coração
- pelos meus olhos fugida
e quebrada em minha mão.


Mas é rio, mais profundo,
sem nascimento e sem fim,
que, atravessando este mundo,
passou por dentro de mim. 


Cecília Meireles