sexta-feira, 31 de julho de 2015

31

Amanhã começa agosto.
No sul, as paredes mofam em silêncio.
Faltam cinco meses para o fim da década.
Nada mudará. Ficaremos um pouco mais cansados.
Mas nada, nada mudará.

Há cachorros loucos vagando pelos becos
alguns suicídios talvez, pelos banheiros, e velhos
que não resistirão.
Minha avó dizia sempre
 - não sei se passo desse agosto.
E não passou.

Num susto a mão vira o calendário:
Cecília desapareceu no mundo
Rafael aprendeu a brincar com o coração alheio
Paula faz cara de nojo e viaja para Nova Iorque
Ju não escreveu, nem escreverá.
Tudo já faz tanto tempo. Eu sigo acreditando.

Mas no sul
as bergamotas estão mais doces do que nunca
a umidade invadiu todos os cantos da casa
meus olhos amanhecem inchados de pranto nenhum
e secamente
inventariam marcas, desgostos, rostos perdidos,
corações mofados, roupa cinza na guarda da cadeira.

Amanhã começa agosto
outra vez. E continuamos.


30 de julho de 1979


Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 13 de julho de 2015

76.

dia após dia o mesmo prato requentado
tarde da noite e nada aconteceu
desperto no escuro, ainda é cedo pra acreditar
que vai haver futuro e que vale a pena
esperar de banho tomado




Martha Medeiros

quinta-feira, 2 de julho de 2015

11 - aprendendo a voar

há momentos em que baixa a luz
e tudo fica calmo
como há momentos em que baixa a treva
como há momentos também em que juntos
os dois baixam claro escuro
sobre corpo e mente
e tudo fica

há momentos em que não ficamos
há momentos de lucidez em que nem sempre
é bom, isso que vemos
é então que a luz e treva se misturam
sobre corpo e mente
e nada fica

quando verso é reverso sem deixar o verso
quando a cara se torna inseparável da coroa
há momentos, sim e mais momentos sempre
momentos das máquinas que batem e rebatem
(sem parar, entre paixões ferinas)
ou além da janela
o momento de um homem suspenso a dez metros do solo
num poste de lu, contra o céu cinza.



Caio Fernando Abreu

25 de outubro de 1975


o dia de hoje.

5

sim, te pressentia
desde não sei quando
sem esperar, sem saber
sequer que pressentia
nos sonhos, nos inventos
nos futuros que supunha
e nem ainda tinha
nos rostos que mal via
tudo era vago então
difuso aquele tempo
dos corpos que eu não via

apenas tu eu
pressentia claro
nos caminhos de agora
mais que imaginário
no real de cada dia
em cada solidão ardida
te sabia assim
existindo ao meu lado
a falar exatamente
essas coisas fundas
exílios, prisões, partidas
que me falas agora

assim eras
quando eu te pressentia
como é agora
quando te percebo sendo

e
permaneço imóvel
como para não afugentar
uma borboleta pousada por descuido
na palma de minha mão
não digo nada
mas de certa forma

estou completo

apenas
de certa forma


Caio Fernando Abreu
8 de julho de 1980


o dia de hoje.

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