domingo, 26 de fevereiro de 2017

diz-secação.


Ela chegou na frente de todos
Não impediu o olhar de ninguém
Desabotoou o primeiro botão,
o segundo,
o terceiro,
o quarto.
Expôs uma semi-lua do seio esquerdo.

Só depois fui perceber a faca que trazia

Gentilmente, toma da lâmina
Rebate o sol em meu rosto
Fico cego por três segundos

Quando retorna a visão
A faca já havia cortado a pele
Exposto a gordura
A fáscia
O músculo

Delicada,
Desarticula a segunda costela
A terceira
A quarta
A quinta
A sexta

Leva a mão ao íntimo
(Ainda com a faca nela)
Já não mais a aorta
Ou a pulmonar
Ou qualquer grande vaso
Impede o coração de sair

Pulsando na mão dela
Vai mostrando a cada um
O quanto o sangue é azul

Saí dela dali sangrando
Mas, ela mal me tocou.
Alguém disse que estávamos ali para ela
Mas, por Deus!, esse sangue em mim
É que ela está aqui
E não larga mais.


Allan Denizard

domingo, 19 de fevereiro de 2017

.I want to write you a poem, but then I didn't.






















eu queria te escrever um poema
mas i don't find the lenguage
e the words somem
the world keep falling apart

e eu queria te escrever um poema
com os dizeres que eu-só-penso-em-você
e my heart está completo agora
mas é mentira
então the words somem
the world keep falling apart

e eu queria te escrever um poema
tão tarado e tão sagrado
que pareceria que você é meu único alimento
mas é mentira
então the words somem
the world keep falling apart

porque eu queria te escrever um poema real
mas como vou te explicar
que a minha honestidade
de dizer que estou perdida e quebrada, baby
nunca estou preparada e tenho medo
tenho medo medo medo e
meu passado ainda dói
e me destrói
e otras cositas más
são palavras de mais amor
do que qualquer eu-te-amo
mundialmente admirado
?

então as palavras somem
e eu quero te escrever um poema
mas the world keep falling apart
e i don't find the lenguage

e eu queria te escrever um poema real
sobre o meu coração
que não precisa estar completo agora
porque o meu o teu
passados presentes futuros
moldam meu coração com luz
e não peso
mas eu queria te escrever um poema
(e nada mais)

letícia lima.

5.

























sim, te pressentia
desde não sei quando
sem esperar, sem saber
sequer que pressentia
nos sonhos, nos inventos
nos futuros que supunha
e nem ainda tinha
nos rostos que mal via
tudo era vago então
difuso aquele tempo
dos corpos que eu não via

apenas tu eu
pressentia claro
nos caminhos de agora
mais que imaginário
no real de cada dia
em cada solidão ardida
te sabia assim
existindo ao meu lado
a falar exatamente
essas coisas fundas
exílios, prisões, partidas
que me falas agora

assim eras
quando eu te pressentia
como é agora
quando te percebo sendo

e
permaneço imóvel
como para não afugentar
uma borboleta pousada por descuido
na palma de minha mão
não digo nada
mas de certa forma

estou completo

apenas
de certa forma


Caio Fernando Abreu
8 de julho de 1980

23.





















não desvie os olhos
me olhe
esta cara que trago
é justamente
esta cara que trago
o caco o mapa o trapo
do que sobrou da viagem
tome um trago
me olhe
não desvie os olhos
esta cara que é minha
é o que restou
dos naufrágios
de todas as ventanias
de todas as calmarias
de todos esses contatos
imediatos ou não
me olhe
não desvie os olhos
de dentro e fundo de mim
veja o resto
conte o saldo
depois me mate
me cuspa me acuse
ou me recuse
então quem sabe
me goze
bem fundo
no fundo de mim

Caio Fernando Abreu