quarta-feira, 19 de outubro de 2016

.para o amor doente


[latir, later, latência]
tiraram-me a inocência do aborto bem sucedido 
tiraram-me, te, os desesperos, as correntes de fetos, os afetos, os negantes de amor
o amor o amor o amor o amor que não aquece os ralos
não se prende em banheiros não se mija em barrigas
em quartos escuros limpando o chão a casa escondendo
o barulho o líquido da mãe, o amor não esconde não esconda o amor você errou
o amor, ahhh, o amor errou mais uma vez o amor não arruma camas deitáveis para desconhecidos
não se planta em colheitas a erva que alimenta a boca suja beijada amada
o amar não ama o então amado numa noite o amor não ama
o amor pra amar de fato desama muitas e múitiras vezes o amor que é acanhado não sobrevive a bons tratos
o amor se esconde não gosta de múitiras gentes múitiros aguços machucaram o amor o amor está sem cabeças sem canto de nariz sem cheiro de canto de nariz o amor deformou
e eu vi, confesso que vi um amor horroroso
sonho com o amor horroroso estridente apoiador de ossos
ahh o amor, o carangueijo comeu um leão valente
ahh o amor as vezes custa custa custa na demora de amar
tapem os ouvidos não tape os ouvidos
porque eu juro, eu vi eu vi eu vi o amor e um homem que era
pequeno, um fato, um amor, um homem eu vi vi vi não conte ao amor
eu vi o homem futuro entupindo a privada

Ellen Gabriele

.por dia



5 mg diazepam
150 mg velanfaxina
400 mg hemifumarato de quetiapina
750 mg divalproato de sódio
todos os cigarros
e o antibiótico

nenhuma droga pode parar o que eu sinto

domingo, 2 de outubro de 2016

.pássaro de papel, 2016

vi teus olhos girarem feito montanha russa
achei nisto um motivo muito muito especial para sorrir
desde então percebi que as rodas giravam
dos carros das bicicletas das motocicletas
até mesmo quando o carrinho de pipoca chega eu começo a gargalhar

quando lembro de ti me abraço de uma forma muito íntima
como se eu dançasse ballet clássico no meio da avenida 13 de maio às 5:30 da manhã nascendo junta ao sol
meu sorriso nasce meu sentido nasce nós nascemos e nós bailamos juntas da tua forma sempre muito muito peculiar de lidar com os atrasos

chegaste tardiamente hoje
tiveste todo o tempo do mundo
tiveste todo o mundo e todo o tempo
e chegaste quando já não havia mais sol já não havia mais riso já não haviam mais braços para ti contemplar

faço-te um convite quase como um apelo
grito teu nome previamente
deixe-me certificar que os teus pés ainda estão de ponta
chegue desta vez às 4:59 em ponto que é para dar tempo de assistir os meus olhos nascerem
esteja aqui às 17:59 para assistir os meus olhos morrerem os meus olhos chorarem os meus olhos

esteja aqui e assista os meus olhos girarem

esteja aqui quando a primeira laranjeira vier a brotar

assistimos pássaros de papel e todos os origamis que os meninos do instituto fazem
veja estes aviões voando se estripando no ventilador fugindo de dentro da sala atropelados pelo primeiro automóvel

achamos absurdos dobrando as esquinas porque nada consegue ser tão absurdo quanto nossos lábios juntos nossos olhos juntos nossas almas juntas

nada é tão mais absurdo que nós nos equilibrando numa só bicicleta de uma vez só numa velocidade tão estupenda que ultrapassamos até mesmo a vida

e o nosso amor
tão bonito
coitado
perdeu-se na calçada antes mesmo da primeira curva

rimos muito

Daniele Wega

Fotografia: Lorena Lima