terça-feira, 24 de novembro de 2015

um abraço para Manoel.

Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.

Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.

E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.

E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.



Mia Couto

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

já passou.

Nada
Não :
Foi só um desejo
De tomar cicuta
Que o andar
Pela rua
E o perfume
Da murta
Desfizeram

Zélia Guardiano

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

só por hoje.

Respira fundo. Intenso, profundo e de olhos bem fechados. Sente o peso se esvair... manda embora o cansaço e torne esse momento um leve sorrir. Coloca de lado todo o medo, toda a angústia e a dor que te rodeia. Só por hoje. Deita aqui e descobre que o meu calor não é só fogo... é ternura também.

Thaís Renata de Lima

terça-feira, 6 de outubro de 2015

o haver.



Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.


Vinícius de Moraes

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

é tempo de morrer. (é?).

Eu havia colocado no toca-discos um disco velho, poemas do Vinícius e Drummond, daqueles que, com o tempo, começam a chiar e a pular. O próprio Vinícius, com sua voz de sussurro, recitava, e agora chegava a vez do último poema, O Haver, que é um balanço da vida, tanto que todas as estrofes começam com a mesma palavra Resta; foi isso que sobrou.

"Resta essa capacidade de ternura,
Essa intimidade perfeita cora o silêncio […]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido […]
Resta essa faculdade incoercível de sonhar […]
[…] e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança…"

E os resta se sucederam, até chegar ao resta final. Assim é a vida. Tudo o que é belo, para permanecer belo, tem de ter um fim. Assim é com o pôr-de-sol que é belo porque suas cores são efêmeras e em poucos minutos se vão. Assim é também a sonata que é bela porque sua vida é curta. Se ela não tivesse fim e ficasse tocando eternamente, é certo que o seu lugar seria entre os instrumentos de tortura do inferno.

Até o beijo… Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca? A vida precisa de descanso. Lembro-me de um poema de Fernando Pessoa em que ele dizia ter dó. das estrelas, que tinham de ficar brilhando, brilhando, sem nunca descansar… O poema tinha de morrer. A sua beleza o exigia. No lugar da sua morte ficaria o vazio silencioso. Nasceria então uma outra coisa no seu lugar: a saudade. A saudade é flor que só floresce na ausência. É nela que se dizem as orações suplicando dos deuses a graça de repetição da beleza. E é só para isso que existem os deuses: para garantir o retorno do belo. A voz do Vinícius ficou mais baixa. É preciso sussurrar quando o fim se aproxima.

"Resta esse diálogo cotidiano com a morte,
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
ela virá me abrir a porta como uma velha amante […]
E eu automaticamente me adiantei, recitando em silêncio o último verso:
[…] sem saber que é minha mais nova namorada."

Foi então que o imprevisto aconteceu: a agulha pulou para trás. Achou o poema tão bonito que se recusou a ser cúmplice da sua morte. Fez como fazem médicos e parentes, que não permitem a morte do ente querido. Mas o que aconteceu não foi o que a agulha queria. O belo não se prolongou. Ele fugiu. E, no seu lugar, o grotesco, o feio, o que não deveria ser… Uma repetição sem sentido: sem saber que é a minha mais nova… sem saber que é a minha mais nova… sem saber que é a minha mais nova… E assim teria ficado, eternamente se eu, por puro amor, não tivesse ajudado o poema a morrer: levantei-me do meu lugar, fui até o toca-discos, e consumei o assassinato: empurrei suavemente o braço com o meu dedo. O poema se disse até o fim, morreu e ficou perfeito. Depois foi o silêncio.

Pensei que aquilo tinha sido uma parábola da vida. O que se pede da vida é que ela seja bela como um poema. Mas, para ser bela, eternamente, ela há de saber morrer. Está lá, dito no texto sagrado, que para tudo há o tempo certo.

Há um tempo de nascer e há também um tempo de morrer. Aprendemos a contar os meses da gravidez e a marcar o dia do parto. Mas quando aprenderemos a reconhecer o momento de morrer? O nosso corpo sabe. E não quer ficar, depois da hora. Ele também tem dó das estrelas, que brilham sem descanso.

Acho que seria isso que a vida diria, como seu último desejo, se os vivos a ouvissem: que o fim seja calmo como o crepúsculo, que seja decidido como o último acorde de uma sonata, e que se saiba haver chegado o momento quando se reencontra a velha amente com a alegria de quem abraça a mais nova namorada.

Que os médicos e parentes, por amor à beleza, deixem o poema se dizer, até o fim. Por favor, não ponham o dedo ao contrário, no braço do toca discos. 


Rubem Alves

sábado, 26 de setembro de 2015

todo dia.

e todos os dias
trazer à tona meu melhor rosto
para que os outros não se assustem
para que os outros não se espantem
para que eu não me dane e sangre

e todos os dias 
depurar o melhor de mim
e não deixar nenhum espinho à tona
e não deixar nenhuma dor à mostra
e não deixar nenhuma cicatriz visível
combater a voz rouca com gargarejo de salmoura
esconder as olheiras com óculos escuros
e dizer coisas, mesmo sem sentido,
o tempo todo, dizer coisas e mais coisas e outras coisas
para que o silêncio não agrida nem pareça fundo
como um poço
para que o poço não assuste


e todos os dias
e todos os dias
e hoje como ontem


não deixar a sede vencer a garganta
e não deixar o gesto se estender do braço
e não gritar, não gritar nem chorar,
nem utilizar palavras ásperas
(dance, dance, dance
e não se esqueça de sorrir)

e todos os dias
controlar o ridículo
para não confessar amores inconfessáveis
delimitar o cansaço
mastigar a solidão
tomar um ônibus
e voltar sozinho para casa, em passo lento
ou então beber num bar qualquer
qualquer bebida, qualquer companhia,
beber, beber, beber, beber
e não esquecer nada.

todos os dias
um dia depois do outro
amanhã eu sei
amanhã também.


Caio Fernando Abreu

terça-feira, 15 de setembro de 2015

daí a vida.

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem. 



João Guimarães Rosa, Sertões Veredas

domingo, 13 de setembro de 2015

poeta quer ser poema.

não estou nua como sou: estou nua como tu me vês. olhas para mim e eu vejo-me sendo observada. me empenho ao teu conceito de beleza. mexo no cabelo, dou de ombros, mordo os lábios, assovio uma melodia popular…
mas tu nada falas, não me escreves um poema, um soneto de amor. e é até lógico que não, pois poeta eu que sou. e por isso mesmo, também penso em ser tema, em ser teu verso. palavra.
tu somente me olhas: internalizas minha imagem: enquadra: foca: resguarda: admira: cuida para que eu não perceba. mas não me expõe, não me libera ao sensível, não ateia o meu eu-fogo-lírico ao papel.
poeta que permaneço, sou e permaneço para que me leias, e só quando me lês é que existo de fato. de fato e não foto. foca: só quando me lês é que me vês nua como sou.
e se minha nudez acaso provocar em ti uma ânsia lírica, não te demores: demore assim: pega a alma: torce: escorre as teimosias: torna a ser poeta: versa sobre mim.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

friendly advice to a lot of young men.

Go to Tibet
Ride a camel.
Read the bible.
Dye your shoes blue.
Grow a beard.
Circle the world in a paper canoe.
Subscribe to The Saturday Evening Post.
Chew on the left side of your mouth only.
Marry a woman with one leg and shave with a straight razor.
And carve your name in her arm.
Brush your teeth with gasoline.
Sleep all day and climb trees at night.
Be a monk and drink buckshot and beer.
Hold your head under water and play the violin.
Do a belly dance before pink candles.
Kill your dog.
Run for mayor.
Live in a barrel.
Break your head with a hatchet.
Plant tulips in the rain.
But don’t write poetry.

Charles Bukowski

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

entre marés. no centro do furacão.

Vórtice, voragem, vertigem:
qualquer abismo nas estrelas de papel brilhante no teto.


Queria tanto poder usar a palavra voragem. Poder não, não quero poder nenhum, queria saber. Saber não, não quero saber nada, queria conseguir. Conseguir também não - sem esforço, é como eu queria. Queria sentir, tão dentro, tão fundo que quando ela, a palavra, viesse à tona, desviaria da razão evitaria o intelecto para corromper o ar com seu som perverso. A-racional, abismal. Não me basta escrevê-la - que estou escrevendo agora e sou capaz de encher pilhas de papel repetindo voragem voragem voragem voragem voragem voragem voragem sete vezes ao infinito até perder o sentido e nada mais significar - não é dessa forma que eu a desejo. Ah essa palavra de desgrenhados cabelos, enormes olhos e trêmulas mãos. Melodramática palavra, de voz rouca igual à daquelas mulheres que, como dizia John Fante, só a adquirem depois de muitos conhaques e muitos cigarros. Eu quero sê-la, voragem.
Espio no dicionário seu significado oficial, tentativa inútil de exorcizar o encantamento maligno. O que leio, inquieta ainda mais: "Aquilo que sorve ou devora". E vejo um redemoinho lamacento de areias movediças à superfície do qual uma única mão se crispa. Vórtice, penso, numa vertigem. Repito, hipnotizado: vertigem, vórtice, voragem. "Qualquer abismo" - continuo a ler. Os abismos de rosas, os abismos de urzes, e aqueles abismos à beira do qual duas crianças correm perigo, protegidas pelas asas do Anjo da Guarda. Os abismos de estrelas falsas no falso céu do teto do meu quarto, os abismos de beijos e desejos, o abismo onde se detém o rei daquela história zen para abrir o anel que lhe deu o monge, onde está guardado o condão capaz de salvá-lo - e o condão é a frase: "isto também passará". Sim, leio então: "Tudo que subverte ou consome" - paixões, ideologias, ódios, feitiçarias, vocações, ilusões, morte e vida. Essas outras palavras de maiúsculas implícitas - vorazes, voragem -, abismais.
Eu estava lá, no centro do furacão. E repito as palavras que são e não são minhas enquanto o porteiro do edifício em frente toca violão e canta, e a chuva desaba outra vez, e peço: por favor, me socorre, me socorre que hoje estou sentido e português, lusitano e melancólico. Me ajuda que hoje eu tenho certeza absoluta que já fui Pessoa ou Virgínia Woolf em outras vidas, e filosofo em tupi-guarani, enganado pelos búzios, pelas cartas, pelos astros, pelas fadas. Me puxa para fora deste túnel, me mostra p caminho para baixo da quaresmeira em flor que eu quero encostar em seu tronco o lótus de mil pétalas do topo da minha cabeça tonta para sair de mim e respirar aliviado de por um instante não ser mais eu, que hoje não me suporto nem me perdôo de ser como sou e não ter solução. Me ajuda, peço, quando Excalibur afunda sem volta no lago.
Ela se debruça sobre mim, me beija com sua grande boca vermelha movediça. Tenho medo mas abro minha boca para me perder.
Ela repete baixinho em meus ouvidos nomes cheios de sangue - Galizia, Ana Cristina, Júlio Barroso - enquanto contemplo o céu no teto do meu quarto, girando intergaláctico em direção a ER-8, a estrela de 10 bilhões de anos, o cadáver insepulto para sempre da estrela perdida nos confins do Universo. Choro sozinho no escuro, você não enxuga as minhas lágrimas. Você não quer ver a minha infância. Solto nesse abismo onde só brilham as estrelas de papel no teto, desguardado do anjo com suas mornas asas abertas. Você não me ouve nem me vê, e se ouvisse e visse não compreenderia quando eu abrir os braços para Ela e saudar, amável e desesperado como quem dá boas-vindas ao terror consentido: voragem, voragem.
Voragem, vórtice, vertigem: ego. Farpas e trapos. Quero um solo de guitarra rasgando a madrugada. Te espero aqui onde estou, abismo, no centro do furacão. Em movimento, águas.



Caio Fernando Abreu

terça-feira, 1 de setembro de 2015

à beira do mar aberto.

..............................................................................................................................................................................................................  e de novo me vens e me contas do mar aberto das costas de tua terra, do vento gelado soprando desde o pólo, nos invernos, sem nenhuma baía, nenhuma gaivota ou albatroz sobrevoando rasante o cinza das águas para mergulhar, como certa vez, em algum lugar, rápido iscando um peixe no bico agudo, mas essas outras águas que lembro eram claras verdes, havia sol e acho que também um reflexo de prata no bico da ave no momento justo do mergulho, nessas águas de que me falas quando me tomas assim e me levas para histórias ou caminhadas sem fim não há verde nem é claro, o sol não transpõe as nuvens, e te imagino então parado sozinho entre a faixa interminável de areia, o vento que bate em teu rosto, as mãos com os dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que não me olha agora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto mais nu que sempre, à beira-mar, com esse vento a bater e a revolver teus cabelos e pensamentos, e eu sem saber que me envolve agora quando teu olho outra vez escorrega para fora e longe do meu, entre tua testa larga de onde às vezes costuma afastar os cabelos com ambas as mãos, numa mistura de preguiça e sensualidade expostas, e quando teu olho se afasta assim, não sei para onde, talvez para esse mesmo lugar onde te encontravas ontem, à beira do mar aberto, onde não penetro, como não te penetro agora, mas é quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o teu é que te olho detalhado, e nunca saberás quanto e como já conheço cada milímetro da tua pele, esses vincos cada vez mais fundos circundando as sobrancelhas que se erguem súbitas para depois diluírem-se em pêlos cada vez mais ralos, até a região onde os raspas quase sempre mal, e conheço também esses tocos de pêlos duros e secretos, escondidos sob teu lábio inferior, levemente partido ao meio, e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, através de histórias como essa, do mar, das velhas tias, das iniciações, dos exílios, das prisões, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasses quase deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno, veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar por inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que não se debruça sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas histórias longas, das tuas memórias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velha trancadas em seus quartos, balcões abertos sobre ruazinhas onde moças solteiras secam o cabelo, exibindo os peitos, tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me têm alimentado ao longo deste tempo e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar enquanto meus dentes penetrando nas veias de tua garganta arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, onde te detenhas mais demorando sobre isso que sou e penses que sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, e depois puxa a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que não digeriste, mas mesmo assim penses que poderias aceitar também meus jogos, esses que não proponho, ah detritos, mas tudo isso é inútil e bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca suja que chamamos com fome e pena de pequenas-esperanças, enquanto definho feito um animal alimentado, apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa espessa turva do mar de que me falaste no começo da tarde que agora vai-se indo devagar atrás das minhas costas, e parado aqui do teu lado, sem que me vejas, lentamente afio as pedras e as facas do fundo das minhas pupilas, para que a noite não me encontre outra vez insone, recomponho sozinho um por um dos teus traços, dos teus pêlos, para que quando esses teus olhos escuros e parados como as águas do mar de inverno na praia onde talvez caminhes ainda, enquanto me adentro em gumes, resvalaram outra vez pelos meus, que seu fio esteja tão aguçado que possa rasgar-te até o fundo, para que te arrastes nesse chão que juncamos todos os dias de papéis rabiscadas e pontas de cigarro, sangrando e gemendo, a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem sempre sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminado por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno porco que me ilumina e me anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós ou o imenso engano de ti e de mim, nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros, à medida que o dia avança estruturando milímetro a milímetro uma harmonia que só desabará levemente em cada roçar temeroso de olhos ou de peles, os gelos, os vermes roendo os porões que insistimos em manter até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele que recusamos tocar por nojo ou covardia ou paixão tão endemoniada que não suportaria a água benta de seu próprio batismo, e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monocórdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba assim nem agora nem aqui.................................................................................................................................................................................................................................................................



Caio Fernando Abreu

carro vermelho.

Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor: onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito: em que direção se vai?


Adélia Prado: O coração disparado

mareada.

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.



Fernando Pessoa

Quadras ao Gosto Popular


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

poema para os dias das lembranças ruins.

Já passou. Acabou. Deixa pra lá. Esquece. Não serve mais. A data venceu. Deixa disso. Pula esse dia. Arranca essa página. Vira o disco. Começa outra música. Faça de conta. Inventa qualquer coisa. Permita que se vá. Feche os olhos. Deixe passar. Aguente. Resista. Sobreviva a este momento. E lembre-se: amanhã é outro dia.

Kelly Shimohiro


sábado, 29 de agosto de 2015

se é pra morrer.



Se é para morrer
quero morrer muitas vezes,
mais do que as que soube ter vivido
e fui eterno sem o saber.

Se é para morrer
morrerei tantas vezes
que entre corpo e tempo
minha alma perderá caminho.

E morrerei
de tudo, em cada instante.

Morrerei até ser árvore,
renascendo em estação
para além do tempo, para além da luz.

Se é para morrer
que seja como o amor:
tanto e sempre
que não será derradeira a última vez.


Mia Couto

CXLIV, 144.

Dois amores - de paz e desespero -
Eu tenho que me inspiram noite e dia:
Meu anjo bom é um homem puro e vero;
O mau, uma mulher de tez sombria.
Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer transformá-lo num diabo,
Tentando-lhe a pureza com a lascívia.
Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem dizer que seja;
Mas longe ambos de mim, e amigos, temo
Que o anjo no fogo já do outro esteja.
Nunca sabê-lo, embora desconfie,
Até que o mau meu anjo contagie.



William Shakespeare


Tradução: Ivo Barroso

6. Desesperada, mente.

Mentira, você não me ama.
Eu também, eu nunca te amei.

Mas o que importa a verdade
quanto esta sede quase mata a gente
e nada mais que uma ilusão ardente
pode saciar a vontade
de ter amor, mesmo fingido, mesmo molhado?

Verdade, eu nunca te amei.
Você também, nunca me amou.

Então diz que me ama. Desesperada, mente.
Te faço confissões alucinadas
e tenho febre ao teu lado do telefone
esperando tuas mentiras descaradas.
Sente, pouco importa a falsidade
e mente, mente, meu amor, espatifada, mente.

É tudo verdade, é tudo mentira.
Vamos voar num tapete voador
de olhos fechados, de mãos enlaçadas
como se houvesse amor, esquecer
que você não me ama
e eu também, eu nunca te amei,
meu amor, minha dor.

Desesperada, mente
mente, mente, meu amor
Alucinada, mente.

Caio Fernando Abreu


Poesias nunca publicadas, Sem data.

5.

A todo momento
tenho a impressão que você
vai entrar por aquela
porta giratória
acompanhado de qualquer pessoa
homem, mulher, não importa
tão pouco especial,
meio bêbado, meio barbado
no fim do domingo
numa mesa ao fundo
do bar, ao som do reggae
acompanhado de minha amiga
tão pouco especiais
no fundo do bar
banal ao som de Joplin
estarei na décima quinta
garrafa de vinho
e o nada, nada mais me resta
a não ser
estar no fundo do bar
e eu estarei lá
à espera de alguém
que não estará lá.
num fundo de bar
num fim de noite
na curva do domingo
nós três, nós mil

tão pouco especiais
jogados no fundo de qualquer coisa
à espera de qualquer coisa
muito especial
entrando por aquela porta giratória.


Caio Fernando Abreu

Poesias nunca publicadas, Sem data

18.

Por te querer mais claro
Mais, mais leve, tangível.
Por te querer, apenas?!
Por tudo isso me tornar assim
escuro, remeto, pesado
gerando em mim mesmo
o que não queria em ti
sem compreender agora
a tarde de silêncios
e moscas sobre os cães
da casa a que não pertencemos
nem pertenceremos nunca
e te afundas em porões sem chaves
enquanto busco o sol
e me pergunto então
o que queria, afinal.


Caio Fernando Abreu.

Poesias nunca publicadas, Sem data.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

nomes .2. almas ou tulipas?



(...)

Uma outra voz, hesitante e tão frágil que Coraline pensou estar imaginando , disse:
- Está... você está viva?
- Sim - sussurrou Coraline.
- Pobre criança - disse a primeira voz.
- Quem são vocês? - sussurrou Coraline.
- Nomes, nomes, nomes - disse uma outra voz, longuíqua e perdida. - Os nomes são os primeiros a partir, depois que a respiração se esvai, e a batida do coração. Guardamos as nossas memórias por mais tempo do que nossos nomes. Ainda trago em minha mente imagens da minha preceptora em uma certa manhã de maio, trazendo consigo meu aro e minha vara, o sol da manhã batendo-lhe nas costas e todas as tulipas agitando-se à brisa. Mas esqueci-me de seu nome e do nome das tulipas também. 
- Não acho que as tulipas tenham nome - disse Coraline. - São apenas tulipas.
- Talvez - disse a voz com tristeza. - Mas sempre achei que aquelas tulipas deveriam ter um nome. Eram vermelhas, alaranjadas e amarelas como a brasa na lareira do quarto de brinquedos em uma noite de inverno. Recordo-me delas.
A voz soava tão triste que Coraline estendeu sua mão para o lugar de onde ela vinha, encontrando uma mão fria. Coraline apertou-a firmemente.
Seus olhos estavam começando a se acostumar à escuridão. Agora, Coraline estava vendo, ou imaginava ver, três formas, cada qual tão lânguida e pálida como a lua durante o dia. Eram formas de crianças aproximadamente do seu tamanho. A mão fria apertou a sua mão de volta.
- Obrigado - disse a voz.

(...)



Neil Gaiman, Coraline

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

11.


maria clara:

me chama qualquer hora
diz como eu te encontro
me leva daqui
perdoa alguma coisa
é que são tantas coisas
dizem que os morangos são eternos
quem disse
suicidou-se no último carnaval
haveria talvez ao longe
uma escola de samba cantando oh jardineira
quem saberá
o dia ficou cinza
sinto falta de você
a cidade mete medo
o abajur da sala queimou
um perfil de nefertiti
você nunca saberá
você nunca mais telefonará
interrogação interrogação interrogação
interrogation mark
singapura
isso é muita cocaína
quero ir embora daqui
quem sabe eu te encontro
não telefonarei
I promise
Sonhei com você
mas só conto se você ligar
você não ligará
comprei uma garrafa de conhaque
mas não consegui sequer beber demais
também não havia motivo
ou sim
depende do ponto de vista
preciso de você
são três horas da tarde
sexta-feira
vinte e quatro de abril de mil novecentos e oitenta e um
não me queria mal
ex-noiva de reagan processada por estelionato
em são paulo brazil
o que foi que aconteceu
alguma coisa partiu
tenho trinta e dois anos
é difícil compreender
isso
y otras cositas más
você tem vinte e quatro anos
e um metro e cinqüenta e dois de altura
eu tenho um metro e oitenta e dois
há vários descompassos
primeiras vezes

ah
primeiras vezes

o primeiro bode de fumo que amarrei
foi no alto da tijuca
faz muito tempo
depois vieram outros bodes
outras drogas
meu terçol no olho direito melhorou
agora estou com um no olho esquerdo
do meu lado tem um pé de guiné
dentro de uma lata de brancol
cola branca para azulejos
são três e pouco da tarde
manda um fonograma
ou qualquer coisa assim
preciso de você
você já não gosta mais de mim
que pena que pena
amanhã é sábado

Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

agosto 13.

Lavava o rosto e organizava as palavras.
Era como se aquele perfume com cheiro de groselha preta e baunilha, que ele me deu, chegasse novamente às minhas narinas. Corri, tratei de respirar. O sábado era de agosto e o céu me salpicava algumas estrelas.


Renata Pires Rocha

terça-feira, 11 de agosto de 2015

soneto 13.

Ah, se pudesses ser quem és! Mas, amado,
Tens a vida apenas enquanto ela pertence a ti.Deverias te preparar para um fim tão próximo,E a outro emprestar o teu doce semblante.


Não tiver um fim, então, viverias
Novamente após a tua morte,
Quando a tua doce prole ostentasse a tua doce forma.
Cuja economia em honra se poderia prevenir


Contra o vento impiedoso dos dias frios,
Ó, quanto desperdício! Meu caro, sabes
Que tiveste um pai: deixa o teu filho dizer o mesmo.



Assim, se a beleza que deténs em vida
Quem poderia ruir uma casa assim tão bela,
E a estéril fúria do eterno estupor da morte?


William Shakespeare

soneto 8.

Doce música, por que a ouves tão triste?
Doçuras não se atacam; a alegria se rejubila;
Por que amas aquilo que não recebes efusivo,
Ou com prazer aceitas teu incômodo?
Se a harmonia de afinados sons
Bem ajustados ofendem o teu ouvido,
Docemente te repreendem, tu que confundes
As partes do que deverias suportar.
Vê como uma corda à outra unida,
São tangidas, de cada vez, mutuamente;
Assemelhando-se a pai e filho, e à feliz mãe,
Que, em uníssono, entoam um doce som;
Cujo canto inaudível, sendo muitos, soa como um,
Assim cantando para ti: 'De nada valerá a tua solidão'.


 William Shakespeare

sábado, 8 de agosto de 2015

.qualquer coisa.

Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
nem as garotas jovens
nem as garotas velhas
nem os homens jovens
nem os homens velhos
nem aqueles no meio-termo
nenhum deles,
não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
Ao invés disso
construa na areia
construa no lixão
construa na fossa
construa nos túmulos
construa na água,
mas não construa nas
pessoas.
Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.
Construa em outro lugar,
qualquer outro,
qualquer
mas não nas pessoas,
massas
sem cabeça, sem coração
emporcalhando os
séculos,
os dias,
as noites,
as cidades, os municípios,
as nações,
a Terra,
a estratosfera,
emporcalhando a
luz,
emporcalhando todas
as chances,
aqui,
emporcalhando completamente
tudo
agora
e amanhã.
Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.
Qualquer coisa.


Charles Bukowski

domingo, 2 de agosto de 2015

.pra machucar os corações: mês do desgosto.

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco: .

Caio Fernando Abreu 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

31

Amanhã começa agosto.
No sul, as paredes mofam em silêncio.
Faltam cinco meses para o fim da década.
Nada mudará. Ficaremos um pouco mais cansados.
Mas nada, nada mudará.

Há cachorros loucos vagando pelos becos
alguns suicídios talvez, pelos banheiros, e velhos
que não resistirão.
Minha avó dizia sempre
 - não sei se passo desse agosto.
E não passou.

Num susto a mão vira o calendário:
Cecília desapareceu no mundo
Rafael aprendeu a brincar com o coração alheio
Paula faz cara de nojo e viaja para Nova Iorque
Ju não escreveu, nem escreverá.
Tudo já faz tanto tempo. Eu sigo acreditando.

Mas no sul
as bergamotas estão mais doces do que nunca
a umidade invadiu todos os cantos da casa
meus olhos amanhecem inchados de pranto nenhum
e secamente
inventariam marcas, desgostos, rostos perdidos,
corações mofados, roupa cinza na guarda da cadeira.

Amanhã começa agosto
outra vez. E continuamos.


30 de julho de 1979


Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 13 de julho de 2015

76.

dia após dia o mesmo prato requentado
tarde da noite e nada aconteceu
desperto no escuro, ainda é cedo pra acreditar
que vai haver futuro e que vale a pena
esperar de banho tomado




Martha Medeiros

quinta-feira, 2 de julho de 2015

11 - aprendendo a voar

há momentos em que baixa a luz
e tudo fica calmo
como há momentos em que baixa a treva
como há momentos também em que juntos
os dois baixam claro escuro
sobre corpo e mente
e tudo fica

há momentos em que não ficamos
há momentos de lucidez em que nem sempre
é bom, isso que vemos
é então que a luz e treva se misturam
sobre corpo e mente
e nada fica

quando verso é reverso sem deixar o verso
quando a cara se torna inseparável da coroa
há momentos, sim e mais momentos sempre
momentos das máquinas que batem e rebatem
(sem parar, entre paixões ferinas)
ou além da janela
o momento de um homem suspenso a dez metros do solo
num poste de lu, contra o céu cinza.



Caio Fernando Abreu

25 de outubro de 1975


o dia de hoje.

5

sim, te pressentia
desde não sei quando
sem esperar, sem saber
sequer que pressentia
nos sonhos, nos inventos
nos futuros que supunha
e nem ainda tinha
nos rostos que mal via
tudo era vago então
difuso aquele tempo
dos corpos que eu não via

apenas tu eu
pressentia claro
nos caminhos de agora
mais que imaginário
no real de cada dia
em cada solidão ardida
te sabia assim
existindo ao meu lado
a falar exatamente
essas coisas fundas
exílios, prisões, partidas
que me falas agora

assim eras
quando eu te pressentia
como é agora
quando te percebo sendo

e
permaneço imóvel
como para não afugentar
uma borboleta pousada por descuido
na palma de minha mão
não digo nada
mas de certa forma

estou completo

apenas
de certa forma


Caio Fernando Abreu
8 de julho de 1980


o dia de hoje.

o início

terça-feira, 23 de junho de 2015

merecedor(a).



If you’re struggling, you deserve to make self-care a priority. Whether that means lying in bed all day, eating comfort food, putting off homework, crying, sleeping, rescheduling plans, finding an escape through a good book, watching your favorite TV show, or doing nothing at all — give yourself permission to put your healing first. Quiet the voice telling you to do more and be more, and today, whatever you do, let it be enough. Feel your feelings, breathe, and be gentle with yourself. Acknowledge that you’re doing the best you can to cope and survive. And trust that during this time of struggle, it’s enough. 




Daniell Koepke

Fotografia por Agustin Paredes Photography

terça-feira, 16 de junho de 2015

9.


acenda um fósforo em mim, não queima
perfure com uma faca, não jorra
cuspa na minha cara, não escorre 
quase nada me traz consequência 
não há aderência em gente que teima 

Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e Outros Poemas

100.

Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar.

Sumi porque não há futuro e isso até não é o mais difícil de lidar, o pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.

Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós que o nosso amor e sua desejada e irrefletida permanência.

Cartas Extraviadas, Martha Medeiros.

sábado, 13 de junho de 2015

19.


surpreendentemente, ele não me deixou
ele não fez o que disseram que iria fazer,
as revistas,
ele não se comportou como exigiam,
os mandamentos,
ele não se rendeu às evidências.

comovente, ele muito mais me amou,
fez o que disse que iria fazer,
meu coração,
não se enquadrou no personagem,
foi mais longe,
superou a si e a todos, chorou e teve paciência.


Martha Medeiros, Cartas Extraviadas e Outros Poemas

quarta-feira, 10 de junho de 2015

coraline?

Gatos não têm ombros, não como as pessoas; mas ele encolheu-se em um movimento suave que começava na porta do rabo e terminava no gesto de elevação dos bigodes.
 - Eu sei falar.
 - Lá em casa, os gatos não falam.
 - Não? - perguntou o gato.
 - Não - respondeu Coraline.
O gato pulou gentilmente do muro para a grama perto dos pés de Coraline. Olhou-a fixamente.
 - Bem, é você a especialista - disse o gato secamente - Afinal, que eu sei? Sou apenas um gato.
Foi se afastando com a cabeça e a cauda erguidas orgulhosamente.
 - Volte - disse Coraline. - Por favor, desculpe-me. Sinceramente, desculpe-me.
O gato parou de andar, sentou e começou a se lamber pensativo, aparentemente sem perceber a existência de Coraline.
 - Nós.. poderíamos ser amigos, sabe? - disse Coraline.
 - Nós poderíamos ser espécimes raros de uma raça exótica de elefantes africanos - respondeu o gato.  - Mas não somos. Pelo menos - acrescentou felinamente depois de disparar um rápido olhar para Coraline -, eu não sou.
Coraline suspirou.
 - Por favor, qual é o seu nome? - perguntou ao gato. - Olha, sou a Coraline. Tá?
O gato bocejou lenta e cuidadosamente, revelando uma boca e uma língua de um rosa impressionante.
 - Gatos não têm nomes - disse.
 - Não? - perguntou Coraline.
 - Não - respondeu o gato. - Agora, vocês pessoas têm nomes. Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes.

(...)

A senhorita Forcible e a senhorita Spink estavam agora representando algumas cenas. A senhorita Forcible, sentada sobre uma escadinha, e a sonhorita Spink, de pé junto ao primeiro degrau.
 - Que importância tem um nome? - perguntou a senhorita Forcible. - Aquilo a que chamamos rosa qualquer outro nome teria o perfume igualmente doce.


Neil Gaiman

Coraline

segunda-feira, 8 de junho de 2015

mar azul.

mar azul 
mar azul      marco azul 
mar azul      marco azul      barco azul 
mar azul      marco azul      barco azul      arco azul 
mar azul      marco azul      barco azul      arco azul      ar azul

Ferreira Gullar

sexta-feira, 5 de junho de 2015

pela passagem de uma grande dor.

(Ao som de Erik Satie)


A primeira vez que o telefone tocou ele não se moveu. Continuou sentado sobre a velha almofada amarela, cheia de pastoras desbotadas com coroas de flores nas mãos. As vibrações coloridas da televisão sem som faziam a sala tremer e flutuar, empalidecida pelo bordô mortiço da cor de luxe de um filme antigo qualquer. Quando o telefone tocou pela segunda vez ele estava tentando lembrar se o nome daquela melodia meio arranhada e lentíssima que vinha da outra sala seria mesmo “Desespero agradável” ou “Por um desespero agradável”. De qualquer forma, pensou, desespero. E agradável.
A luz de mercúrio da rua varava os orifícios das cortinas de renda misturando-se, azulada, à cor meio decomposta do filme. Pouco antes do telefone tocar pela terceira vez ele resolveu levantar-se — conferir o nome da música, disse para si mesmo, e caminhou para dentro atravessando o pequeno corredor onde, como sempre, a perna da calça roçou contra a folha rajada de uma planta. Preciso trocá-la de lugar, lembrou, como sempre. E um pouco antes ainda de estender a mão para pegar o telefone na estante, inclinou-se sobre as capas de discos espalhadas pelo chão, entre um cinzeiro cheio e um caneco de cerâmica crua quase vazio, a não ser por uns restos no fundo, que vistos assim de cima formavam uma massa verde, úmida e compacta. “Désespoir agréable”, confirmou. Ainda em pé, colocou a capa branca do disco sobre a mesa enquanto repetia mentalmente: de qualquer forma, desespero. E agradável.
— Lui? — A voz conhecida. — Alô? É você, Lui?
— Eu — ele disse.
— O que é que você está fazendo?
Ele sentou-se. Depois estendeu o braço em frente ao rosto e olhou a palma aberta da própria mão. As pequenas áreas descascadas, ácido úrico, diziam, corroendo lento a pele.
— Alô? Você está me ouvindo?
— Oi — ele disse.
Perguntei o que é que você estava fazendo?
— Fazendo? Nada. Por aí, ouvindo música, vendo tevê. — Fechou a mão. — Agora ia fazer um café. E dormir.
Hein? Fala mais alto.
— Mas não sei se tem pó.
—O quê?
— Nada, bobagem. E você?
Do outro lado da linha, ela suspirou sem dizer nada. Então houve um silêncio curto e em seguida um clique seco e uma espécie de sopro. Deve ter acendido um cigarro, ele pensou. Dobrou mecanicamente o corpo para a esquerda até trazer o cinzeiro cheio de pontas para o lado do telefone.
— Que que houve? — perguntou lento, olhando em volta à procura de um maço de cigarros.
— Escuta, você não quer dar uma saída?
— Estou cansado. Não tenho cabeça. E amanhã preciso acordar muito cedo.
— Mas eu passo aí com o carro. Depois deixo você de novo. A gente não demora nada. Podia ir a um bar, a um cinema, a um.
— Já passa das dez — ele disse.
A voz dela ficou um pouco mais aguda.
— E vir aqui, quem sabe. Também você não quer, não é? Tenho uma vodca ótima. Daquelas. Você adora, nem abri ainda. Só não tenho limão, você traz? — A voz ficou subitamente tão aguda que ele afastou um pouco o fone do ouvido. Por um momento ficou ouvindo a melodia distante, lenta e arranhada do piano. Através dos vidros da porta, com a luz acesa nos fundos, conseguia ver a copa verde das plantas no jardim, algumas folhas amareladas caídas no chão de cimento. Sem querer, quase estremeceu de frio. Ou uma espécie de medo. Esfregou a palma seca da mão esquerda contra a coxa. A voz dela ficou mais baixa quando perguntou:
— E se eu fosse até aí?
Os dedos dele tocaram o maço de cigarros no bolso da calça. Ele contraiu o ombro direito, equilibrando o fone contra o rosto, e puxou devagar o maço.
— Sabe o que é — disse.
—Lui?
Com os dentes, ele prendeu o filtro de um dos cigarros. Mordeu-o, levemente.
— Alô, Lui? Você está aí?
Ele contraiu mais o ombro para acender o cigarro. O fone quase se desequilibrou. Tragou fundo. Tornou a pegar o fone com a mão e soltou pouco a pouco o ombro dolorido soprando a fumaça.
— Eu já estava quase dormindo.
— Que música é essa aí no fundo? — ela perguntou de repente.
Ele puxou o cinzeiro para perto. Virou a capa do disco nas mãos.
— Chama-se “Por um desespero agradável” — mentiu. — Você gosta?
— Não sei. Acho que dá um pouco de sono. Quem é?
Ele bateu o cigarro três vezes na borda do cinzeiro, mas não caiu nenhuma cinza.
— Um cara aí. Um doido.
— Como ele se chama?
— Erik Satie — ele disse bem baixo. Ela não ouviu.
— Lui? Alô, Lui?
— Digue.
— Estou te enchendo o saco? — Outra vez ele escutou o silêncio curto, o clique seco e o sopro leve. Deve ter acendido outro cigarro, pensou. E soprou a fumaça.
— Não — disse.
— Estou te enchendo? Fala. Eu sei que estou.
— Tudo bem, eu não estava mesmo fazendo nada.
— Não consigo dormir — ela disse muito baixo.
— Você está deitada?
— É, lendo. Aí me deu vontade de falar com você.
Ele tragou fundo. Enquanto soprava a fumaça, curvou outra vez o corpo para apanhar
o caneco de cerâmica. Enfiou o indicador até
o fundo, depois mordiscou as folhas miúdas
com os incisivos e perguntou:
— O que é que você estava lendo?
— Nada, não. Uma matéria aí numa revista. Um negócio sobre monoculturas e sprays.
— What about?
—Hein?
— O que você estava lendo.
Ela tossiu. Depois pareceu se animar.
— Umas coisas assim, ecologias, sabe? Dizque se você só planta uma espécie de coisa na terra por muitos anos, ela acaba morrendo. A terra, não a coisa plantada, entende? Soja, por exemplo. Dizque acaba a camada de húmus. Parece que eucalipto também. Depois aos poucos vira deserto. Vão ficando uns pontos assim. Vazios, entende? Desérticos. Espalhados por toda a terra.
O disco acabou, ele não se mexeu. Depois, recomeçou.
— Assim como se você pingasse uma porção de gotas de tinta num mata-borrão — ela continuou. — Eles vão se espalhando cada vez mais. Acabam se encontrando uns com os outros um dia, entende? O deserto fica maior. Fica cada vez maior. Os desertos não param nunca de crescer, sabia?
— Sabia — ele disse.
— Horrível, não?
— E os sprays?
—O quê?
— Os sprays. O que é que tem os sprays?
— Ah, pois é. Foi na mesma revista. Diz que cada apertada que você dá assim num tubo de desodorante. Não precisa ser desodorante, qualquer tubo, entende? Faz assim ah, como é que eu vou dizer? Um furo, sabe? Um rombo, um buraco na camada de como é mesmo que se diz?
— Ozônio — ele disse.
— Pois é, ozônio. O ar que a gente respira, entende? A biosfera.
— Já deve estar toda furadinha então — ele disse.
—O quê?
— Deve estar toda furada — ele repetiu bem devagar. — A camada. A biosfera. O ozônio.
— Já pensou que horror? Você sabia dis so
Lui?
Ele não respondeu.
— Alô, Lui? Você ainda está aí?
— Estou.
— Acho que fiquei meio horrorizada. E com medo. Você não tem medo, Lui?
— Estou cansado.
Do outro lado da linha, ela riu. Pelo som, ele adivinhou que ela ria sem abrir a boca, apenas os ombros sacudindo, movendo a cabeça para os lados, alguns fios de cabelo caídos nos olhos.
— Não estou te alugando? — ela perguntou. — Você sempre dizque eu te alugo. Como se você fosse um imóvel, uma casa. Eu, se fosse uma casa, queria uma piscina nos fundos. Um jardim enorme. E ar-condicionado. Que tipo de casa você queria ser, Lui?
— Eu não queria ser casa.
- Como?
— Queria ser um apartamento.
— Sei, mas que tipo?
Ele suspirou:
— Uma quitinete. Sem telefone.
— O quê? Alô, Lui? Você não ia mesmo fazer nada?
— Um chá, eu ia fazer um chá.
— Não era café? Me lembro que você falou que ia fazer café.
— Não tem mais pó. — Ele lambeu a ponta do indicador, depois umedeceu o nariz por dentro. Então sacudiu o cinzeiro cheio de pontas queimadas e cinza. Algumas partículas voaram, caindo sobre a capa branca do disco, com um desenho abstrato no centro. Com cuidado, juntou-as num montinho sobre o canto roxo da figura central. — Nem coador de papel. E acabei de me lembrar que tenho um chá incrível. Tem até uma bula louquíssima, quer ver? Guardei aqui dentro. — Ele equilibrou o fone com o ombro e abriu a cadernetinha preta de endereços.
— Chá não tem bula — ela resmungou. Parecia aborrecida, meio infantil. — Bula é de remédio.
— Tem sim, esse chá tem. Quer ver só? — Entre duas fotos polaroid desbotadas, na contracapa da caderneta, encontrou o retângulo de papel amarelo dobrado em quatro.
— Lui? Você não quer mesmo vir até aqui? Sabe — ela tornou a rir, e desta vez ele imaginou que quase escancarava a boca, passando devagar a língua pelos lábios ressecados de cigarro —, eu acho que fiquei meio impressionada com essa história dos desertos, dos buracos, do ozônio. Lui, você acha que o mundo está mesmo no fim?
Ele desdobrou sobre a mesa o papel amarelo, ao lado das duas fotos tão desbotadas quanto as manchas redondas de xícaras quentes na madeira escura. Uma das fotos era de uma mulher quase bonita, cabelos presos e brincos de ouro em forma de rosas miudinhas. A outra era de um rapaz com blusa preta de gola em V, o rosto apoiado numa das mãos, leve estrabismo nos olhos escuros.
— Sem falar nas usinas nucleares — ele disse. E com a ponta dos dedos, do canto roxo do desenho na capa do disco, foi empurrando o montículo de cinzas por cima das formas torcidas, marrom, amarelo, verde, até o espaço branco e, por fim, exatamente sobre o rosto do rapaz da foto.
— Lui? — ela chamou inquieta. — Encontrou o negócio do tal chá?
— Encontrei.
— Você está esquisito. O que é que há?
— Nada. Estou cansado, só isso. Quer ver o que diz a bula? É inglês, você entende um pouco, não é? — Ela não respondeu. Então ele leu, dramático: —... is exceilent for ali types of nervous disorders, paranoia, schizophrenia, drugs effects, digestive problems, hornionai diseases and other disorders... — Começou a rir baixinho, divertido: — Entendeu?
— Entendi — ela disse. — É um inglês fácil, qualquer um entende. Porreta esse chá, hein? É inglês?
Ele continuou rindo:
— Chinês. Aqui embaixo diz produced in China. — Com a cinza, cobriu todo o olho estrábico do rapaz. — Drugs effects é ótimo, não é?
— Maravilhoso — ela falou. — O disco tá tocando de novo, já ouvi esse
— Tá bom — ela disse.
— Tá bom — ele repetiu. E pensou que quando começavam a falar desse jeito sempre era um sinal tácito para algum desligar. Mas não quis ser o primeiro.
— Vou tirar amanhã — ela falou de re pente.
—Hein?
— Nada. Vai fazer teu chá.
— Tá bom. Aqui diz também que tem vitamina E. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma. — Não é essa que é boa para a pele?
— Acho que aquela é a A. Não entendo muito de vitaminas.
— Nem eu. A C eu sei que é a da gripe, todo mundo sabe. Qual será a que cura os tais drugs effects? Cheirei todas hoje. Estou com aquele... vazio intenso, sabe como?
— Não sei. — De repente ela parecia apressada. — Vou desligar.
— Você ligou o rádio?
— Ainda não. Como é mesmo o nome dessa música?
— “Por um desespero agradável” — ele mentiu outra vez, depois corrigiu: — Não. É só “Desespero agradável”.
— Agradável?
— É, agradável. Por que não?
— Engraçado. Desespero nunca é agradável.
— Às vezes sim. Cocaína, por exemplo.
— Você só pensa nisso?
— Não, penso em fazer um chá também.
— Hein?
— Mas essa que tá tocando agora é outra, ouça. — Ele ergueu um momento o fone no ar em direção às caixas de som e ficou um momento assim, parado. — São todas muito parecidas. Só piano, mais nada. — A cinza cobria o rosto inteiro do rapaz na foto. — Essa agora chama-se “À l’occasion d’une grande peine”.
— Sei.
— É francês.
— Sei.
— Pena, dor. Não pena de galinha. Uma grande dor. Occasion acho que é ocasião mesmo. Mas podia ser passagem. Melhor, você não acha? Passagem parece quejá vai embora, que já vai passar. O que é que você acha?
— Vou ver se durmo. — Ela bocejou. — Francês, inglês, chá chinês. Você hoje está internacional demais para o meu gabarito.
— Escapismo — ele disse. E acendeu outro cigarro.
— Uma pena que você não queira mesmo sair. — A voz dela parecia mais longe. — Estou pensando em abrir mesmo aquela garrafa de vodca.
— Antes de dormir? — ele falou. — Toma leite morno, dá sono. Põe bastante canela. E mel, açúcar faz mal.
— Mal? Logo quem falando...
— Faça o que eu digo, não faça o que eu. A cinza descia pelo pescoço, quase confundida com o preto da gola. A voz dela soava um tanto irônica, quase ferina.
— Ué, agora você resolveu cuidar de mim, é?
— Vou fazer meu chá — ele disse.
— Como é mesmo que se pronuncia?
Esquizôfrenia?
— Não, é squizofrênia. Tem acento nesse e aí. E se escreve com esse, cê, agá. Depois tem também um pê e outro agá. Tem dois agás.
— E nenhum ipsilone? Nenhum dábliu? — ela perguntou como se estivesse exausta. E amarga. — Adoro ipsilones, dáblius e cás. Tão chique.
— D ‘accord — ele disse. — Mas não tem nenhum.
— Tá bom — ela riu sem vontade. Em seguida disse tchau, até mais, boa-noite, um beijo, e desligou.
Ele abriu a boca, mas antes de repetir as mesmas coisas ouviu O clique do fone sendo colocado no gancho do outro lado da cidade. O disco chegara novamente ao fim, mas antes que recomeçasse ele curvou-se e desligou o som. Em pé, ao lado da mesa, amarfanhou o papel amarelo e jogou-o no cinzeiro. Depois soprou as cinzas do rosto do rapaz. Algumas partículas caíram sobre a foto da mulher. Andou então até o pequeno corredor, curvou-se sobre a planta e com a brasa do cigarro fez um furo redondo na folha. Respirou fundo sem sentir cheiro algum. A sala continuava mergulhada naquela penumbra bordô, baça, moribunda, a almofada fosforescendo estranhamente esverdeada à luz azul de mercúrio. Ele fez um movimento em direção ao telefone. Chegou a avançar um pouco, como se fosse voltar. Mas não se moveu. Imóvel assim no meio da casa, o som desligado e nenhum outro ruído, era possível ouvir o vento soprando solto pelos telhados.



Caio Fernando Abreu