segunda-feira, 5 de outubro de 2015

é tempo de morrer. (é?).

Eu havia colocado no toca-discos um disco velho, poemas do Vinícius e Drummond, daqueles que, com o tempo, começam a chiar e a pular. O próprio Vinícius, com sua voz de sussurro, recitava, e agora chegava a vez do último poema, O Haver, que é um balanço da vida, tanto que todas as estrofes começam com a mesma palavra Resta; foi isso que sobrou.

"Resta essa capacidade de ternura,
Essa intimidade perfeita cora o silêncio […]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido […]
Resta essa faculdade incoercível de sonhar […]
[…] e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança…"

E os resta se sucederam, até chegar ao resta final. Assim é a vida. Tudo o que é belo, para permanecer belo, tem de ter um fim. Assim é com o pôr-de-sol que é belo porque suas cores são efêmeras e em poucos minutos se vão. Assim é também a sonata que é bela porque sua vida é curta. Se ela não tivesse fim e ficasse tocando eternamente, é certo que o seu lugar seria entre os instrumentos de tortura do inferno.

Até o beijo… Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca? A vida precisa de descanso. Lembro-me de um poema de Fernando Pessoa em que ele dizia ter dó. das estrelas, que tinham de ficar brilhando, brilhando, sem nunca descansar… O poema tinha de morrer. A sua beleza o exigia. No lugar da sua morte ficaria o vazio silencioso. Nasceria então uma outra coisa no seu lugar: a saudade. A saudade é flor que só floresce na ausência. É nela que se dizem as orações suplicando dos deuses a graça de repetição da beleza. E é só para isso que existem os deuses: para garantir o retorno do belo. A voz do Vinícius ficou mais baixa. É preciso sussurrar quando o fim se aproxima.

"Resta esse diálogo cotidiano com a morte,
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
ela virá me abrir a porta como uma velha amante […]
E eu automaticamente me adiantei, recitando em silêncio o último verso:
[…] sem saber que é minha mais nova namorada."

Foi então que o imprevisto aconteceu: a agulha pulou para trás. Achou o poema tão bonito que se recusou a ser cúmplice da sua morte. Fez como fazem médicos e parentes, que não permitem a morte do ente querido. Mas o que aconteceu não foi o que a agulha queria. O belo não se prolongou. Ele fugiu. E, no seu lugar, o grotesco, o feio, o que não deveria ser… Uma repetição sem sentido: sem saber que é a minha mais nova… sem saber que é a minha mais nova… sem saber que é a minha mais nova… E assim teria ficado, eternamente se eu, por puro amor, não tivesse ajudado o poema a morrer: levantei-me do meu lugar, fui até o toca-discos, e consumei o assassinato: empurrei suavemente o braço com o meu dedo. O poema se disse até o fim, morreu e ficou perfeito. Depois foi o silêncio.

Pensei que aquilo tinha sido uma parábola da vida. O que se pede da vida é que ela seja bela como um poema. Mas, para ser bela, eternamente, ela há de saber morrer. Está lá, dito no texto sagrado, que para tudo há o tempo certo.

Há um tempo de nascer e há também um tempo de morrer. Aprendemos a contar os meses da gravidez e a marcar o dia do parto. Mas quando aprenderemos a reconhecer o momento de morrer? O nosso corpo sabe. E não quer ficar, depois da hora. Ele também tem dó das estrelas, que brilham sem descanso.

Acho que seria isso que a vida diria, como seu último desejo, se os vivos a ouvissem: que o fim seja calmo como o crepúsculo, que seja decidido como o último acorde de uma sonata, e que se saiba haver chegado o momento quando se reencontra a velha amente com a alegria de quem abraça a mais nova namorada.

Que os médicos e parentes, por amor à beleza, deixem o poema se dizer, até o fim. Por favor, não ponham o dedo ao contrário, no braço do toca discos. 


Rubem Alves

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