terça-feira, 27 de setembro de 2016

fortaleza, tanto de tanto de dois mil e tanto



eu poderia morar em nossos encontros
eu poderia narrar todos os nossos momentos em palavras infinitas
eu poderia nos eternizar nas incontáveis sonatas
mas toda poesia, para ser bela, precisa ter um final

nós não somos perpétuos se não no momento
fomos

guardo de ti a mágoa de me fazer duvidar do real
da tristeza da deserção
das conversas não respondidas

guardo em mim toda a beleza que enxerguei em nós
e nos céus dos domingos
e isso você não pôde tirar de mim

em nossa despedida,
o mar guardou o corpo perpétuo e
a casa com as setenta mil plantas
guardará?

lamento amargamente apenas por não saber a quem endereçar
mais essa carta extraviada
mais essa que nunca chegará.

letícia lima.
.perpétuer.


.tardei em me matar



a foto é preta e branca
o vestido é meu
o suor é teu
o instrumento eu nem sei
mas tal momento foi nosso

e isso foi ou era
antes de eu saber das vizinhas
a de baixo
a de cima
e as tuas palavras falsas

me pergunto quem viveu
aqueles momento além de eu
ou se toda a energia 
foi um delírio 
da minha patologia diagnosticada

é vertiginoso não saber o que fazer
estar doente
além dessa crise de garganta
e continuar a comer sorvete
e continuar a fumar cigarro

daqui a uma semana eu morro
mas vivo uma semana

letícia lima.
.perpétuer.

domingo, 25 de setembro de 2016

.texto cruel demais para ser lido rapidamente

escrevo esse texto diretamente do chuveiro com um sorriso de puta nos olhos e os dentes truncados trincados trancados
que se foda
eu pinto as unhas do pé de vermelho porque um cara disse que era coisa de vagabunda e eu ri
porque é o que eu faço
te pergunto se assistiu donnie darko mas nem ligo pra resposta. 
toda criatura morre sozinha ou quase isso, foi o que ela disse, não foi?
não te dói saber disso? ou você está conformado com a triste verdade sobre o fim dos seus dias? morremos só, orson também disse
e disse que nos iludimos com os outros para que a dor do reconhecimento seja amena
sabe? a gente gosta de mentiras
esses homenzinhos tão repletos de cenas de sexo na cabeça poetizando suas musas sem rosto e pintas no corpo enquanto eu apodreço nos esgotos virtuais da literatura moderna
se eu abrir as pernas, você me escreve um poema?
e esse poema mata a minha fome de amor, adorável mentiroso? ela mata alguma coisa além da minha esperança em ser algo significativo?
outro sorriso enquanto a água desliza pelas curvas que a minha gordura faz em torno dos meus músculos e ossos já cansados da rotina que tritura nossos sonhos
falo num plural hipotético porque eu também minto, meu amor. sou outra ilusão criada pelos seus olhos tão necessitados de paz, mas eu não sei ser tão difícil como as garotas que você apresenta aos seus amigos
eu não sei te enrolar num carretel de mistérios como a garota com quem você atualiza seu status de relacionamento no facebook
tô num carrossel de medos mortais, cara
e a gente sangra pelos poros aqui
e venta forte
talvez eu tenha sorte no azar
toda destruição é uma espécie de criação, donnie?
quando então eu vou nascer para a mesma covardia
que sorri inteira toda vez que, às sexta-feiras, vem correndo me matar?

.argila e bordado



Não sei bem se as imagens que crio das pessoas que gosto é porque sou borderline ou se todos criam essas imagens e só lidam melhor com a perda delas do que eu.
A primeira imagem forte que tenho era ele e eu na vila de pescadores ele saía pra pescar e de noite fazíamos fogueira assávamos peixes médios batatas inglesas batatas doces cozinhávamos bananas de cartola e nosso filho estaria cagando as fraldas a música alta tocando até tal hora todos com as bochechas vermelhas você negro as paredes todas coloridas pintadas meio bagunçado cheirando bem eu levando caldos na praia e leríamos muito de um jeito bem pedante nas várias redes de palha da varanda teríamos bichos nossos e veríamos filmes até os olhos irritarem. A única coisa real disso era que teu sinal no canto do olho continuava alí e só não gostava do meu jeito.
A segunda eu não entendia e não quis soltar, era ele e eu deitados por horas por dias num colchão falando besteira fedendo bebendo abraçados de todos os jeitos possíveis eu lhe levando sushi em casa eu lhe comprando tantos livros com dedicatórias escritas com vontade acampando fodendo fazendo coisas estranhas vendo coisas estranhas. A única coisa real disso eram os abraços e só passou a ver futuro com alguém que não era mais eu.
Imagens bem ridículas e burras criadas por mim. Não posso, eu e elas não podemos nos envolver por homens que não sentem os cheiros e não se encantam com eles, tem sempre os que sentem pouco de vários cheiros e os que só pensam que sentem e se perdem no que dizem gosto. As mulheres arrancam o friz, arrancam os pelos, fingem posturas e orgasmos, afagam as dores do mundo por quem não sentiu o cheiro e abusou do gosto da manda rosa em poucos tempos. A mulher só, usada, largada, suja, viva, tá sempre aprendendo a se fortalecer de tempos em tempos e a usar o tempo com algo mais vivo e forte, e que lhe renda algumas listas que vão de comprar argila e cacto à aprender bordado. Ninguém sabe o limite desses ciclos de mágoas, esqueceram de perguntar as mulheres suicidas, que ainda curtem um mel e lembram saudosamente daquela que sentiu o vento do último pulo.

Lorena Lopes