domingo, 13 de setembro de 2015

poeta quer ser poema.

não estou nua como sou: estou nua como tu me vês. olhas para mim e eu vejo-me sendo observada. me empenho ao teu conceito de beleza. mexo no cabelo, dou de ombros, mordo os lábios, assovio uma melodia popular…
mas tu nada falas, não me escreves um poema, um soneto de amor. e é até lógico que não, pois poeta eu que sou. e por isso mesmo, também penso em ser tema, em ser teu verso. palavra.
tu somente me olhas: internalizas minha imagem: enquadra: foca: resguarda: admira: cuida para que eu não perceba. mas não me expõe, não me libera ao sensível, não ateia o meu eu-fogo-lírico ao papel.
poeta que permaneço, sou e permaneço para que me leias, e só quando me lês é que existo de fato. de fato e não foto. foca: só quando me lês é que me vês nua como sou.
e se minha nudez acaso provocar em ti uma ânsia lírica, não te demores: demore assim: pega a alma: torce: escorre as teimosias: torna a ser poeta: versa sobre mim.


Nenhum comentário:

Postar um comentário