segunda-feira, 13 de junho de 2016

.luciana


Luciana morta dentro do caixão enorme. Sobre a mesa, quatro velas ardendo. Coroas de flores por toda parte. A chuva batendo nas vidraças, o vento inclinando plátanos e eucaliptos, que despiam suas folhas para jogá-las contra a janela. A chuva esmaecia o contorno dos corpos, apagava o rosto das pessoas, suavizando os ângulos dos objetos para transformar tudo numa massa cinzenta, aqui e ali entrecortada por soluços. Caminhos de lama pelo chão, coisas de fora que as solas dos sapatos das pessoas traziam e depositavam no assoalho encerado dois dias antes pela própria Luciana.
Maurício encolheu-se no fundo da poltrona, enrolando-se mais no cobertor. Mamãe o mandara ficar ali, sem se mover, com um rosto tão sério que ele nem sequer se atrevia a mudar de posição. A perna já estava dormente, como se cravassem nela mil agulhas muito finas e compridas. Luciana não ia voltar nunca mais, ele sabia. E agora, meu Deus, como seria agora nas noites de chuva e vento — como hoje — quando ela vinha com seus braços cheirosos e seu sorriso bonito afastar o medo e a insônia — como seria, meu Deus? Veio uma ardência nos olhos. Uma sugestão de lágrima dançou úmida no pensamento. Mas ele a afastou, medo e vergonha de ceder: “Seja homem”, Luciana dizia. “Homem não chora.”
Como vai ser, Luciana? Me diz, como vai ser quando eu estiver com resfriado e tu não estiveres pra me dar chá de laranjeira? Como vai ser quando entrar um caco de vidro no meu pé e não tiver ninguém pra botar mercúrio e esparadrapo? Luciana, me diz, quem é que vai fazer pandorga pra mim quando estiver ventando um ventinho bom? Quem vai fazer doce de abóbora e me deixar comer a rapa no fundo do tacho? Quem vai escolher forquilha boa pra me fazer um bodoque? Quem Luciana, quem?
As lágrimas começavam a escorrer, ele não tinha mais vergonha. Quentes, desciam pelas faces, ensopando o cobertor, pingando sobre o chão
encerado — ainda anteontem, meu Deus — por Luciana. E Maurício não sabia se chorava por ela ou por si mesmo, sem Luciana. Sentia-se pequenino, só, perdido dentro do cobertor, aquele tremor que não era frio nem medo: uma tristeza fininha como as agulhas cravadas na perna dormente, vontade de encostar a cabeça no ombro de alguém que contasse baixinho uma história qualquer.
Olhou em volta. Não conseguia distinguir os rostos das pessoas. Sabia que ali estavam vizinhos, comadres, que aquela sombra de farda verde, cabeça enterrada nas mãos abertas, era o noivo de Luciana, que o vulto mais soluçante de todos era o de tia Violeta. Sabia, mas não podia acreditar que fossem eles mesmos. Quem sabe se não estavam todos fazendo de conta e de repente alguém ia dar uma grande risada enquanto Luciana levantava do caixão, atirando para longe os panos roxos e as flores que afogavam seu rosto, quem sabe? Chegou a mexer a perna, tirou o pescoço para fora do cobertor. Agora, pensou com força. Cravou as unhas nas palmas das mãos, fechou os olhos, aguardou a risada que viria acabar com tudo. Agora, repetiu. Foi baixando novamente a cabeça, os lábios roçando pelo pano áspero de lã. Agora agora agora. Mas nada acontecia além das conversas que saíam das bocas das pessoas e rolavam até seus ouvidos, incompreensíveis:
— Mas como foi fazer isso? Uma moça boa, forte, bonita, alegre, trabalhadeira... — ... noiva — acrescentou alguém de voz rouca.
— É mesmo, ainda mais essa. Fico com pena é do rapaz. Dela, não, porque, afinal, o que é que a gente importa neste vale de lágrimas?
— Nada — respondeu a voz rouca.
Uma terceira voz intrometeu-se na conversa. Voz de cachorro, Maurício pensou, descobrindo no fim das palavras tons agudos que lembravam latidos.
— Diz que o padre nem quis encomendar o corpo da infeliz.
— É pecado — disse a voz rouca.
A primeira tornou a falar:
— Foi formicida, não foi?
A voz de cachorro, que parecia bem-informada, esclareceu:
— Não. Soda cáustica.
— Aceita um cafezinho? — perguntou de repente uma outra voz.
Maurício escondeu as orelhas no cobertor. Não queria mais ouvir. Passou as mãos pelos tornozelos fazendo-as subir até os joelhos, onde se detiveram sobre uma casquinha de ferida. Tiro ou não tiro? Acariciou a casquinha, deixando deslizar entre os dedos a forma arredondada. Lembrou a voz de Luciana, uma voz lustrosa, entremeada de reflexos de riso: “Tira nada, guri. Olha que as tripas saem por aí.” E ele não tirava. Então ela vinha com a água oxigenada, algodão, iodo, gaze, e curava o machucado tão bem que até dava vontade de se machucar de novo. Suspirou, a perna começando a adormecer outra vez.
As pernas grossas de Luciana, os seios fartos de Luciana, as cadeiras largas de Luciana — tudo enrolado em panos roxos, preso dentro do caixão. O caixão enrolado em flores que transbordavam sobre a mesa, algumas escapulindo para o chão, esmagadas por pés cobertos de lama. Aquilo era o começo do nunca mais, pensou Mauricio. E repetiu em pensamento: nunca nunca nunca mais. Porque quando uma pessoa morria, era para sempre. Mas não conseguia compreender palavras grandes como essas: nunca, sempre. Havia o dia de ontem, o dia de hoje e o dia de amanhã. Havia mesmo os dias de uma semana atrás, de um mês ou, com um grande esforço que quase fazia a cabeça estourar, os dias de um ano atrás. Mas sempre era muito mais que um ano; e nunca, muito menos que um segundo. Sempre e nunca — ele imaginava uma coisa muito grande e branca, que a gente olhava debaixo para cima, sem conseguir ver onde terminava. Luciana ia ficar para sempre na parede branca, para nunca mais voltar.
Bocejou sem querer, o pensamento difícil fazendo o sono pesar nas pálpebras que ameaçavam fechar. De repente sua atenção voltou-se para a silhueta que surgia na porta. Era vovó, com seus cabelos cor de cinza, as rosas murchas no lugar das mãos. Aproximava-se com firmeza do caixão, os tacos grossos dos sapatos batendo fortemente no assoalho, fazendo as conversas morrerem, transformadas num murmúrio de expectativa. Por um segundo Maurício imaginou que ela fosse sacudir Luciana pelo ombro e dizer com voz seca: “Vamos, sua china preguiçosa, chega de folga. Já chega de
estar se refestelando aí nessa maciota de panos e flores.” imaginou e desejou, desejou que ela dissesse, vamos, vovó, diga. Esqueceu da perna, a boca entreaberta por um bocejo que não se completou. Diga, vovó, diga. Mas a velha curvou-se sobre o caixão, afastou o lenço e depositou um beijo na face branca de Luciana.
Maurício escondeu o rosto. Não era raiva o que sentia, era de novo aquela tristeza fininha, agulhando seu pensamento, seu coração. Arrancou com força a casca de ferida do joelho, espiou por baixo do cobertor. Mas o sangue não veio. Então ergueu os olhos, ficou olhando as folhas de platanos coladas à vidraça, a cabeleira despenteada dos eucaliptos. O vento, a chuva. A noite que vinha chegando. Tornou a afundar a cabeça na quentura úmida do cobertor. Como vai ser, como vai ser, Luciana?, perguntou baixinho. Mas ninguém respondeu.
Esperava ansioso as noites de inverno quando o minuano uivava enfurecido, com vontade de derrubar a casa. Encolhia-se no fundo dos lençóis, o peso dos acolchoados esquentando o corpo, vontade de ficar uma vida inteirinha ali, esquecido de tudo, de todos. Era nessas noites que Luciana vinha. Vinha com seu corpo grande, seu sorriso bonito, uma xícara de leite morno, um pedaço de bolo. E as reclamações:
— Deita aí, seu pestinha. Fica se fresqueando nesse vento frio e acaba pegando uma constipação. Depois a gente é que sofre o dia inteiro, cuidando dessa porcariazinha de guri.
Reclamava rindo, as mãos ajeitando as cobertas em volta do corpo do menino. Que cheiro bom tinha Luciana quando se curvava para ele. Maurício fechava os olhos, aspirava fundo: parecia o cheiro da fazenda. Depois abria os olhos, ficava vendo os movimentos dela. Como Luciana era grande, como Luciana era boa, como Luciana era bonita, como...
— Luciana, por que é que tens as mamicas tão grandes?
Por um segundo a moça ficava séria. Depois ria:
— Porque sim, ué.
— Mas por quê, Luciana? As minhas são pequenininhas, olha aqui, ó — desabotoava o pijama e mostrava.
Luciana ralhava de novo:
— Abotoa esse troço, guri! Se tu pega uma pulmonia acabam é botando a culpa em mim.
— Mas por que, Luciana...
— Por que o que? — perguntava ela distraída, enquanto mexia nas cortinas, já esquecida da pergunta.
— ... que tu tens umas mamicas tão grandes?
Ela largava os braços como quem diz: “Quem é que pode com esse pestinha?” Então explicava:
— É porque eu sou mulher e tu és homem.
— E se eu fosse mulher, aí tinha?
— Tinha.
— E se tu fosses homem, aí não tinha?
— Não tinha.
— E se...
Luciana fechava a cara:
— Toma já-já este leite e pára com essas perguntas senão eu chamo a comadre Joana!
Maurício parava. Comadre Joana — brrrrr! —, um arrepio de nojo, frio e medo eriçava-o todo. Lembrava da velha babona, a boca sem dentes, as mãos iguais a duas garras. Estendia a mão, pegava o copo de leite. Bebia devagar, calorzinho gostoso descendo pela garganta, espalhando-se pelo corpo inteiro. Depois era a vez do bolo, que tinha o mesmo cheiro de Luciana. — Já tomei — dizia. — Agora conta uma historia.
Ela sentava na beira da cama. Voltava os olhos para a janela onde o vento colocava assobios de inverno.
— Qual? A do Negrinho do Pastorejo?
— Não. Essa tu já contou. Outra.
— Deixa ver... A do Boitatá?
— Essa também tu já contou.
— A da Moura-Torta, então.
— Puxa, Luciana, eu já conheço todas essas. Uma história nova.
— Hum... nova?
Ela começava a passar a mão sobre a colcha de retalhos que tia Violeta tinha feito. A mão morena contrastava com os pedaços coloridos de tecido. Baixava a cabeça, uma sombra escurecia seu rosto, fazendo-a ficar muito séria. Mauricio espichava o corpo na cama, preparando-se para a ouvir, Luciana começava:
— Era uma vez...
— Uma princesa, já sei.
— Não sabe nada. Fica quieto senão não conto. Era uma vez um castelo onde morava uma rainha muito velha, junto com três filhas. Uma das filhas era solteira, mas as outras duas eram casadas. Uma das casadas tinha um filho assinzinho do teu tamanho e igualzinho a ti, só que era ainda mais chato. A outra tinha um filho que era um príncipe muito bonito, de olhos azuis e dedos muito compridos. Esse príncipe não morava junto com elas no castelo, morava numa cidade muito grande e muito longe. Só vinha nas férias, e então todo mundo ficava mais alegre, tudo ficava mais colorido, porque ele era muito bom e muito bonito.
Maurício achava graça:
— Que engraçado, parece o Edu, não é, Luciana? Me diz, ele era parecido com o Edu, era?
Luciana ficava muito tempo quieta, alisando os fios rebeldes da colcha de retalhos. Depois dizia:
— Era. Era sim. Bem igualzinho a seu Eduardo.
Maurício achava engraçado ela dizer “seu Eduardo” e ficar tão triste sempre que falavam nele. A história continuava:
— Nesse castelo também tinha uma moça muito pobre que servia de empregada. Todos tratavam muito bem ela, e ela queria muito bem todo mundo, principalmente aquele piazinho que era igual a ti.
— E era bonita a moça essa?
— Era. Acho que era.
— Como é que ela era, hein?
— Grande, trabalhadeira, os cabelos pretos e os olhos dum castanho bem claro, quase cor de casca de laranja quando esta madura.
— Parecidos com os teus, então?
— É. Parecidos com os meus. Mas a moça vivia muito triste, porque ela gostava do príncipe e tinha roubado um retrato dele. Todos os dias, quando acordava de manhã, a primeira coisa que ela fazia era olhar bem pra cara dele. Aí a moça sorria e ficava um pouquinho alegre. De noite, antes de dormir, ela olhava de novo o retrato, dava um beijo nele e ficava outro pouquinho alegre.
— Péra aí— interrompia Maurício. — Naquele tempo já tinha retrato?
— Retratos são modos de dizer. Era uma pintura que um pintor tinha feito do príncipe.
— Ah, bem. Mas essa moça era meio doida, não era?
— Doida por quê, guri?
— Ih, Luciana, esse negócio de beijar retrato e só doido que faz.
Ela explicava, sorrindo — um sorriso diferente dos que costumava sorrir: — Não, gurizinho. Quando a gente gosta mesmo duma pessoa, a gente faz essas coisas. — Calou um momento, depois acrescentou: — Faz até pior. — Pior, como? Lamber o prato que a pessoa come?
Ela não respondeu. Mauricio deu uma cuspidinha de lado, fazendo cara de nojo.
— E daí, Luciana?
— Daí que a vida da moça foi ficando um inferno. Ela não pensava noutra coisa o dia inteiro. Só no amor que sentia. Pensava no amor que sentia pelo príncipe o dia inteiro, nem comia mais direito, nem dormia, nem trabalhava nem nada. As princesas e a rainha ralhavam com ela o tempo todo. Passava o ano todo esperando o príncipe vir de férias. Mas quando ele vinha, a moça ficava ainda mais triste.
— Por quê, hein?
— Porque ela via ele todos os dias.
— Ué, mas não era então pra ela ficar alegre em vez de triste?
— Não, porque o príncipe não ligava mesmo pra ela.
— Mas ela não era bonita?
— Era.
— Então por que o príncipe não gostava dela?
— É que ela era empregada.
— E o que tem isso?
— Tem que ela não sabia calçar um sapato bonito pra ir nas festas do castelo, nem tinha nunca vestido uma roupa bonita nem ido num baile. E se fosse, todo mundo ia ficar logo vendo que ela nunca tinha ido e o príncipe ia ficar muito triste e morto de vergonha.
— E o príncipe sabia que ela gostava dele?
— Não. Ela não queria contar pra ele porque ele era muito bom e ia ficar triste por não poder gostar dela. E ela não queria que ele ficasse triste.
— E depois, Luciana? — perguntou Mauricio, que estava achando aquela história meio sem jeito.
— Depois o príncipe foi embora.
— E a moça?
— A moça morreu, coitada.
— Morreu como, Luciana?
— Tomou um veneno.
— Tadinha da moça...
Maurício baixava os olhos, encostava a cabeça no travesseiro. Uma vontade de chorar e chorar de pura pena da moça.
— Que história mais triste, Luciana.
O minuano forçava as vidraças. Por baixo delas escorregava um friozinho que colocava arrepios na pele da gente. Maurício tinha a impressão de que junto com o frio escorregava também um grande silêncio. Lá fora só se ouvia algum latido de cachorro ou barulho de lata que o vento levava para diante, sem dó. De manhãzinha o pátio estaria todo atapetado de geada, ele espiaria pela janela e acharia tudo muito bonito. Depois voltaria para a cama, cairia num sono ainda mais gostoso, para acordar com a voz da mãe chamando: “Tá na hora da aula, Maurício.” A colcha de tia Violeta esquentava o corpo por fora, o copo de leite de Luciana esquentava a gente por dentro. Todo ele estava quentinho e pronto para dormir. O frio continuava escorregando pela janela, cada vez mais gelado. Um silêncio, meu Deus. Tadinha da moça da história. Os olhos iam-se fechando, o corpo
diminuindo, caindo num poço todo algodoado, sem fundo. De súbito voltava à tona, atraído por um barulho muito leve. Abria os olhos e perguntava: — Luciana, por que é que tu estás chorando?

Caio Fernando Abreu
Limite Branco

Nenhum comentário:

Postar um comentário